Moniz Bandeira, mestre que entendeu soberania e história

"Autor que nunca abriu mão do engajamento a favor das grandes causas do povo brasileiro, Moniz Bandeira deixa uma obra exemplar para os brasileiros interessados em estudar o passado para entender o presente e pensar o futuro", escreve Paulo Moreira Leite, colunista do Brasil 247. "Escrito com o compromisso de quem militava numa organização revolucionária, participava de articulações na bancada nacionalista do Congresso e mantinha uma coluna política, seu livro 'O governo Goulart' exibe a erudição de quem conhecia os temas em pauta no período e também conhecia com relativa intimidade os personagens que conduziam o país"

SAO PAULO 05/05/06 ECONOMIA OE - Professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, titular da Universidade de Brasília (UnB). FOTO DIVULGACAO
SAO PAULO 05/05/06 ECONOMIA OE - Professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, titular da Universidade de Brasília (UnB). FOTO DIVULGACAO (Foto: Paulo Moreira Leite)
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A morte de Luiz Alberto Moniz Bandeira (1935-1917)desfalca nossa cultura de um intelectual exemplar. Moniz Bandeira produziu um bom punhado de livros premiados sobre a história brasileira, combinando rigor na apuração dos fatos com o espírito engajado dos pensadores que não têm medo de assumir seu lado no debate de ideias de um período histórico.

Como historiador, produziu uma obra de referência para o entendimento dos avanços e recuos de uma das grandes questões de nosso tempo, a soberania nacional, indispensável para a democracia e o desenvolvimento do país. O vigor de suas ideias não se fazia com adjetivos nem grandes exposições doutrinárias, mas fatos bem investigados e argumentos lúcidos.  

Não li a vasta obra que Moniz Bandeira acumulou ao longo de meio século de atividade intelectual, mas li, reli e recomendo "O governo João Goulart -- As lutas sociais no Brasil -- 1961-1964)". É o melhor livro que já encontrei sobre o governo Jango e o golpe de 64. Doutor em Ciência Política pela USP, compreendia a profundidade dos assuntos em pauta no país daquele período. Também conhecia com relativa intimidade os protagonistas e boa parte dos coadjuvantes dos acontecimentos. Sucesso de vendas desde o lançamento, em 1977, o livro é consulta obrigatória até hoje. A edição original foi atualizada oito vezes, enriquecida com documentos liberados pelo Departamento de Estado norte-americano, além de pesquisas e entrevistas recentes do próprio autor. 

Escrito com o engajamento de quem era militante da Polop, organização de esquerda revolucionária no período, assessor da Frente Parlamentar Nacionalista e ainda colunista em Brasília no jornal Diário de Notícias, "O governo Goulart" reúne 484 páginas com informações alinhavadas por um aliado assumido de Jango e também Leonel Brizola, mas que manteve os olhos abertos para erros acertos de todas as partes.

Apoiado em fontes claras, o livro apresenta uma descrição detalhada da resistência liderada por Leonel Brizola ao veto de 1962, quando os três comandantes militar tentaram impedir a posse de Jango após a renúncia de Jânio Quadros. Também oferece um um bom retrato do esforço de Goulart para afirmar uma política externa independente, inclusive procurando oferecer uma terceira via de negociação na crise dos Mísseis soviéticos em Cuba, que ameaçava abrir uma 3a. Guerra Mundial. "O governo Goulart" também relata de a mobilização subterrânea de aliados de Fidel Castro que preparavam a criação de uma organização armada no país, ainda no governo Jango -- até que seus planos foram descobertos entre os destroços de um desastre aéreo, criando uma zona de perplexidade e tensão entre Brasília e Havana.

Recusando-se a assumir o tom de quem faz uma engenharia de obra feita, "O governo Goulart" debate a alta popularidade que Jango atingia em 1963 -- 35% de bom e ótimo no Ibope -- discute as origens da oposição de John Kennedy a seu governo e faz um levantamento cuidadoso para explicar a natureza inteiramente ilusória da lealdade que a Casa Militar  prometia ao presidente. Num esforço típico de quem nunca deixou de ser repórter, Muniz Bandeira examina a versão de que Jango morreu envenenado. Após uma investigação em várias pontas, deixa claro que não encontrou um único fato capaz de sustentar a versão de assassinato.

Num país onde fantasmas do passado assombram o presente, em operações contra a democracia que se reproduzem de maneira periódica, Moniz Bandeira deixou uma obra indispensável para os brasileiros que querem pensar seu futuro.

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