Natal 2018

Não é preciso esperar o ato redentor da morte de Jesus. Encarnação e redenção se interpenetram. Pela primeira podemos dizer: venha a nós o teu Reino. Mas ele já está no meio de nós. Chegou. E ao mesmo tempo está em vigília, aguardando uma segunda vinda. Mistério do tempo, atravessado por inseparáveis contradições. Ele está e ao mesmo tempo virá

Natal 2018
Natal 2018

Uma maravilhosa lua numa noite clara anuncia o natal que vai chegando.

Abandonemos os penduricalhos indecentes de uma sociedade de consumo e de presentes exigidos. Fixemo-nos num presépio despojado nos arredores pobres de Belém. E num acontecimento que ali brotou, fora de qualquer parâmetro pensável.

A tradição cristã dos primeiros séculos escolheu como data simbólica uma festa que vinha de antigas crenças pagãs: no hemisfério norte, a do solstício de inverno (festa do esperado sol), com a noite mais longa do ano, anunciando adiante uma aurora aguardada. No sul, ao contrário, a noite mais curta, que desaparece rapidamente para dar lugar à barra da madrugada. Ambas vêm carregadas de impaciência e de esperanças. E a lua enverga sua mais luminosa veste, para anunciar um novo tempo e a irrupção inebriante do sol. Canta o antigo hino popular natalino: "Noite feliz, eis que no ar vem cantar, anunciando a chegada de Deus". Aqui o sol é uma metáfora do Senhor.

Misteriosamente ele já chegou. Teilhard aponta: através da encarnação, Deus desceu à natureza para levá-la de volta a Ele. Tudo começou com um ato despropositado: a "kenosis", o esvasiamento, o aniquilamento do logos divino, na forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens (Filipenses, 2, 7). Como lembrou o poeta John Donne, no século XVII, pela Graça, a humanidade participa da natureza divina, "'consortes divinae naturae, cohoeredes Christi', joint-heirs with Christ and so, do be 'Cristii ipsi', Christ ourselves'". Maurice Blondel vai insistir nessa imersão humana no mistério divino. Quebra-se uma dualidade entre o sobrenatural e o natural, como a outra entre espírito e corpo. Henri de Lubac o indica em seu livro "Surnaturel", retirado da circulação nos anos 50 e redescoberto mais adiante à luz do Vaticano II.

Não é preciso esperar o ato redentor da morte de Jesus. Encarnação e redenção se interpenetram. Pela primeira podemos dizer: venha a nós o teu Reino. Mas ele já está no meio de nós. Chegou. E ao mesmo tempo está em vigília, aguardando uma segunda vinda. Mistério do tempo, atravessado por inseparáveis contradições. Ele está e ao mesmo tempo virá.

Tudo isso nos faz lembrar o Natal. O encontro impensável do tempo e da eternidade. Jorge de Lima escreve num livro com esse título: "Dividamos o Cristo: todos ressuscitarão iguais". Nele.

Natal é tempo de um "mysterium tremendum". Presença e silêncio. Como foi dito: a presença urgente, a presença importuna de Deus entre nós.

Num tempo de incertezas, em nosso pobre Brasil de 2019, que este Natal assinale o advento inesperado de uma primavera mais adiante, sonhada um dia por João e agora por Francisco.

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