Marília, afasta de ti esse cálice!

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Em artigo publicado há exatamente uma semana no Brasil 247, chamei a atenção para o amadurecimento político de Marilia Arraes e das esquerdas na cidade do Recife, apontando a importância de levar a candidata da aliança entre PT e PSOL para o segundo turno.

Naquele momento, dava-se como certa a passagem do candidato João Campo, do PSB, ao segundo turno, restando a definição sobre quem passaria em segundo lugar: Marília ou o ex-ministro da educação do governo Temer, Mendonça Filho, do DEM.

O resultado das urnas surpreendeu não pelo segundo lugar alcançado pela neta de Arraes – deixando de fora do segundo turno as candidaturas de direita e extrema-direita – mas, sim, pela curtíssima distância entre a sua votação e a do bisneto de Arraes: cerca de dez mil votos apenas.

Levando em consideração o acelerado crescimento das suas intenções de voto na reta final da campanha, não representou um raio em céu azul os resultados das duas primeiras pesquisas para o segundo turno no Recife, com Marília tendo obtido 45% e 41%, e João 39% e 34%, nas pesquisas divulgadas pelo Ibope (18/11) e pelo Datafolha (19/11), respectivamente.

Surpresa mesmo, uma desagradável surpresa, foi ter tomado conhecimento dos apoios, com direito a fotos, recebidos por Marília poucas horas após a divulgação dos resultados do primeiro turno – apoios vindos de partidos e lideranças bolsonaristas e neopentecostais, ou seja, da lama política que há tempos denunciamos e combatemos no cotidiano da resistência democrática.

 Do meu ponto de vista, que é apenas a vista de um ponto, crítico e independente, mas que é um ponto pertencente ao campo político da esquerda democrática, foi cometido um grave erro, tanto eleitoral como político, pela campanha de Marília.

Eleitoral porque o crescimento verificado nas pesquisas do Ibope e Datafolha já era um dado que, em absolutamente nada, foi influenciado pela divulgação dos apoios (e fotos) com o prefeito bolsonarista-neopentecostal Anderson Ferreira, reeleito para a prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, e com o presidente do Podemos, partido bolsonarista no qual a Delegada Patrícia (esta mesma que afirmou há algum tempo nunca ter visto tanta gente feia como no Recife) concorreu à prefeitura.

Político, porque repete aquilo que já foi feito inúmeras vezes no passado pelo Partido dos Trabalhadores: apoios que acabaram se tornando alianças, com as faces mais conservadoras, fisiológicas e confessionais da política nacional; apoios que neutralizaram significativamente o reformismo das experiências de governo do PT. A lista de exemplos não é pequena, incluindo muitas das lideranças e partidos que se bandearam para o golpismo de Michel Temer e para o fascismo de Jair Bolsonaro na primeira janela de oportunidade aberta.

Pois bem, o erro já foi cometido, mas talvez ainda haja tempo de revertê-lo, antes que se perca a proposta de “inversão de prioridades” presente no programa de governo da Coligação Recife da Gente.

Por isso, Marília, afasta de ti esse cálice!

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