Mercado desesperado faz chantagem na Argentina, como já fez no Brasil

Os argentinos, em geral mais politizados do que os brasileiros, não caíram na conversa mole dos neoliberais e esperaram o momento certo para dar o troco. Agora, a estratégia do mercado é uma velha conhecida; o terrorismo de espalhar medo

Presidente da Argentina, Mauricio Macri
Presidente da Argentina, Mauricio Macri (Foto: REUTERS/Agustin Marcarian)

A derrota acachapante de Maurício Macri nas eleições primárias da Argentina deixou o mercado em estresse total. Os analistas pisaram na bola. Acreditaram na grande mídia, que junto com o mercado têm a tarefa de vender fantasias. 

Macri havia conseguido, segundo a mídia conservadora, o milagre de criar uma alternativa ao kirchnerismo, de modo que a população não toparia mais voltar a um suposto populismo peronista. 

A direita martelou que a terapia do livre mercado seria a salvação eterna, mesmo não dando conta do recado de atender demanda maior da população; emprego, renda, consumo, desenvolvimento. 

Os argentinos, em geral mais politizados do que os brasileiros, não caíram na conversa mole dos neoliberais e esperaram o momento certo para dar o troco. Agora, a estratégia do mercado é uma velha conhecida; o terrorismo de espalhar medo.

Foi o que fizeram aqui quando Lula derrotou a direita, então representada pelo PSDB, em 2002. Disseram que Lula no poder daria calote na dívida interna, que pulara de R$ 65 bilhões para R$ 600 bilhões, no embalo da sobrevalorização cambial de FHC de combate à inflação. 

O ex-presidente tucano estourou as contas públicas no embalo do populismo cambial, enquanto a balança comercial registrava déficits crescentes, sinalizando colapso no balanço de pagamentos e desindustrialização. Isso fez com que Lula assumisse o governo com inflação de 6%, desemprego de 12%, taxa de juros de 20% e com fatura negativa do real debaixo de câmbio fixo superapreciado e eleitoreiro.

Em 2002 no Brasil, a mídia vendeu o mesmo peixe podre que tenta vender agora na Argentina, diante do crash neoliberal de Macri. O candidato vitorioso, Lula, teve que escrever uma carta aos brasileiros, enquanto candidato, jurando que não iria corresponder às expectativas plantadas pela mídia de dar o calote na dívida. 

Inverteram os fatos. 

Na verdade, FHC, como Macri, sucateou a economia, a colocando no rumo do desastre, com o experimentalismo heterodoxo da moeda artificial para tentar vencer inflação à custa da desindustrialização e destruição dos empregos, impulsionando dívida e crise.

Essa é a estratégia que está em prática, no Brasil, desde o golpe de 2016, do impeachment sem crime de responsabilidade para derrubar governo legitimamente eleito. 

O programa Ponte para o Futuro, do golpista Temer, aliado das forças de direita, derrotadas na eleição presidencial de 2014, desarticulou as bases nacionalistas do governo popular petista, para instalar a violenta austeridade fiscal, cujas consequências, quase três anos depois é de mais desajuste fiscal, somado ao desmonte do Estado, este submetido ao congelamento de investimentos públicos por vinte anos. 

Em um momento de crise, faz-se ainda mais necessário um plano emergencial de emprego e renda. A austeridade fiscal, que corta investimentos públicos, nunca funcionou na retomada do crescimento. Os governos de Lula comprovaram que, em momentos de crise, o papel indutor do estado via investimentos em infraestrutura é um ótimo incentivo pra alavancar os investimentos privados. E não o contrário. Chega de fundamentalismo fiscal que abraça os bancos e rentistas e prejudica o povo e os investidores produtivos do orçamento público!

O Brasil precisa, de maneira urgente, revogar o teto dos investimentos como um primeiro passo. A redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas nos próximos dez anos e um programa de renda básica universal, a começar com os 13,2 milhões que estão na extrema pobreza, de acordo com dados do IBGE, são outros pontos fundamentais para a retomada do crescimento econômico em um mundo cada vez mais dinâmico. 

Hoje, os investidores, caindo na real diante dos baixos investimentos decorrentes da insustentabilidade fiscal brasileira, vivem a total ausência de expectativas para as atividades produtivas. Há 25 semanas a economia está parada, como destaca pesquisa semanal Focus, apurada por 100 instituições financeiras.

É o mesmo cenário que levou á derrota espetacular de Macri e o desespero do mercado. O desastre argentino é mais que suficiente para demonstrar a inviabilidade da terapia fiscal do ultraliberalismo. A volta do centro-esquerda ao poder está sendo escrita no compasso do desastre da política temer/bolsonarista/macrista. 

Os golpistas daqui, portanto, não perdem por esperar.

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