Nas Primárias com o trigo – com Dante, Trotsky e Cervantes

Para um dia vencermos temos que começar a ousar agora. A isso chamo “Primárias”, no campo da esquerda e da democracia: exemplo para um país dilacerado também pela nossa incapacidade de sair da inércia cambaleante dos trabalhadores perante os ataques do fascismo

Experiências de Frente Ampla no mundo e no Brasil
Experiências de Frente Ampla no mundo e no Brasil

Crítico erudito, humanista sem dúvidas reacionárias -acadêmico conservador na linguagem do politicamente correto-  Harold Bloom no seu gigantesco livro de 828 páginas, “Gênio (Ed.Objetiva, 2002) é um celebrante da grande literatura. Ele é capaz de buscá-la na Bíblia, em Dante, Shakespeare, Trotsky, Cervantes e Walt Whitman, para mencionar apenas algumas das suas parcerias de gênio.

Nos autores que abrange na sua obra épica, Bloom busca os traços que os unem no leito humanista universal, através do qual destaca suas grandezas. E o faz acima das contingências históricas que viveram os seus autores prediletos, considerando irrelevantes as formas literárias através das quais se comunicaram com o mundo.

Percorro algumas páginas anotadas no livro de Bloom e me apoio numa indisciplina pessoal, que reservo para os livros da minha propriedade: os riscos, as exclamações, os protestos, com anotações escritas nas margens, à medida que fruo da leitura. Sobre Emerson -venerado por Bloom- localizo sublinhada a frase: “ele queria um pão melhor do que o trigo é capaz de fazer”. Do próprio Emerson, colho: “Somente um inventor sabe tomar emprestado”. Um pão melhor do que o trigo pode fazer, o inventor grandioso que sabe “tomar emprestado” são ambições e modéstias fundidas num ato único de criação em busca de um sentido.

Na página 353 leio uma anotação minha -feita sob forte tensão com as lições humanistas de Bloom-  onde escrevi: “Hoje, 11.03.08, dou-me conta da sabedoria desta sentença de Emerson: ‘nenhum tempo é perfeito absolutamente no presente, pois o presente não filtra a dor para fora do ser, que permanece sempre minimamente prenhe de qualquer pequena dor, que no presente sempre parece mais aguda, mas que o futuro fará desaparecer da lembrança: então aquele presente anterior (o do passado perfeito),
será recomposto na memória somente como felicidade e delírio’.”

Esta reflexão pode ser trazida para a nossa vida pessoal, alimentada pela grande literatura -Benjamin, Eliot, Drummond- e caber como fundamento para pensar o presente da política. Desde que ela vise querer “um pão melhor do que o trigo é capaz de fazer” e assim inspirar atitudes de inventores que, por serem grandes, sabem “tomar emprestadas” as experiências alheias.

Considero que estes instrumentos de reflexão das sentenças de Emerson -para conjunturas como a de hoje- são mais potentes para analisar o mundo real do que os instrumentos tradicionais da ciência política marxista ou weberiana. São reflexões da experiência subjetiva, provinda de gênios, que concluíam que o passado perfeito -felicidade e delírio- pode ser reconstruído conscientemente como História.

Num país em que a necrofilia tornou-se modo de fazer política e a tortura passou a ser explicitamente aceita pelos dirigentes do Estado -legitimada e naturalizada pela mídia tradicional- algo de grave e monstruoso está acontecendo. Abrigadas na estrutura amoral e assassina das nossas classes dominantes -que forjaram Bolsonaro e acompanham seus ímpetos necrófilos- estas idéias podem tornar-se força material e empolgar os deserdados, para se tornarem feitores de si mesmos.

Os instrumentos tradicionais de análise e os centros dirigentes dos partidos democráticos e de esquerda, que não previram estes desastres, também serão impotentes para nos retirar desta crise com os métodos tradicionais autocentrados. Por isso é preciso mudar as formas de análise -pão que faz o trigo- e também o modo de lutar -para nos apropriarmos da invenção- integrando tática e estratégia, numa só política radical: fundir na nossa base social comum a decisão sobre como enfrentar a besta.

Dar o exemplo, assim, a partir de Porto Alegre, de que é possível unificar-se pela generosidade, integrar-se pela tolerância e velejarmos juntos para a estratégia de rejeitar o fascismo e seus aliados. Jogarmos então a nossa inteira vida -não no barro das vitórias imediatas e ilusórias- mas na empreitada estratégica comum da democracia e da república.

Os partidos de esquerda, tal qual estão organizados com as suas decisões verticalizadas -nas quais as suas bases tem apenas participações delegadas- erram em querer dirigir o seu conjunto de  militantes e quadros através das formas  burocráticas tradicionais. Numa sociedade em que os militantes dos vários partidos se relacionam -entre eles- de forma horizontal e cotidiana, é preciso fundir as suas sensibilidades e inteligências para construir algo de novo e ousado. (A besta já o fez, ao fundir fascismo, capital financeiro e mídia oligopólica, tanto a evangelista do dinheiro como a de corte “civilizado” neoliberal).

Para um dia vencermos temos que começar a ousar agora. A isso chamo “Primárias”, no campo da esquerda e da democracia: exemplo para um país dilacerado também pela nossa incapacidade de sair da inércia cambaleante dos trabalhadores perante os ataques do fascismo. Como quadro já histórico do PT eu me sentiria absolutamente confortável em votar num candidato de qualquer outro Partido -em “Primárias”- se este fosse o melhor para começar vencer. E até para fazer um pão de boas utopias, logo bem melhor do que o pragmático trigo atual pode nos oferecer.

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