Não é uma corrida de cem metros

Por Leimar de Oliveira

Por Maria Inês Vasconcelos Lopes

Essa é uma maratona ou até uma corrida de aventura. É um jogo pesado e é ilusão acreditar que a extrema direita que assumiu o poder no Brasil irá entregá-lo em um novo impeachment ou em 2022 numa eleição limpa, sem uma oposição coesa e combativa. Foi para isso que a extrema direita participou do golpe e foi eleita em um processo recheados de estratégias ilícitas, fake News, algoritmos nas redes sociais e desinformação direcionada. Os objetivos são claros: entregar nossas riquezas, sabotar as instituições públicas e fomentar o obscurantismo.

Na nossa história, o autoritarismo vivido atualmente é regra e não a exceção. Nossa resistência pode durar muito tempo. Não podemos esquecer que a última ditadura, que prometia eleições em três meses, demorou vinte anos, para ser derrotada. Esse entendimento é importante para que não embarquemos no imediatismo ou no aventureirismo. É preciso contar sempre com a possibilidade de ainda termos outro golpe. Não esqueçamos do “cabo e do soldado” e do “acabou porra”.  

A classe média, que nunca deixou de colaborar com a casa grande, não se choca com a desigualdade. A injustiça social confunde-se com a banalização da miséria. Se cento e dez mil mortos ainda não abalaram essas estruturas, o que as abalará então?  Isso pode parecer desesperador, ainda mais quando se leva em consideração as forças que deram esse golpe e que estão no poder.  

Há uma enorme diferença entre se formar um idiota útil e um militante. Para se formar milhares de idiotas úteis bastam robôs disseminando preconceito, ódio, desinformação e mentiras. Mas na formação de um militante é necessário estudo, reflexão, discussão, prática e paixão pela verdade. Como dizia Paulo Freire, “a revolução é um ato de amor”

A luta contra a extrema direita hoje no poder com sua característica obscurantista entreguista, corrupta, miliciana e de clara intenção desmonte do Estado brasileiro, exige do militante, visão estratégica, sacrifício, disciplina perseverança, coesão e luta.  

Nosso alvo conjuntural é, portanto, derrubar o governo de extrema direita de Bolsonaro, demonstrando as suas práticas obscurantistas (quando nega a ciência) e entreguistas (quando abre mão da soberania nacional). 

Como em qualquer luta, é fundamental conhecer as forças do adversário e as nossas próprias. Vamos enumerar ambas, começando então pelas nossas forças internas e externas. 

Internamente contamos com as seguintes forças: 

Trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Essa é a nossa base, e unidos somos imbatíveis.  

Partidos progressistas estruturados, comprometidos com todas as lutas dos trabalhadores por salários dignos, por educação, saúde, cultura, segurança e direitos das minorias. 

Uma história de conquista de direitos trabalhistas, em saúde e educação ameaçados de serem transformados autoritariamente em serviços que não teremos como pagar. O direito básico da pessoa humana não é mercadoria. 

Centrais Sindicais, Sindicatos de Trabalhadores, Confederações de Trabalho, movimentos sociais de minorias, blogs e jornais eletrônicos progressistas, intelectuais progressistas, alas progressistas religiosas, estudantis, jurídicas profissionais liberais, trabalhadores da educação, artistas e empresários desenvolvimentistas. 

Externamente contamos com forças como

A simpatia e apoio de parlamentares progressistas do mundo, intelectuais orgânicos, excelentes blogs internacionais de brasileiros progressistas que moram no exterior, movimentos de brasileiros no exterior, ONGs e grupos ambientalistas, organismos multilaterais na América Latina, Jornalistas pela Democracia, e todos os que lutam por um mundo multipolar. 

No início de qualquer luta, a correlação de forças é muito desigual ainda mais no momento seguinte a uma derrota. As forças são acumuladas durante o combate, na reorganização e no repensar.  Perder uma ou duas batalhas é parte do processo. Esse entendimento é fundamental para evitar o desanimo e a desesperança, “o ninguém faz nada”, o “ninguém reage” entre outras posturas imobilistas. 

Os que assim procedem avaliam a conjuntura como se o assunto fosse apenas entre nós e eles, sem levar em conta a correlação de forças. Para que não reste dúvida, explicitaremos aqui as forças contrárias. 

As forças externas do inimigo são: 

O imperialismo estadunidense que mesmo em decadência ainda é hegemônico, muito forte e perigoso.   A extrema direita dos Estados Unidos já utilizou o governo brasileiro no golpe da Bolívia e o tem utilizado desavergonhadamente como aliado na pressão à, China, Rússia, Irã, Venezuela, Nicarágua e Cuba, ainda que contra os interesses nacionais. 

O Deep State, o complexo industrial, tecnológico, militar, capital financeiro, e todas as agências estadunidense de inteligência, que assassinam economias, democracias e povos no mundo inteiro. Não é teoria da conspiração, termo aliás, criado pela CIA para desqualificar análises de opositores. A ação desses agentes é fartamente documentada em livros, artigos e entrevistas.  Eles atuam financiando e treinando quadros nas forças armadas, nas policias, nos movimentos de direita como o MBL, nos sindicatos pelegos, com suporte de mídia e mais recentemente do judiciário. Contam com forte apoio de mídia externa com algoritmos e robôs, com apoios da extrema direita e das forças reacionárias de diversas partes do mundo incentivados e realimentados por eles Não faltam financiamento para “intelectuais” que se auto intitulam democratas e escrevem livros de aluguel contra a população e opositores, sendo esta uma prática recorrente.  

Internamente eles contam com: 

Suporte político de setores reacionários das nossas Forças Armadas com cumplicidade das milícias particularmente do Rio de Janeiro.

O capital rentista, o agronegócio, os grandes latifundiários representados pela União Democrática Ruralista, toda a imprensa corporativa, falada escrita e televisada, com ampla penetração nas camadas populares, sites e fakes de desinformação que funcionam desde o palácio do planalto até os nossos grupos familiares e de amigos. 

As castas de poder das igrejas neopentecostais, as alas conservadoras da Igreja Católica, os mesmos que tentaram acabar com a Teologia da Libertação. (e pensar que num momento tão crítico, ainda perdemos um guerreiro do porte de Dom Pedro Casaldáliga).

Integrantes de setores conservadores de diferentes esferas do poder judiciário. Essas instâncias de poder e de superestrutura trabalhando coordenadamente com pouquíssimas divergências, veem sistematicamente tomando decisões parciais e ao arrepio da Lei.  Ainda assim, são essas mesmas Instituições que precisamos defender por garantirem o mínimo de um Estado de Direito. 

A parcela conservadora e reacionária do Congresso Nacional, (com a ressalva de bravos parlamentares de progressistas que travam um embate desigual).

Considerações: 

Quando se comparam as nossas forças e organizações com as deles, vemos que são muito desiguais e isso pode até parecer desesperador. Mas as nossas forças não são desprezíveis e somos muitos e produzimos riqueza. 

Com a vitória do golpe e o nosso desmantelamento, ficamos inicialmente muito abatidos e estamos ainda vivenciando talvez o pior momento da construção da resistência. Mas é inegável que já tivemos pequenas grandes vitórias. Não devemos esquecer vitórias como liberdade de Lula, desmascaramento da Lava Jato, manutenção da pauta Marielle, aprovação do Fundeb, aprovação dos R$600 de auxilio emergencial, impedimento de vários pontos da reforma trabalhista e previdenciária, mutilação do projeto fascista de Moro que incluía a “licença para matar”, derrubada de três Ministros da Educação incompetentes e contrários à educação, impedimento da ida de Eduardo Bolsonaro para a Embaixada dos EUA, entre outras.

A nefasta política econômica ultraneoliberal da classe dominante, com características fascistas que reduz o Brasil a mero exportador de alimentos e produtos primários não processados, matando as nossas indústrias, o desenvolvimento de novas tecnologias, nos reduz ao atraso e rouba o nosso futuro. Este é o ponto central da nossa luta. Contra essa política econômica de privatização de tudo o que é possível, desindustrialização, abertura das terras para as corporações estrangeiras, desnacionalização das nossas riquezas minerais, das terras, devastação da Amazônia, invasão de terras indígenas e ataques ao meio ambiente e à cultura. Não nos esqueçamos de que a História não registra nenhum pais que tenha se desenvolvido sem uma participação forte do estado. Isso é História Econômica, não é ideologia. 

Uma das nossas principais tarefas agora é eleger o maior número de prefeitos e vereadores progressistas e para isso é preciso um grande esforço político de todos nós que também nos consideramos progressistas. Cada um de nós tem condições de fazer algo nesse sentido. A eleição desses quadros será fundamental para se formar frentes nacionais comprometidas com as lutas populares. 

É trabalho nosso, criar efetivamente um veículo de comunicação que permita o enfrentamento do inimigo no campo da comunicação. É preciso também contribuir, divulgar promover integração e apoiar a mídia progressista já existente. 

O combate ao hiperliberalismo (aspecto econômico) e a característica fascista (aspecto político) do atual governo, é uma luta única. Hiperlberalismo e fascismo são as duas caras da mesma moeda. Lutar apenas contra um aspecto é incorrer em erro grave. A concordância ou discordância nesse ponto é um divisor de águas nas alianças. 

Estamos nos recuperando aos poucos. Contamos com excelentes analistas, estamos reconstruindo um projeto de Nação e temos que fazer um trabalho de convencimento com todos os que nos possam ajudar. Os progressistas das forças armadas, da justiça, os trabalhadores da imprensa, os arrependidos e profissionais liberais e até empresários progressistas. 

É a correlação de forças que irá definir o nosso futuro. Primeiro temos que nos reorganizar, reconstruir os partidos em todos os níveis assim como as entidades representativas que na sua maioria estão esvaziadas e lutando com muitas dificuldades.   

No momento, além de atada pela pandemia, a militância por ética e princípios, encontra-se impedida de voltar às ruas e como se não bastasse, enfrentamos sobretudo a falta de escrúpulos dos golpistas. Nossa situação é tão difícil que somos minoria nas escolas, nas universidades, locais de trabalho e até nos grupos de amigos, familiares e de Whatsapp. O que se coloca hoje é recuperarmos a nossa força ideológica, acreditar nas nossas causas, ter firmeza do que queremos.

A reconstrução que se faz necessária, é lenta e precisa ser feita com paciência, estudo e dedicação. Precisamos combater o negativismo que nos imobiliza. É preciso entender que nem toda derrota é fruto dos nossos erros. Como vimos, temos um inimigo muito forte. Lembremos que o autoritarismo na nossa história é regra e não exceção. 

Em síntese, o que estamos discutindo é luta de classes. O Capital (com uma proposta fascista de aniquilamento através de genocídio e barbárie) contra o Trabalho que produz a riqueza, que conta com uma heroica força de resistência e encontra-se massacrada por essa superestrutura. A prova disso é o desespero das elites no seu boicote à quarentena.  

É preciso lembrar ainda que qualquer divergência pública nossa é utilizada pelos fascistas, amplificada e divulgada nos quatro pontos cardeais. Os defeitos deles serão sempre atribuídos a nós porque essa é sua característica. 

Daqui por diante, a crise econômica e a luta entre a direita e extrema direita pela hegemonia do poder e pela apropriação da renda, pavimentarão o nosso caminho. Eles terão que dar resposta à maior crise econômica desse país e já não irão poder impor a hipocrisia e a sua versão dos fatos com facilidade. 

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