Midiocracia

Em editoriais, escritos no varandão de um triplex privado, implantado criminosamente numa praia pública em Paraty, os plutocratas fulanizam a res-pública. Juízes tomam decisões pautados por recortes de revistas e jornais. A mídia condena. Ela é a instância superior

na democracia o poder emana do povo; já a midiocracia é o poder nos tentáculos de um polvo, as mãos grandes das poucas famílias que dominam as comunicações.

em editoriais, escritos no varandão de um triplex privado, implantado criminosamente numa praia pública em Paraty, os plutocratas fulanizam a res-pública.

juízes tomam decisões pautados por recortes de revistas e jornais.

a mídia condena.

ela é a instância superior.

o país vira um imenso big brother.

há câmeras por todos os lados, ninguém põe o dedo no nariz nem em elevadores.

até dentro de prisão, senhoras e senhores, no xadrez, há câmeras.

a presidenta é grampeada, sua conversas domésticas e privadas ganham o mundo; sempre manipuladas, editadas.

dá-se o golpe.

implanta-se a midiocracia, de fato e de direito.

um dandy travestido de Mordomo do Conde Drácula, faz pose de boneco de cera na cadeira presidencial, aguarda ordens com a TV ligada.

a opinião publicada se torna, definitivamente, um simulacro da opinião pública.

imagens são manipuladas para inflar manifestações e pixulecos, inflamando o povo.

entra em jogo a tática Ricupero: "o que é bom (pra gente) a gente fatura; o que é ruim (pra gente), a gente esconde".

congressistas, vaidosos, fazem tudo para contribuir com o espetáculo.

os jornais dão prêmios e manchetes laudatórias para quem fizer, com competência, o trabalho sujo.

é uma forma de atirar ossos aos cães.

todos chafurdam na lama fétida do golpismo.

moralista imorais viram heróis.

os ventríloquos da plutocracia, onipresentes, amplificam a voz dos patrões em todos os meios possíveis.

midiotas marinetizam-se, autômatos.

as ruas se enchem de zumbis.

parlamentares votam com a mídia.

juízes julgam de acordo com as opiniões publicadas.

a igreja eletrônica tornou a TV um espaço sagrado.

pastores cibernéticos, com as unhas feitas e as contas bancárias recheadas, dão surras de chicote em esposas de magistrados.

Deus finalmente revela-se em sua ubiquidade, em tela plana, plasmado, cuspindo ódio e fogo, manipulando, mentindo:

compre isso, coma aquilo, vista aquilo outro, não se vista dessa forma...

pague o dízimo ou será dizimado.

as mensagens imperativas se multiplicam.

homens de bens agora são chamados de homens de bem.

mandam e desmandam, matam e desmatam.

há troncos por todas as praças e largos; negros são açoitados.

as minorias se tornam uma afônica maioria: negros, índios, homossexuais, mulheres do grelo duro, pobres...

a sociedade cria castas; cada um no seu quadrado.

a mídia afunda a não e funda dois Brasis: um servirá apenas para servir o outro.

faz-se trevas.

do céu vem a boa nova.

vê-se uma enorme sombra cobrir a terra.

é o meteroro.

imenso, o mesmo que extinguiu os dinossauros.

o povo, os mudos, os afônicos, os deficientes cívicos, se ajoelha com as mãos aos céus.

genuflexos, imploram pela implosão.

ouve-se um estrondo.

acordo, suado, assustado.

abro a varanda e grito, na madruga, a plenos pulmões:

não passarão, raça de víboras.

não vai ter golpe.

atiro a TV pela janela.

os vizinhos me imitam.

vou à geladeira, tomo uma água gelada e volto a dormir o sono dos justos.

pesadelo do cacete.

palavra da salvação.

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