Não me conformo: não é justo, não é “normal” Lula continuar preso e o Brasil se acabando cá fora

O jornalista Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia, escreve uma carta ao ex-presidente Lula, que há um ano é mantido como preso político em Curitiba; "Eles não querem só acabar com você, mas com a tua família inteira, os teus amigos, o teu partido, os muitos legados que teu governo deixou, a tua história, a memória da nossa geração, que reconquistou nas ruas a democracia, agora novamente ameaçada. E, neste sina macabra, estão acabando com o país", diz Kotscho

Não me conformo: não é justo, não é “normal” Lula continuar preso e o Brasil se acabando cá fora
Não me conformo: não é justo, não é “normal” Lula continuar preso e o Brasil se acabando cá fora (Foto: Amanda Perobelli/Reuters)

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

Caro amigo Lula,

há quanto tempo...

Bela ideia essa iniciativa do site "Cartas pro Lula".

Sem condições de viajar a Curitiba pra fazer uma visita, te escrevi uma carta tempos atrás, mas não sei se chegou até você.

Essa aqui tenho certeza que vai chegar. O carteiro é de confiança...

Não tenho nada de bom pra te contar, como você deve estar careca de saber, embora ainda tenha mais cabelos do que eu...

Em resumo, "a coisa aqui tá preta", como cantava o Chico, naqueles tempos da outra ditadura.

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Eu simplesmente não me conformo de você continuar preso há mais de um ano, torturado até hoje pelo juiz que te condenou, e depois virou ministro deste inominável governo.

Eles não querem só acabar com você, mas com a tua família inteira, os teus amigos, o teu partido, os muitos legados que teu governo deixou, a tua história, a memória da nossa geração, que reconquistou nas ruas a democracia, agora novamente ameaçada.

E, neste sina macabra, estão acabando com o país.

Desde a última vez que te encontrei no sindicato, no ano passado, na véspera da tua prisão, tudo piorou cá fora, o país está dismilinguindo, sem que haja uma reação, como se tudo isso fosse o "novo normal", e a tua inacreditável e injusta prisão já fizesse parte da paisagem de Curitiba.

Em lugar de sonhos, agora só temos pesadelos. Estão destruindo uma a uma todas as conquistas sociais do teu governo, como se tivéssemos sido invadidos por uma potência estrangeira.

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Pelo que me conta o Frei Chico, com quem continuo almoçando de vez em quando, no velho Sujinho (lembra do bistecão?), tua saúde está boa, você está firme e forte aí na cadeia, com uma visão mais clara e lúcida do país do que nós, enfrentando com muita dignidade este calvário.

Estamos vivendo um pesadelo sem fim, que virou realidade à luz do dia, e ninguém sabe o que fazer, diante desse verdadeiro massacre contra os brasileiros.

É triste, mas preciso te dizer que "nosso petezinho", como você falava, parece completamente perdido, agora batendo boca com aquele filho desvairado do capitão nas redes sociais.

Eu me lembro bem, no começo desta nossa amizade, já de 40 anos atrás.

Durante as greves dos metalúrgicos, os jornalistas me perguntavam "quem está fazendo a cabeça desse Lula?", como se você precisasse de um Olavo de Carvalho para se orientar.

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Especulavam sobre vários nomes, mas eu procurava explicar a eles que não havia nada disso, não tinha ninguém por trás do Lula, pois acontecia exatamente o contrário.

Era você quem "fazia a cabeça", não só da peãozada, mas dos "luas pretas" da academia e da velha esquerda que te procuravam no sindicato, quando esta história começou, lá no final dos anos 70 do século passado.

Pois é isso, mais do que nunca, que está nos fazendo muita falta agora: um Lula.

Não temos mais lideranças capazes de nos mostrar um horizonte e alimentar esperanças no futuro, sem o que, ninguém consegue sobreviver.

Chegamos ao limite: vivemos num país sem governo e sem oposição.

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Em momentos difíceis, nas campanhas e no governo, era sempre você quem procurava animar a tropa, acalmar os afobados, apontar caminhos para superar as crises.

Os nossos amigos comuns que conseguiram te visitar, todos eles, como o Frei Betto, me relatam que saem da tua cela mais fortalecidos, dispostos a lutar e vencer os obstáculos do que quando chegaram.

Você sempre inverteu a ordem das coisas. Mesmo quando estava se tratando do câncer na laringe, em vez de reclamar do destino, só se interessava em saber dos amigos que estavam com problemas de saúde.

Perguntava pela família de quem te visitava no hospital e por onde andavam nossos companheiros que sumiram na poeira, muitos deles chamados de corruptos e passando dificuldades.

Os outros sempre foram mais importantes nas tuas conversas, e por aí se entenda, não só os mais próximos, mas os milhões que você conseguiu conquistar na tua longa trajetória por um Brasil mais justo, menos desigual, mais humano _ tudo ao contrário do que estamos assistindo agora.

É só assistindo mesmo, porque ninguém faz nada, nem eu, além de escrever todo dia no meu blog, sobre as desgraças cotidianas produzidas pelos inquilinos aloprados do Palácio do Planalto.

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Parece que estamos assistindo a um filme rodando ao contrário, voltando no tempo, até a época em que nos conhecemos nos estertores da ditadura militar.

Voltaram até os mesmos discursos da lei e da ordem, contra a corrupção, contra o "comunismo", contra a "subversão" dos vermelhos.

Para você ter uma ideia do flagelo que vivemos aqui fora, tenho notado que as pessoas estão evitando usar roupas vermelhas com medo de serem agredidas na rua pelos trogloditas da nova ordem em marcha.

Precisamos um dia conversar pessoalmente sobre o que mudou na minha vida nestes últimos tempos, a cada dia uma nova agonia.

Estou com dificuldade para andar até o mercado da esquina, a dois quarteirões daqui. O corpo todo dói. Por isso, mal tenho saído de casa.

Sinto falta de te ouvir quando não sei mais o que devo fazer para voltar a brincar com os outros e dar risadas por besteiras, tirando sarro uns dos outros, a grande diversão nas folgas que a gente tinha no governo.

Jamais imaginei que tudo isso pudesse acontecer com a gente, avançando nos 70 anos com problemas até para sobreviver.

Pior de tudo, eu sei, é perder a liberdade.

Só não podemos agora perder o bom humor, a alegria de viver, a esperança nos dias de amanhã.

Pelo menos, temos histórias pra contar aos amigos. Já fizemos muitas coisas boas juntos na vida das quais só tenho orgulho.

Não será fácil, nada nunca foi fácil, você sabe.

Aguenta firme aí! Até breve!

Um abraço bem apertado, amigo, com um tapão na cabeça, como você sempre fazia...

Ricardo Kotscho

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