Na contramão do mundo, sem voto e sem política externa

A imagem patética percorreu o mundo: Temer, anônimo, desconfortável, literalmente escanteado na foto oficial do G20. Que contraste com a estreia de Lula no foro mundial de Davos de 2003!

A imagem patética percorreu o mundo: Temer, anônimo, desconfortável, literalmente escanteado na foto oficial do G20. Que contraste com a estreia de Lula no foro mundial de Davos de 2003!
A imagem patética percorreu o mundo: Temer, anônimo, desconfortável, literalmente escanteado na foto oficial do G20. Que contraste com a estreia de Lula no foro mundial de Davos de 2003! (Foto: Gleisi Hoffmann)

Com Lindbergh Farias (PT-RJ) e Marcelo Zero

A imagem patética percorreu o mundo: Temer, anônimo, desconfortável, literalmente escanteado na foto oficial do G20. A foto revela, de forma crua, incontestável, o isolamento de um governante sem um único voto, que causa constrangimento e embaraço em sua estreia no cenário internacional.

Que contraste com a estreia de Lula no foro mundial de Davos de 2003! Lula foi a grande estrela daquele foro. E foi a estrela porque deu o tom político do encontro mundial. Numa reunião acostumada a uma agenda empresarial e neoliberal, Lula fez um discurso histórico, propondo um pacto mundial pela paz e contra fome, e criticando a desigualdade social e a persistência da pobreza. Foi prolongada e entusiasticamente aplaudido.

Líderes mundiais e empresariais, como Clinton, Bill Gates e até George Soros, que havia se oposto a Lula nas eleições de 2002, fizeram fila para falar com o líder brasileiro a aderir à construção de uma "ponte" entre o Foro Social de Porto Alegre e o Foro Econômico de Davos.

E isso foi só o começo. Lula e o PT contribuíram decisivamente para a consolidação de uma agenda mundial de combate à fome, à exclusão, à pobreza e às desigualdades. E o Brasil se tornou exemplo de país que pode crescer e, ao mesmo tempo, combater a pobreza, eliminar a miséria e a fome, e reduzir as desigualdades.

O Brasil governado pelo PT praticamente eliminou a miséria estatisticamente detectável e tirou o país do Mapa da Fome da FAO. Cerca de 32 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema e outros 40 milhões ascenderam à nova classe média ou nova classe trabalhadora. O índice de Gini, que mede a desigualdade socioeconômica, caiu de cerca de 0,600 para 0,494, uma façanha pouca vezes vista no mundo. Ao mesmo tempo, o Brasil praticou uma política externa que ampliou muito nossa presença e liderança no planeta, ao construir parcerias estratégicas com países emergentes, investir no Mercosul e na integração regional, contribuir para a construção do BRICS, adensar suas relações com a África e desbravar novos horizontes diplomáticos no Oriente Médio, no Caribe e na Ásia.

Essa combinação de êxito interno de um modelo distributivo e inclusivo com essa política externa não alinhada e verdadeiramente multilateral tornou o Brasil um país que despertava enorme respeito e suscitava esperança em um mundo mais igualitário, democrático e justo. Nas fotos oficiais dos eventos relevantes, Lula e Dilma sempre estavam no centro, ao lado dos grandes líderes mundiais. Naquele tempo, nossos chanceleres sabiam o que era BRICS. Celso Amorim foi até eleito o melhor chanceler do mundo pela prestigiada revista Foreign Policy.

Ao final de seu segundo mandato, Lula já era "O Cara", como definiu Obama, e programas como o Bolsa Família, tão criticado pela oposição de antanho, já eram apresentados como exemplo para o planeta.

E o governo golpista, o que tem a apresentar ao mundo? Além da vergonha do golpe, nada, absolutamente nada.

Sejamos francos. O governo golpista é um anacronismo. Anacronismo político, social e econômico.

Anacronismo político por motivos bastante óbvios. Golpes, mesmo os parlamentares, deveriam ser vaga lembrança das décadas de 50 e 60 do século passado, não realidade patética e ridícula da segunda década do Terceiro Milênio. Nesse sentido, o governo Temer não é um exercício de política, é um exercício de arqueologia. Arqueologia um tanto malcheirosa, podemos acrescentar.

Anacronismo social porque a agenda do governo golpista implica enorme retrocesso social. Com a PEC 241, o golpe quer congelar todos os gastos com saúde, educação, previdência etc. por 20 anos, com prejuízos substanciais para a população mais pobre que depende dos serviços públicos. Além disso, querem reduzir ou eliminar direitos trabalhistas e previdenciários consagrados na CLT e na Constituição de 1988. Não bastasse, desejam aumentar a jornada de trabalho para 12 horas por dia, num país que já tem uma das jornadas de trabalho mais extensas do mundo.

E o governo golpista é também um anacronismo econômico. A nossa imprensa, também anacrônica e partidarizada, não comentou, mas o Brasil ficou isolado na reunião do G20 por causa da incompatibilidade da agenda do golpe com a agenda proposta na reunião. Por iniciativa do presidente Obama, a declaração final do G20 colocou ênfase na necessidade de usar a política fiscal de "forma flexível", de modo a induzir o crescimento. Em outras palavras, os líderes do G20 consideram essencial que os Estados gastem mais, de modo a suprir as deficiências da demanda do setor privado e a acelerar o crescimento, no curto prazo.

O documento final também coloca ênfase na necessidade de se investir na inovação tecnológica, para assegurar um ciclo de crescimento de longo prazo, e no caráter imprescindível dos gastos com a inclusão social, para assegurar que todos sejam beneficiados pelo desenvolvimento e que "ninguém seja deixado para trás".

Ora, o que governo golpista propõe é o exato oposto de tudo isso. Querem restringir, por via constitucional, os gastos por 20 anos, uma loucura que não existe em nenhum país do mundo, extinguiram o ministério de ciência, tecnologia e inovação e, sobretudo, tentam implantar uma agenda de profunda regressão social, de modo a colocar o custo da crise nos mais pobres. O mundo, inclusive o FMI, sabe muito bem que essa agenda de celerados não vai funcionar, ainda mais num governo sem um único voto e sem nenhuma credibilidade.

O golpe isolou e apequenou o Brasil. Colocou-nos na contramão das tendências mundiais. Tornou-nos um anacronismo patético. Uma república de bananas de segunda linha.

A completar o quadro do desastre, não temos um Ministro das Relações Exteriores, temos um Ministro das Confusões Exteriores, que se dedica a comprar briga com todo o mundo, até mesmo com o pequeno e cordato Uruguai. Aparentemente, esse apetite insaciável para o bullying internacional e o confronto o impede de aprender os rudimentos de política externa. O vídeo em que ele aparece mostrando sua colossal ignorância sobre o BRICS, embora risível, nos humilha perante o mundo.

Boa coisa não vai dar. Na próxima reunião do G20, talvez o Brasil nem saia mais na foto. Talvez Temer transforme o G20 em G19. Será seu grande legado.

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