Muito além do China in Box

Como país multiétnico, de vasta extensão territorial e, portanto, muitas culturas, a China se assemelha ao Brasil no que diz respeito à gastronomia

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A alimentação chinesa foge muito ao famoso "frango xadrez" do China in Box. Na verdade, aquilo é comida que pertenceu às classes médias e altas chinesas e que um dia foram levadas a Taiwan, a ilha chinesa que enviou o maior número de imigrantes ao ocidente. Na realidade, como país multiétnico, de vasta extensão territorial e, portanto, muitas culturas, a China se assemelha ao Brasil no que diz respeito à gastronomia. No litoral, por exemplo, onde estão Guandong, Shanghai, Guangzhou, Hong Kong, Macau e Taiwan, predominam peixes e frutos do mar. Em Sichuan, o sul mais interior, há as comidas mais apimentadas de toda a China, as quais praticamente somos incapazes de comer. Em Pequim, frango e porco são comuns. Há ainda a culinária tibetana e uiguri, das regiões autônomas de Tibete e Xinjiang, respectivamente.

Essa imensa China é em grande parte desconhecida pelos ocidentais, que identificam a cultura do país à do povo han, de longe o mais numeroso.

Mas mesmo entre os hans há um tipo de alimentação para cada segmento social. E a classe trabalhadora frequenta mesmo os mercados de rua. São muitas feiras populares na China. E aqui, ao contrário dos ocidentais que privilegiam a aparência, o perfume dos alimentos, vale mesmo o valor nutricional. É uma preocupação dos chineses, muito mais que os outros atributos, que têm sua importância, mas não são essenciais como no ocidente. Por isso, talvez, os ocidentais tenham dificuldade em se adaptar às comidas tradicionais chinesas.

Os espetinhos dos mercados de rua revelam o quanto está correta a concepção de que alimentação é política. É história. É antropologia.

Portanto, a alimentação nutricional chinesa, um dos povos que reconhecidamente têm menos problemas alimentares no mundo, ao contrário de estadunidenses, europeus e mesmo brasileiros, revela a história de um povo numeroso e que passou por diversas dificuldades econômicas na história. Não há boi para alimentar um bilhão de chineses, tampouco terra cultivável num país extenso em território, mas tomado por um deserto ao Oeste, o de Gobi, a maior cadeia de montanhas do mundo ao sul, o Himalaia, e estepes geladas ao norte, a Mongólia Interior. Logo, otimizar a alimentação se tornou prioridade para este povo.

Por isso, há os conhecidos alimentos que os ocidentais acham estranhos nos comércios populares chineses. Escorpiões, casulos, centopeias, estrelas do mar, revelam a necessidade de nutrição que quebrou preconceitos alimentares e passou a tratar como alimento tudo que possa contribuir com o corpo humano sem lhe fazer mal. O escorpião, cozido para dissipar o veneno e frito depois, é rico em potássio e bom para os músculos, por exemplo. O casulo, afrodisíaco.

Mas alimentação também é cultura. Enquanto os chineses comem esses alimentos na maior boca boa, nós sempre vamos repugnar. Não tem jeito. São anos aprendendo que isso não se come, o que não se muda facilmente.

Porém, ao jornalista cabe experimentar para passar a sensação aos seus leitores. Houve, nos anos 1970/80, nos Estados Unidos, uma tradição chamada "jornalismo gonzo", em que os profissionais se submetiam a experiências perigosas as mais variadas, como dirigir a 200 km/h ou usar drogas, para relatar a sensação ao seu público. Não chega a tanto, mas vivi a experiência do jornalismo gonzo, um pouco, ao provar da comida de rua chinesa para mostrá-la a vocês.

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