Mídia ignorou o básico: a quem interessava a suposta facada?

"Base elementar de qualquer investigação policial, essa pergunta foi e continua sendo solenemente ignorada pela imprensa", escreve Bepe Damasco

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Base elementar de qualquer investigação policial, essa pergunta  foi e continua sendo solenemente ignorada pela imprensa.

Ao guiar seu  trabalho por esse fio condutor, o jornalista Joaquim de Carvalho logrou levantar, no seu documentário “Bolsonaro e Adélio – uma fakeada no coração do Brasil”, levado ao ar pela TV 247, pontos importantes ignorados até então pela cobertura jornalística, seja por preguiça, falta de coragem ou até interesse político em comprar a versão oficial sobre o episódio.

Examinando o quadro político-eleitoral daquele dia 6 de setembro de 2018, vemos que não encontra amparo nos fatos a narrativa corriqueira na mídia segundo a qual o candidato favorito virou alvo de um criminoso tresloucado  por conta da iminência de sua vitória. Quem se der ao trabalho de pesquisar verá que, ao contrário, ali começava a se desenhar a derrota de Bolsonaro, revertida depois, é claro.

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Explico: lançado candidato poucos dias antes, depois que o sistema judicial de forma ilegal cassou a candidatura de Lula, Fernando Haddad crescia vertiginosamente nas pesquisas. Sua curva ascendente tinha ares de fenômeno político, enquanto Bolsonaro permanecia estagnado, mas com viés de baixa.

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As projeções indicavam que logo o candidato do PT ultrapassaria Bolsonaro nas intenções de voto. Aliás, as simulações de segundo turno já apontavam a liderança de Haddad.

Filiado a um partido nanico, Bolsonaro, que dispunha de poucos segundos na propaganda eleitoral, mal começara o movimento de romper a bolha de fanáticos ultraconservadores.

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Sua candidatura se mantinha competitiva porque era impulsionada por fake news criminosos, financiados por empresários. Contudo, se iniciara a fase dos debates, grande calcanhar de Aquiles do candidato, dada sua proverbial estupidez sobre todos os assuntos importantes para um candidato à presidência da República.

A performance de Bolsonaro no primeiro debate entre os candidatos organizado pela TV Bandeirantes fora avaliado até por seus assessores mais próximos como um retumbante fracasso, acendendo a luz amarela no staff bolsonarista.

Para encurtar a história, a providencial facada catapultou a exposição midiática do candidato da extrema-direita dos escassos segundos do PSL para um latifúndio de tempo espontâneo e positivo nas emissoras de TV e rádio, jornais e revistas, bem como nos sites noticiosos da internet e nas redes sociais.

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E o tom de vitimização era absoluto: “o candidato andou pelo quarto”, “hoje fez a primeira refeição”, “foi ao banheiro pela primeira vez” e por aí vai.

Estava alcançado o almejado objetivo de fugir dos debates. E não só do primeiro turno. A convalescência da facada serviu também para que Bolsonaro escapasse dos confrontos com Haddad no segundo turno, nos quais seria triturado pelo professor. Nada impedia, porém, suas viagens de campanha pelo país e o comparecimento a entrevistas em emissoras amigas, como a Record do bispo Macedo.

Voltando ao documentário do bravo Joaquim de Carvalho, as 800 mil visualizações em cinco dias, mais do que qualquer sucesso estrondoso de cinema,  devem-se ao fato de o jornalista ter tido a coragem e a competência de levantar o véu que encobria vários aspectos obscuros do caso.

Depois de ler as objeções ao trabalho do Joaquim feitas pelos jornalistas San Pancher (Metrópoles), Rafael Moro Martins (The Interpect), além do extenso questionário enviado ao autor do documentário por Ranier Bragon, da Folha de São Paulo, devolvo a esses profissionais algumas indagações. Outras tantas ficam para um próximo artigo, já que esse debate deve render.

1) Vocês consideram normal o sumiço da camiseta usada por Bolsonaro no dia do suposto atentado?

2) O prontuário médico não ter sido entregue pelo Hospital Albert Einstein à Polícia Federal não levanta nenhuma suspeita?

3) Que história é essa de um sujeito que leva uma vida miserável frequentar clube de tiro de elite onde o filho do presidente da República treinava sua pontaria?

4) Por que a família humilde de Adélio, moradora em Montes Claros (MG), foi completamente alijada pelo advogado do réu de qualquer tratativa envolvendo seu processo e sua prisão?

5) Por que o advogado de Adélio se tornou seu tutor, se ele tem familiares vivos?

6) Por que a internação em um presídio de segurança máxima, em Campo Grande (MS), e não em uma unidade psiquiátrica, já que ele foi dado como inimputável por sofrer de distúrbios mentais?

7) Por que a imprensa embarcou sem questionamento na versão oficial segundo qual Adélio era um ex-filiado a um partido de esquerda, o PSOL, e jamais mencionou sua adesão a teses reacionárias na questão dos direitos humanos, posições tão caras ao bolsonarismo?

8) Por que a filiação de Adélio, ou tentativa de filiação, ao PSD nunca foi citada pela mídia comercial?

9) Prezados jornalistas, decorridos quase três anos de desgoverno Bolosonaro, com incontáveis crimes de responsabilidade, contra a saúde pública (quase 600 mil mortos) e ataques em série à democracia, por que a relutância em admitir que Bolsonaro seria perfeitamente capaz de forjar um atentado para ganhar a eleição?

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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