Não toquem nesses destroços! Eles já são história

"Os restos da charge de autoria do artista Carlos Latuff, transformada em poster para compor a exposição, na entrada da Câmara, em Brasília, e atacada pelo deputado federal Coronel Tadeu (PSL) deveriam ser transformados em uma 'instalação'", opina a colunista Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia. "É assim, como uma denúncia contra a violência que os visitantes precisam olhar para o que restou da atitude desse coronel fascista"

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia -

A Igreja do Kaiser Wilhelm é um dos monumentos mais interessantes de Berlim. Seu estilo peculiar de castelo destruído consegue alcançar seu objetivo: lembrar a todos aqueles que o vejam que, com a guerra, só se consegue destruir pessoas e tesouros arquitetônicos. Em 1950 houve planos de demoli-la, mas os cidadãos se negaram e a decisão foi a de criar um monumento comemorativo com os restos da igreja.

Seu exterior destroçado e enegrecido pretende recordar a insensatez da guerra. No interior, uma pequena exposição mostra algumas fotos da época em que a igreja foi atingida pelos bombardeios. A igreja, no coração de Berlim, lembra a quem a mire: houve um tempo em que a intolerância apagou a arte e embruteceu os homens.

Portanto, curadores da exposição “Trajetórias Negras Brasileiras”! Não toquem nessesdestroços. Eles viraram história.

Os restos da charge de autoria do artista Carlos Latuff, transformada em poster para compor a exposição, na entrada da Câmara, em Brasília, e atacada pelo deputado federal Coronel Tadeu (PSL) deveriam ser transformados em uma “instalação”.

A charge, enquanto conteúdo/denúncia, precisa necessariamente ser reproduzida e reconduzida à parede - de onde jamais deveria ter sido retirada -, mas o resultado do ato de vandalismo, de crime contra o patrimônio público e racismo, necessita ser isolado e mantido, como um monumento à intolerância. É assim, como uma denúncia contra a violência que os visitantes precisam olhar para o que restou da atitude desse coronel fascista.

Embora ele diga que agiu para proteger as fileiras de 600 mil policiais PMs, (segundo suas contas), e o fará de novo, caso a charge volte a integrar o conjunto de objetos que compõem a exposição, seu ato deve ser enquadrado nos termos da Constituição Federal de 1988. O seu Art. 3, inciso XLI determina: "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”; e no Art. 5º, inciso XLI, que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais".

Há os que estejam atribuindo ao gesto do coronel, apenas os crimes de cerceamento, deexpressão e vandalismo. É também, mas não só. O desconforto e a inquietação causados pelo traço preciso e sensível do artista fez aflorar no deputado instintos e sentimentos violentos, a ponto de levá-lo ao ataque a um quadro inanimado. Não era um espelho, mas o coronel se viu ali refletido.

“Isto não vai ficar na parede, isto aqui é contra a Polícia. A Polícia está aqui paradefender a sociedade. Eu vou queimar esse cartaz que não deveria estar aqui” – esbravejou.

Levando-se em conta que a exposição tem como objetivo promover reflexão nosvisitantes sobre o passado que nos legou todo o preconceito que aí está, foi, sim, um ato de racismo. O Coronel Tadeu quis esmurrar esse passado até que ele caísse morto como o negro do desenho.

O que a excelência se esquece é que aquele crioulo, negro, preto, estirado no chão -representante de um exército de adolescentes abatidos a tiro todos os dias país afora – vai nascer de novo, e de novo, e de novo. O que incomodou (e a arte incomoda), é saber que suas mãos e a dos colegas estarão sempre manchadas do sangue desses meninos. Os “bandidos em potencial”. Eles brotam das barrigas negras e teimosas. E não precisam de balas e algemas. Precisam de futuro. O futuro que o governo que o deputado defende, insiste em lhes tirar.

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