Navalha

Não acredito nessa história de invasão digital. Uso a navalha de Occam. Sendo várias as possibilidades de explicação para algo, a mais óbvia é a verdadeira. Foi fogo amigo. Alguém de dentro que teve interesses contrariados deve ter passado os arquivos para o gringo

Na sala de um deles, dois juízes vagamente humanos conversavam.

Não acredito nessa história de invasão digital. Uso a navalha de Occam. Sendo várias as possibilidades de explicação para algo, a mais óbvia é a verdadeira. Foi fogo amigo. Alguém de dentro que teve interesses contrariados deve ter passado os arquivos para o gringo.

Também acho, parece que esses vazamentos decorrem de mesquinhas motivações. Sinto-me dividido. Por um lado, como cacoete da minha formação, tendo a me travestir de moralista verbalizando uma teatral surpresa em face das revelações das promíscuas relações do Moro com a Lava-Jato. Por outro lado, todos sabemos que não precisávamos dessas provas da canalhice daquela gente, já se sabia que utilizavam a lei para perseguir adversários ideológicos, que fabricavam evidências, chantageavam réus para obter delações premiadas orientadas, que condenaram Lula sem provas e sem crime e que a obscenidade revelada pelo Intercept não é, de fato, algo excepcional, inusitado e inaudito naquela força-tarefa.

Esse discurso que normaliza o banditismo dos nossos coleguinhas é complicado. Não são poucos os que se esforçam em pedaladas jurídicas para minimizar o conluio do juiz com os procuradores. Esse seu discurso do eu-já-sabia acaba fazendo o jogo deles, indiretamente você fortalece a tese daquela quadrilha. Aliás, o gringo sabe mais de gramática e de ortografia que o cretino semianalfabeto.

Exatamente, mas a alternativa também não me satisfaz. Tenho mais de cinquenta, não faz sentido, depois desse escândalo, calar e fortalecer a fábula da inércia da jurisdição e da imparcialidade dos juízes e fazer de conta que as instituições estão funcionando normalmente. Sinto-me compelido a tomar uma posição.

A mentira é revolucionária. Recordo-lhe outra fábula, a do cardeal cotado para ser pontífice a quem, depois de severas advertências e de longos anos de devota submissão hierárquica, foi revelada a inexistência de deus, uma invenção humana. Naquelas circunstâncias, sopesando o compromisso ético com a verdade e o impacto que aquela informação teria na cabeça dos fiéis, não teve dúvidas em silenciosamente seguir participando da farsa. Você colocará em risco sua carreira se você publicamente admitir que nossos colegas desbordaram da legalidade para evitar a eleição do Lula. Veja a reação provocada pelos trinta que assinaram o pedido à Ajufe, nossa valente associação, para expulsar o Moro depois do escândalo das indecentes relações com o pastor dedê. Jogaram no lixo o pedido de investigação. Não deu nem polêmica. Foram ignorados. Prevaleceu o ispridecór. Mantiveram-se reverberando exigências de rigorosa apuração da invasão da privacidade do sócio de honra. Nada sobre o conteúdo das conversas de conjes que mantiveram. Melhor ficarmos atrás do toco, contemplando os acontecimentos para então aderir ao lado que se anteveja vencedor.

Respondeu, a voz empostada, canastrão, recitando: e assim a consciência faz de nós covardes; e assim a cor nativa da resolução ganha o tom doentio do pensamento pálido.

Lá vem você de novo com Hamlet. Respondi-lhe mil vezes ser melhor suportar as pedradas e as flechas da sorte que tomar armas contra vagas aflições. Não se iluda, você não pode ignorar que tudo o que fizeram foi com o apoio do Supremo.

Estou desanimado. Passei a vida toda embolado em ideias antagônicas. Sendo e não sendo. De um lado, nas minhas publicações, desmistificava a ilusão da neutralidade axiológica do Direito denunciando seu caráter opressivo sobre os pobres. De outro, como juiz, suporto com engulhos os progressistas que, contra a racionalidade e contra os fatos, insistem resolutos na lenda da força normativa da Constituição a limitar a arbitrariedade judicial. Tive uma carreira esquizofrênica, ganhei trinta quilos, fiquei careca, tomo cinco comprimidos diários para manter o que me resta da saúde. Tornei-me um equilibrista. E deu nisso.

Você tem que pensar estrategicamente. É a bola da vez. Preterido duas vezes, agora os astros conspiram a seu favor. Chegará ao Olimpo até o final do ano. Guerra de posições. De nada adiantará você tentar ser coerente agora e deixar a vaga para um desses imbecis que disputam aquela cadeira. Não se boicote.

Nem sei se quero mais. Pudesse, me aposentaria, mas faltam três anos. Doze se aprovada a reforma da previdência. Não acredito mais em mudar as instituições por dentro. Uma andorinha não faz verão, serei voto vencido em tudo. Boletos para pagar, mãe doente, filhos casados desempregados, tenho que ajudar todo mundo. Não está fácil. Se pudesse me exoneraria. Tudo o que faço é socialmente inútil. Estou cavando um buraco em água.

Vira e mexe você entra em depressão. Levante a cabeça. Você tem livros publicados, é professor, uma família linda, todos o admiram. Deixe a eles o papel de justiceiro.

Queria acreditar nisso. Não é bem assim. Gostam de mim porque jogo o jogo. Decido sem acreditar naquilo que faço constar nas minhas sentenças sabendo que serão reformadas apesar dos meus esforços para fundamentá-las em princípios universalmente aceitos.

A pinga é bebida e o jogo é jogado. Não custa nada engolir mais alguns sapos. Pense nas mordomias que terá, uma porrada de assessores, carro oficial. Com sua capacidade colocará no bolso aquela velharada decrépita. Com sua experiência de movimento estudantil saberá conduzir em outro sentido a colegialidade. Em dez anos ou doze anos estará na corregedoria, e, desta vez, com a caneta na mão. O caminho você já conhece, três vezes por ano tem que ir lá se explicar. Gargalhou. O outro continuou sério.

O direito morreu. Hoje cada um de nós decide como quiser, inclusive contra a lei e contra o que está nos autos do processo. Ensino uma coisa na faculdade e pratico outra, tudo para conseguir chegar onde não quero estar. Não vou ser feliz. Não suporto aquela gente. Venho trabalhar com o entusiasmo de quem vai ao dentista para fazer limpeza de tártaro e saio com a doída resignação de quem visitou o proctologista.

Você está sendo egoísta e individualista. Pense nos colegas para quem você é referência. Somos mais de dez mil magistrados no país e pouco mais de meia dúzia se manifestou contra o que o Moro fez. Ele é uma unanimidade quase absoluta. É só ver o conteúdo das notas das corporações que nos representam. Nenhuma estranhou, salvo as ecumênicas Ajd e a Aljt. Corvo não come corvo. Somos a elite da elite. Estamos entre os que integram o topo da pirâmide, ganhamos muito mais que os magistrados europeus ou americanos e não temos que gastar em euros ou dólares, nossa renda mensal é maior que a de noventa e nove por cento da população brasileira. Precisa ter muita cautela e esquecer essa mania de dar murro em ponta de faca. Não adianta ser sincero. Você viu o teatrinho mais recente. Pautaram, despautaram, adiaram, desadiaram. Um despautério. O que mais seria necessário para considerar nulo o processo? Vão acelerar a tramitação do segundo processo. Por que você se envolveria nisso?

Minha consciência me tortura. Tenho vergonha na cara. Não consigo ficar calado vendo o Judiciário destruir a democracia. Tenho nojo dos advogados e servidores que nos bajulam. O estrago causado pela Lava-Jato está feito. Estão inviabilizando o futuro do país. O adiamento no julgamento de mérito no habeas corpus de um réu preso, de 73 anos, com problemas de saúde no supremo constitui apenas mais uma afronta à legalidade. Ver os sabujos de sempre tentando justificar o absurdo é revoltante. Com algumas exceções são os mesmos que blindam os implicados no escândalo dos 39 quilos de cocaína no avião presidencial.

Criticando-os não ganhará nada além do desdém dos advogados, a antipatia dos colegas e a reprovação do tribunal. Faça como todos, cara de paisagem. Depois que estiver lá em cima você decide se abre ou não sua caixa de ferramentas. Admito que eles passaram do limite, embora sejam todos bem-intencionados. Os meninos querem o mesmo que nós, mas se excederam, deixaram-se ser descobertos.

Não senhor, de jeito nenhum. Cometeram crimes e desmoralizaram toda a magistratura. Não houve meros excessos, foi formação de quadrilha, com motivação ideológica. E não são meninos, são traidores. Caso fiquemos quietos muitos desses juizecos incultos que, na base da decoreba, entraram nos últimos quinze anos se sentirão autorizados a cometer estas e outras barbaridades. Para você, impende constatar, o problema residiria no deixarem-se apanhar em indecente namorico e não nos apalpos lascivos a que se permitiram um nos outros e vice-versa.

Você me entendeu mal. Quis dizer que eles são do bem. O STF, você vai ver, passará pano. Jamais anularão o processo do seu bandido de estimação. Por eles, se não houver uma grande mobilização popular, morrerá na cadeia. O país não está preparado para a democracia. Milicos de pijama acenam com ditadura aberta se cogitarem libertar o sujeito, não precisa nem jipe, suas excelências não vão cutucar esse vespeiro. Alterando a voz, carregando no sotaque capiau, grasnou: peço escusas, a montanha pariu um rato, é sensacionalismo em cima de provas ilegais, obtidas por um ráquer que pode ter adulterado as mensagens que, aliás, não dizem nada de mais.

Você imita-o bem. Uma vuvuzela desafinada. Não tenho bandido de estimação, ao contrário de muitos, pelo que percebo. Não acredito que você não esteja indignado.

Minha indignação seria irrelevante. Não vai dar em nada mesmo. Não vejo razão para me expor. Tanto faz. Você tem razão. Se admitirmos que o Moro não pensa diferente da maioria de nós estaremos fortalecendo a tese dele. Somos minoria. Só nos resta o cinismo. Façamos de conta acreditar, empolou novamente a voz, que nos primórdios as pessoas resolviam suas desavenças por desforço físico, até perceberem a importância de outorgar ao Estado o poder de dizer o direito, de forma neutra e impessoal, respeitando a tripartição dos poderes, em prol do bem comum. E, em um tom sibilado, flexionando o pescoço em direção ao interlocutor, repetindo-se, sussurrou: a mentira é revolucionária. Esse é, como resumia Warat, o senso comum teórico dos juristas. Deixe quieto. As pessoas não querem a verdade.

Você não tem jeito mesmo. Só rindo. Assume o cinismo com serena amabilidade.

Amigo é para essas coisas. Quase cinco da tarde. Sei que você não bebe durante o dia, mas já deve ser noite em algum lugar do planeta. Proponho aquele bar cheio de gostosas, tenho alvará até as oito.

Demorô, vamos nessa. Amanhã eu compenso com meia hora a mais na academia. Como dizia o Leminski, em certas circunstâncias, beber é um ato de legítima defesa.

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Crônica DE QUINTA, por Wilson Ramos Filho (Xixo), em 27/06/2019.

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