Não se derrota o fascismo com eleições

O autoritarismo patriarcal e o fascismo são parte estruturante da sociedade brasileira. Suas razões históricas encontram-se no escravismo que perdurou formamalmente durante três séculos e que ainda não foi superado pela sociedade brasileira

Urna eletrônica
Urna eletrônica (Foto: Elza Fiúza/ABr)

Em minha última coluna publicada aqui neste espaço abordei a dificuldade da esquerda em se unir contra o fascismo. Apesar deste artigo tratar da questão eleitoral, gostaria de esclarecer que não creio que se possa derrotar o fascismo ganhando eleições mesmo porque, como abordei em outra coluna publicada em novembro, a democracia representativa burguesa é um jogo cujas regras são controladas pela burguesia. Sempre que esta vislumbra a possibilidade de perder o controle deste jogo, ela muda e/ou inventa novas regras.

O autoritarismo patriarcal e o fascismo são parte estruturante da sociedade brasileira. Suas razões históricas encontram-se no escravismo que perdurou formamalmente durante três séculos e que ainda não foi superado pela sociedade brasileira. Este escravismo desenvolveu no Brasil uma classe dominante acostumada a gastar gente sem o menor pudor e camadas médias servis a este projeto que, desesperadamente, tentam comer as migalhas caídas do banquete das classes dominantes para diferenciarem-se dos desvalidos, dos explorados, dos estigmatizados quase todos descendentes dos africanos que aqui chegaram sequestrados de seu povo e dos indígenas que aqui habitavam. Estas camadas médias se colocam à disposição para fazer todos o trabalho sujo necessário à manutenção do poder pelos dominantes, esperando receber uma gorjeta quando a missão que lhes foi dada tenha sido bem executada.

Em seu último livro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, Darcy Ribeiromostra com maestria que o brasileiro nasceu como um deslocado, como um sem lugar na sociedade escravista por ser mestiço filho do branco com o indígena ou filho de branco com negro ou filho de indígena com negro. Enquanto tal, este mestiço não tinha lugar junto ao branco nem junto ao negro nem junto ao indígena que o consideravam como um pária, como alguém que não fazia parte dos mundos dos não mestiços.

Os indígenas temiam os mamelucos que formavam o maior contigente nas expediçõesque os caçavam para aprisioná-los e escravizá-los. Os mestiços de negro com branco compunham boa parte dos capitães do mato que iam atrás dos escravizados que fugiam dos seus senhores. Cabia aos mestiços na sociedade colonial e imperial realizar as tarefas sujas que os brancos não queriam realizar por vários motivos. Os brasileiros, então, segundo Darcy Ribeiro, se originaram desta gente, destas camadas medianas que se localizavam entre os brancos e os indígenas e os escravizados.

Começa, desta maneira, a se formar um caráter dúbio que, no Brasil contemporâneo,se torna a característica principal das camadas médias quase brancas ou quase negras  brasileiras, caráter este muito bem definido no trecho da letra da música Fado Tropical de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra que afirma “Mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora”.

Estas camadas médias temem emprobrecer e ocupar os estratos sociais mais baixos.Levadas por este temor, identificam-se ideologicamente e servilmente com as classes dominantes. Seu sonho é ascender socialmente e só vem esta possibilidade se se associarem com aqueles que detém o poder político e, principalmente, econômico. As classes dominantes ainda guardam um ranço escravocrata; tratam de maneira autoritária as camadas sociais mais baixas e de maneria parternalista, porém distante, as camadas sociais medianas.

Parte significativa dos imigrantes estrangeiros, pelos mesmos motivos das camadasmédias, segregaram os negros e indígenas e inseriram-se socialmente como camadas médias, absorvendo destas seu temor de tornar-se a mesma coisa que pretos e indígenas. Como forma de justificarem sua diferenciação destes, alguns imigrantes assumiram as teorias racistas existentes em seus países de origem. Nos anos 1920 e 1930, aproximaram-se ideologicamente dos regimes fascistas europeus implantados em Portugal, na Espanha, na Itália e na Alemanha países de onde é oriunda uma quantidade muito significativa dos imigrantes que chegaram ao Brasil entre o final do século XIX e a metade do século XX. A ascensão social de seus descentes em terras brasileiras fez com que muitos destes se aproximassem da ideologia servilista da classe média quase branca que já existia no Brasil antes das levas de imigração do final do século XIX e primeira metade do século XX.

Não podemos nos esquecer que muitos filhos de imigrantes, da classe média e mesmomestiços se aproximaram das ideologias de esquerda ou não autoritárias em uma proporção mais ou menos semelhente àquela dos identificados com o autoritarismo e com o fascismo. Foram estes sujeitos que, tendo tido contato com as teorias anrquista e marxista ainda na Europa ou através de contato com os outros imigrantes, fundaram um forte movimento sindical no Brasil nas primeras décadas do século XX.

O movimento sindical tentou aplicar as teses anarquistas e marxistas à realidadebrasileira sem inserir nas suas lutas políticas a questão da escravidão e dos indígenas. Como resultado surgiu um movimento de esquerda que considera esta questão e outras questões culturalistas e identitárias como secundária, algo que seria postergado e resolvido no momento em que a revolução” fosse feita. Graças a isto, na prática o que ocorreu foi a formação de sujeitos de esquerda que, embora se policiem constantemente, não conseguem controlar completamente seu machismo, seu racismo, sua lgbtfobia. Conheci vários militantes de esquerda que tratavam suas companheiras da mesma maneira que seus pais e avós ou que faziam piadas racistas e homofóbicas. Por mais que sejam mantidas sob controle, as práticas autoritárias  encontram-se sempre em alerta e se manifestam sempre que a oportunidade surge. Muitas vezes, o militante de esquerda assume atitudes racistas, homfóbicas e/ou machistas sem nem mesmo se dar conta disso.

Naqueles que não filtram suas falas, naqueles que não se preocupam em controlar seumachismo, seu racismo e sua homofobia, estas práticas se manifestam livremente segundo graus de violência variados. Quando estas práticas estruturais autoritárias encontram um ambiente político proprício onde elas são abertamente declaradas, incentivadas e toleradas se transformam quase em um padrão comportamental. Quando, em momentos de crise do capitalismo, estas práticas são levadas ao extremo por falta de um freio social, elas ganham forma em atitudes políticas violentas, logo, estas práticas estruturais se manisfestam como atitudes fascistas e têm como alvo primordial as organizações ligadas à democracia dos trabalhadores – sindicatos, imprensa operária etc. – e aquelas organizações ligadas a grupos sociais cujas práticas os fascistas sentem que os ameaçam de alguma maneira: além dos trabalhadores, feministas, negros, indígenas, camponeses, cientistas, professores.

Os que condenam estas práticas fascistas não conseguem impedir suasmanifestações. Por quê? Porque no momento em que criticam e agem o fazem sobre as consequências, não sobre as causas. Daí advém uma crítica moral que tenta dizer o que é certo e o que é errado sem atuar, simultaneamente, sobre as duas vertentes do problema: a vertente cultural e identitária que faz do fascismo herdeiro direto do patriarcalismo autoritário cristão que molda a sociedade brasileira desde os primórdios da colonização; a vertente classista ligada às relações de produção do capitalismo periférico que necessita de uma enorme quantidade de pessoas mal formadas, subempregadas ou desempregadas para manter as margens de lucro sempre elevadas e transferir riqueza para as metrópoles imperialistas. No caso desta massa de pessoas começar a causar muitos problemas, parte-se para o puro e simples extermínio como estratégia de controle dessa multidão.

A análise da luta de classes explica muito bem a relação entre as crises do capitalismoe o fascismo. A burguesia se utiliza do autoritarismo de cunho fascista e da violência para exterminar a oposição dos trabalhadores e aumentar a concentração de renda e sua margem de lucro. Contudo, a análise da luta de classes não explica o que leva uma pessoa comum, um indivíduo a se deixar seduzir por estas práticas autoritárias e fascistas, porque o cidadão comum se deixa seduzir pela misoginia, pelo rascismo, pela homofobia e contribui para massacrar movimentos que defendem seus próprios interesses. O porquê da identificação com o opressor é explicado, de uma maneira geral, pelo estudo da ideologia e da luta de classes, mas no específico, no varejo social as teorias ligadas ao culturalismo, ao identitarismo têm forte contribuição a dar. Reforçando mais uma vez que não é um ou outro, não é ou culturalismo ou luta de classes. São as duas coisas ao mesmo tempo. Se a revolução social é um processo  em constante movimento de construção, este processo tem que levar em consideração esses dois tipos de análise e de práxis.

Uma eleição promove mudanças superficiais. Ela pode ser o ponto de partida paramudanças mais profundas, mas estas têm que vir da educação e de práticas revolucionárias no cotidiano. Um governo popular pode utilizar sua máquina e seu aparato para incentivar mudanças, mas estas têm que ser praticadas no dia a dia, nas relações sociais cotidianas, nas disputas por espaço diárias, na crítica cotidiana ao capitalismo e às suas relações de produção, na autocrítica, no auto controle que busque cercear ao máximo práticas racistas, machistas, misóginas, lgbtfóbicas. Isto é impossível se não vier acompanhada de uma análise de conjuntura que permita ao sujeito vislumbrar criticamente seu lugar no mundo. A eleição apenas, a ascensão ao poder de um partido/frente de esquerda por via eleitoral não permite que ocorra esta mudança profunda e isto fica claro na conjuntura política contemporânea da América Latina, sobretudo nos países que foram governados pela centro-esquerda nos últimos vinte anos. Quando estes governos mostraram-se enfraquecidos ou titubeantes, a cadela do fascismo que, segundo Bertolt Brecht, “está sempre no cio” voltou a passear novamente levada pela coleira pelo fundamentalismo cristão e pelo ódio às esquerdas. Para combater o ovo da serpente e promover mudanças profundas que derrotem o fascismo é preciso que os sindicatos e partidos políticos realizem assembleias, reuniões e grupos de estudo que promovam discussões sobre as contradições do capitalismo e estratégias de luta que incluam a igualdade de direitos entre grupos étnicos, entre os gênero, entre os sujeitos cis e trans, que debatam estratégias que abordem a reprodução social do trabalhador e as relações sociais igualitárias e de respeito entre os seres humanos e convivência com o meio ambiente. Uma prática ambiental que não destrua o meio ambiente possui um caráter revolucionário na medida em que transforma a relação do ser humano com o meio ambiente no qual o primeiro deixa de querer explorar ao máximo o segundo como fonte de matéria prima, como o fazem as relações e produção capitalistas. A produção de produtos orgânicos, por exemplo, já poria em risco a existência das indústrias que produzem agrotóxicos e, por extensão, o agro-negócio de cunho capitalista e toda a linha de produção dependente desta indústria.

Por outro lado, as assembleias, reuniões e grupos de estudo promovidos pororganizações, movimentos sociais e grupos de apoio representantes dos interesses das pessoas LGBTs, das mulheres, dos negros, dos indígenas e todos os grupos sociais marginalizados cultural, econômica e socialmente devem debater sua inserção na sociedade capitalista, nas relações de produção capitalistas, para ser mais exato. As questões identitárias não são primordiais no que concerne a esta questão. Daí a importância de se conduzir as lutas identitárias concomitantemente à luta contra o capitalismo.

As escolas também devem desempenhar um papel importante na luta contra ofascismo promovendo atividades nas quais o conhecimento seja construído em conjunto pelos alunos, onde a prioridade seja formar sujeitos que se insiram criticamente no mundo, abandonando o domínio de “competências” como é a praxe hoje em um modelo de escola toyotista que busca formar alunos para o mercado, que busca torná-los “empregáveis”. É preciso mostrar que esta empregabilidade tão almejada por esta escola toyotista só leva a mudar o foco da questão fundamental que deve ser a crítica a um modelo de modo de produção excludente no qual muitos jamais conseguirão empregos, só trabalhos. Quem decide se um sujeito é empregável ou não é o capitalista e isto é escamoteado e escondido pela formação escolar e universitária ministradas hoje em dia.

Deve-se privilegiar a formação de sujeitos autônomos intelectualmente que consigamanalisar criticamente sua inserção social e propor soluções que permitam a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Sendo assim, para se derrotar o fascismo é necessário que se mudem as relações sociais de produção e o modo pelo qual os sujeitos percebem sua inserção social num processo de mudança constante, negociado cotidianamente. Mudar só as relações de produção ou só o modo de percepção do mundo fará com que a cadela do fascismo temporariamente se recolha, mas ela continuará no cio pronta para voltar a qualquer momento.

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