Militares que aderiram ao golpe permanecem no governo para garantir equilíbrio

Para Denise Assis, Jornalista pela Democracia, tanto o general Hamilton Mourão, quanto o general Villas Boas sabiam muito bem quem estavam colocando na cadeira de presidente; "Mourão, por tudo isto e o plus de poder assumir, caso a situação ficasse incontrolável. Villas, com a pretensão de manter o "equilíbrio" entre fazer um governo liberal e conter o tresloucado que poderia, por exemplo, entrar em guerra com a Venezuela. Por entender que são os "garantidores" da ordem pública e ter papel de "arbitragem" na sociedade, os militares permanecem"

Militares que aderiram ao golpe permanecem no governo para garantir equilíbrio
Militares que aderiram ao golpe permanecem no governo para garantir equilíbrio (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

Uma pergunta pulula na redes sociais e nas cabeças preocupadas com o destino do país, nos últimos dias: por que os militares, mesmo humilhados pelos filhos e pelo guru de Bolsonaro - aquele senhor de quem vou declinar o nome - continuam no governo?

Para respondê-la, é necessário recuar alguns anos. Em 1993, ao ser entrevistado pelos pesquisadores do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas, Maria Celina D'Araujo e Celso Castro, o ex-ditador Ernesto Geisel proferiu a seguinte frase: "Militares devem ficar fora da política partidária, mas não da política geral". Na mesma entrevista, declarou também que "todo político que começa a se "exacerbar em suas ambições" logo imagina uma revolução a cargo das Forças Armadas. Para ilustrar o que dizia, citou como exemplo o capitão Jair Bolsonaro, a quem classificou de "Um mau militar", atribuindo a ele, Bolsonaro, consecutivos pedidos de "um novo golpe".

"Neste momento em que estamos aqui conversando, há muitos dizendo: 'Temos que dar um golpe. Temos que derrubar o presidente! Temos que voltar à ditadura militar!' E não é só o Bolsonaro, não! Tem muita gente no meio civil que está pensando assim", disse Geisel.

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Profético. Em 2013, ou seja, 20 anos depois desta declaração, cartazes e faixas surgiam nas ruas, nas manifestações contra o governo Dilma, pedindo um novo golpe militar. As palavras de ordem, porém, caíram no vazio. Durante todo o processo do impeachment, os militares permaneceram nos quartéis e se fizeram de mortos, embora todos soubessem que eles apoiavam o golpe desfechado contra o governo do PT, democraticamente eleito. E, se não intervinham, era mais para não vestirem o figurino do passado recente, do que por neutralidade no processo.

E tanto é assim, que em momento fatal, quando o Supremo Tribunal Federal julgou sobre a prisão de Lula, o Comandante Geral do Exército, o general Villas Boas, usando da modernidade do Twitter, alertou sobre a possibilidade de rebelião nas tropas, caso os ministros optassem por deixar Lula livre para concorrer e, com certeza, vencer o pleito de 2018. Neste momento, estavam cumprindo à risca o que destacou Geisel em 1993. Estavam fora da política partidária, mas não da política de modo geral.

O que se seguiu, todos nós sabemos e desnecessário se faz recordar aqui. A menos que queiramos sofrer duas vezes. Jair Bolsonaro ganhou a presidência seja lá de que modo foi, com apoio das fileiras militares, e os convidou para fazer parte do governo. Ele, por ter certeza de que não dominava metade dos assuntos que iria enfrentar no comando do governo. Eles, porque conheciam o enfant terrible que estava sendo alçado ao poder.

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Do ponto de vista dos militares, de perfil ideológico de direita conservadora, Jair Bolsonaro era a escolha mais certeira para varrer do poder o PT, de quem discordavam ideologicamente, mas era um "expulso" de suas fileiras por indisciplina. Ou seja, era o caminho, mas não a solução.

Tanto o general Hamilton Mourão, quanto o general Villas Boas, ambos avalistas desta fatura, sabiam muito bem quem estavam colocando na cadeira de presidente. Alguém que arrastava as fileiras militares de baixas patentes, e mais um populacho que o chamava de "mito", mas não confiável o suficiente, para que o deixassem solto, flanando pelo Planalto. Por isto, para estar por perto, e não por outra razão, ambos aceitaram os cargos nos quais estão hoje.

Mourão, por tudo isto e o plus de poder assumir, caso a situação ficasse incontrolável. Villas, com a pretensão de manter o "equilíbrio" entre fazer um governo liberal e conter o tresloucado que poderia, por exemplo, entrar em guerra com a Venezuela. Por entender que são os "garantidores" da ordem pública e ter papel de "arbitragem" na sociedade, os militares permanecem. Mesmo sob ataques dos filhos e daquele senhor, de quem não convém dizer o nome.

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