Medo ou ódio de Dilma?

Se pudessem, além de cassar o mandato de Dilma, os golpistas também a condenariam à morte. Felizmente no Brasil não existe pena de morte e, portanto, eles serão obrigados a engoli-la, como diria Zagalo, enquanto ela estiver bulindo

Brasília - DF, 31/08/2016. Presidenta Dilma Rousseff durante declaração a imprensa após comunicado do Senado Federal sobre o Processo de impeachment. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Brasília - DF, 31/08/2016. Presidenta Dilma Rousseff durante declaração a imprensa após comunicado do Senado Federal sobre o Processo de impeachment. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR (Foto: Ribamar Fonseca)
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Se pudessem, além de cassar o mandato de Dilma, os golpistas também a condenariam à morte. Felizmente no Brasil não existe pena de morte e, portanto, eles serão obrigados a engoli-la, como diria Zagalo, enquanto ela estiver bulindo. Mas, afinal, por que tanto empenho, junto ao Supremo Tribunal Federal (são mais de dez ações), em inabilitá-la para funções públicas nos próximos oito anos? Ódio ou simplesmente medo de que ela volte ao cenário político nas eleições de 2018? Talvez a maior interessada em banir a petista do cenário político seja a alegre golpista Ana Amélia, que poderá enfrentá-la para conseguir, no pleito de 2018, sua reeleição para a cadeira que ocupa no Senado. Por ironia do destino, a senadora gaúcha, que foi uma das mais ferozes defensoras do impeachment, correrá o risco de perder a cadeira justamente para aquela cujo mandato de Presidente da República ajudou a cassar. Por isso, deve rezar para que a Suprema Corte anule a decisão do Senado que, em segunda votação, manteve os direitos políticos dela.

Aparentemente, porém, nenhuma das ações que questionam, no Supremo Tribunal Federal, as votações do Senado que cassaram o mandato da Presidenta e preservaram os seus direitos políticos será apreciada tão cedo pela mais alta Corte de Justiça do país. Por duas razões: primeiro, pelo risco, alertado pelo próprio ministro Lewandowski durante a sessão e por uma das redatoras do pedido de impeachment, a advogada Janaina Pascoal, de que todo o processo venha a ser anulado; e, segundo, porque os outros ministros do Supremo dificilmente votarão contra o presidente da Corte, que conduziu a sessão e determinou o fatiamento da decisão com base em sua interpretação da Lei. Assim sendo, provavelmente o STF manterá as questões sob "esquecimento" até depois das eleições municipais de outubro, aproveitando o desvio das atenções para o pleito e, também, dando tempo para que os ânimos se esfriem. Por outro lado, acusados de cúmplices do golpe, os ministros obviamente também pretenderiam sair um pouco da frente dos holofotes, escapando das pressões, de maneira a respirar um pouco antes de retomar suas atividades.

Enquanto isso, o governo Temer, conforme previsto, enfrenta o repúdio da população, que não o aceita como Presidente, até porque não o elegeu. Entre as muitas burradas que vem fazendo, desde que assumiu interinamente a Presidência da República, está a violenta repressão às manifestações de rua, especialmente em São Paulo, que pedem a sua saída do Palácio do Planalto. Com a cumplicidade do governador paulista Geraldo Alkmin, que lança a Policia Militar contra jovens desarmados, e o apoio escandaloso dos jornalões, os mesmos que apoiaram o golpe de 64, Temer tenta sufocar o grito rouco das ruas com cassetetes, balas de borracha e gás lacrimogêneo. Por conta disso a jovem universitária Deborah Fabri ficou cega do olho esquerdo, atingida por uma bala de borracha disparada pelos policiais. E o mais surpreendente: um professor universitário, Julio José da Silva, um pobre diabo imbecil e desumano, comemorou o disparo que cegou a jovem, evidenciando a infiltração do fascismo até nas universidades.

Alkmin que, a exemplo de outros tucanos emplumados, apoiou a conspiração que desaguou no golpe, faz agora o trabalho sujo do seu aliado Temer, utilizando a PM para massacrar o povo que não aceita um presidente sem votos no Planalto. E prendeu mais de duas dezenas de jovens estudantes, mantendo-os incomunicáveis, sem que eles tivessem sequer participado das manifestações. Para completar, lançou bombas de gás lacrimogêneo nas pessoas que, ao final da manifestação pacífica, já retornavam para seus lares. Até parece que voltamos aos dias negros da ditadura. Essa é a democracia que o governador paulista e seus companheiros de partido vivem arrotando? E tudo isso com o apoio dos jornalões que, traindo os mais elementares princípios do jornalismo, não apenas tentam esconder o tamanho e a importância das manifestações – não divulgam sequer o número de manifestantes – como, também, minimizam a violência policial, inclusive aplaudindo, em editorial, a repressão. Quando as manifestações eram contra a presidenta Dilma Rousseff os mesmos jornalões ampliavam o número dos que protestavam e, ao mesmo tempo, defendiam o direito à livre manifestação do pensamento. Dois pesos e duas medidas. Os grandes nomes do jornalismo nacional no passado devem estar revirando nos túmulos.

E além da condenável repressão, mais uma vez os tucanos escancaram, sem o menor constrangimento, um cinismo de doer. Ao mesmo tempo em que aplaude, em artigo publicado no domingo, a decisão do Senado que cassou o mandato da Presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos inspiradores e incentivadores do golpe, revela não saber "contra quem e a favor do quê" o povo se manifesta nas ruas. Tem um monte de faixas e cartazes gritando "fora Temer" empunhado pela multidão, mas FHC não consegue ver contra quem ela está se manifestando. Enquanto isso, o chanceler José Serra, que implantou no Itamaraty a diplomacia do porrete, aconselha os países vizinhos, particularmente a Bolívia e o Equador, a "aprenderem a fazer democracia com o Brasil". Isso é um deboche, próprio de governos sem votos que, em apenas três meses, destroem um trabalho de décadas na construção de relações estreitas amigáveis com as nações da América do Sul. Para quem transformou, cinicamente, uma bolinha de papel num tijolo tal comportamento não surpreende. Afinal, este é o novo Brasil, o Brasil de Temer, de FHC, de Serra, de Jucá, de Cunha, de Aécio e companhias.

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