Mil dias de maldades

"A maioria da população brasileira, cerca de 80%, não tem hoje presidente da República. Não naquele sentido de uma liderança que toma as dores na nação nas horas difíceis, zela (ou ao menos finge que) pelos mais vulneráveis, representa o interesse da maioria e tenta dar exemplos", escreve a jornalista Helena Chagas

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(Foto: Roberto Parizotti - Fotos Públicas)
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Por Helena Chagas, do Jornalistas pela Democracia

Foi, desde o primeiro momento, um não-governo. Não só pelo aspecto administrativo, da falta de uma governança lógica, coerente, organizada. Foi, sobretudo, pela ausência de conexão e empatia com a maioria da sociedade brasileira. Desde o primeiro dia, Jair Bolsonaro, embora eleito por 58 milhões governa para um punhado de seguidores fiéis, um grupo de pouco mais de 20% que gosta de armas e de fake news, que não dá a mínima para a democracia e, no campo comportamental, tem ideias que tornam nossas avós modernas.

A maioria da população brasileira, cerca de 80%, não tem hoje presidente da República. Não naquele sentido de uma liderança que toma as dores na nação nas horas difíceis, zela (ou ao menos finge que) pelos mais vulneráveis, representa o interesse da maioria e tenta dar exemplos. Não temos nada disso que o brasileiro, de forma certa ou errada, busca num presidente simbolicamente: uma espécie de pai, protetor, líder.

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O sujeito exótico que está sentado lá naquele gabinete do terceiro andar do Planalto padece de alguma enfermidade no campo da psiquiatria, aquela falta de empatia que, segundo os especialistas, caracteriza os psicóticos. No popular, pode-se dizer que é um sujeito mau. Não mostra compaixão com a dor e a tristeza de quase 600 mil mortos na pandemia e suas famílias, insiste em tratamento ineficazes - e numa repulsa à vacina - que já provocaram milhares de mortes e podem causar mais. 

Bolsonaro, todo mundo sabe, nunca se comoveu com a pobreza. Está querendo agora turbinar o Bolsa Família por razões unicamente eleitoreiras - e nem se dá ao trabalho de esconder isso. Está se lixando também para a educação, única porta de saída certa para as gerações que nascem na miséria. Além de todo o descalabro que desidratou programas de acesso ao ensino que vão das creches à universidade, o presidente vetou até a banda larga obrigatória para as escolas da rede pública.

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Não falamos aqui do Bolsonaro despreparado para governar e do que desafia a democracia com ameaças golpistas, que nos trouxe o maior risco institucional desde a redemocratização do país, há mais de 35 anos. Vamos ficar só no Bolsonaro malvado, o que já basta para alimentar dia-a-dia a infelicidade geral da nação. Foram 1.000 dias de maldades. E ainda faltam 460.

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