Não há o que comemorar

Quanto mal causaram ao nosso país! Hoje, temos 13 milhões de desempregados, e não é à toa. Isso também é fruto da incoerência. A mesma que vivenciamos em Minas Gerais

aecio neves
aecio neves (Foto: Durval Ângelo)

"O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros". Em artigo publicado há quase um ano, utilizei a mesma frase, do filósofo italiano Antonio Gramsci, para alertar sobre os monstros que irrompiam no mundo e no Brasil, sobretudo, após o golpe que depusera uma presidente legitimamente eleita. Falava, então, da onda fascista e conservadora que enfraquecia a nossa democracia.

Agora, com os novos escândalos no cenário político brasileiro, motivados por graves acusações e provas contundentes contra o presidente ilegítimo, senadores e outros políticos, aquela reflexão se faz mais do que atual. Que outros monstros ainda precisam irromper para que o novo nasça? Pergunto não somente como deputado e líder de Governo na Assembleia de Minas, mas principalmente como cidadão brasileiro.

O momento é muito grave e mesmo que as máscaras comecem a cair, não posso me alegrar. Estaríamos caminhando para uma "convulsão social"? Não há um conceito preciso sobre o termo, mas em uma aproximação, o sociólogo Aldo Fornazieri o define como "uma situação na qual o governo não governa e os vários setores sociais se põem em movimento sem uma direção clara e definida, cada um lutando pelos seus interesses particulares".

Entre os ingredientes deste quadro, Fonazieri aponta: a crise econômica, o desemprego elevado, desesperança, medo quanto ao futuro, redução de consumo, violência social generalizada, crise do Estado, incapacidade dos partidos tradicionais e dos governos de apresentarem saídas, desmoralização das instituições e crescente desobediência civil. Muitos deles já vivenciamos em nosso país e impedir que este cenário se complete é mais do que um imperativo. É dever de todos nós.

Não há como negar. O cerne da crise está na "política"; palavrinha tão odiada, que muitos nem querem pronunciar. Mas é preciso falar. Mais do que isso, é preciso vivê-la. Afinal, se temos hoje uma política tão criminalizada, é porque, em muitas situações, ela tem sido desviada de sua verdadeira missão, o bem comum, prevalecendo interesses particulares e não republicanos. Situação que só pode ser motivo de tristeza, pois significa que o dinheiro público que falta na educação, na saúde, na assistência social e no apoio à agricultura familiar, muitas vezes, vai parar no ralo da corrupção.

Definitivamente, não posso me alegrar. Prefiro o caminho da reflexão e da busca de soluções. Neste sentido, em artigos recentes, já alertava, de forma quase profética, para os efeitos danosos da hipocrisia que tem marcado a discussão ideológica em nosso país. Em um deles, citei o exemplo bíblico de São Dimas, o "bom ladrão", para questionar sobre os "ladrões de estimação" cultuados por muitos dos acusadores e justiceiros.

Falo da mesma hipocrisia com a qual defenderam o impeachment da presidenta Dilma e alegando o combate à corrupção, se apresentaram como paladinos da ética e da justiça, quando não representam nada disso. Quanto mal causaram ao nosso país! Hoje, temos 13 milhões de desempregados, e não é à toa. Isso também é fruto da incoerência. A mesma que vivenciamos em Minas Gerais.

Por fatos de muito menor gravidade, cuja improcedência será provada pelo governador Fernando Pimentel (PT), tentam tirá-lo do cargo. Novamente, o objetivo do golpe não é o bem comum. A motivação é estritamente eleitoral. Pouco importa se prejudicam as ações que visam retirar o Estado da crise. Querem fazer, a qualquer preço, um terceiro turno das eleições, em flagrante desrespeito à vontade e ao voto popular.

É hora de dar um basta na hipocrisia e os últimos acontecimentos devem servir para nos apontar caminhos. Há que se reconhecer a necessidade de uma reforma profunda na estrutura política brasileira, pois o país não pode mais assistir, impassível, a sua economia, o emprego e as condições de vida do povo serem sacrificados pelo corrupção. O momento é de reflexão, e não de júbilo; é de busca de Justiça, e não de justiçamento; é de revelação da verdade, e não de discursos fáceis.

Muitas famílias - inclusive em Minas Gerais - hoje sofrem e se preocupam, ao verem seus parentes denunciados por corrupção. Não faço juízo de valor sobre culpados ou inocentes, pois isso cabe à Justiça. Mas, no âmbito da política estadual, não posso deixar de lembrar que por muito tempo, a oposição não levou em conta a dor daqueles que apoiam e acreditam no Governo de Fernando Pimentel. Também não considerou o sofrimento de seus filhos e de sua esposa, vítima de uma perseguição vergonhosa. O que dirão agora os paladinos da ética e da justiça? Como agirão? Pedirão desculpas ao governador? Seria um gesto de grandeza.

Que desta crise, o "mundo novo" de que nos fala Gramsci possa finalmente nascer. Que possamos construir um Brasil melhor e uma política autêntica, fruto de mudanças profundas e estruturais em nosso sistema. Não há caminho fora da política e não nos deixemos levar por atalhos, como querem os que pregam a eleição indireta de um novo presidente por um Congresso ilegítimo, o que não passaria de um novo golpe na democracia. A meu ver, o trajeto passa necessariamente pela convocação de eleições gerais em 90 dias. "Diretas Já": eis o novo lema do povo brasileiro.

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