Nenhuma surpresa: é Jair Messias sendo Jair Messias

Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia, diz que "não há surpresa" no gesto de Bolsonaro em convocar o golpe. "Por mais sem noção que Jair Messias seja, ele sabia perfeitamente que estava endossando a convocação para a manifestação que tem como eixo central atacar Congressistas (especialmente deputados) e magistrados da corte suprema"

O poder militar no governo Bolsonaro.
O poder militar no governo Bolsonaro. (Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia - Pois então Jair Messias divulga entre amigos dois vídeos em que é tratado como herói salvador pelos mesmos que espalham pelas redes sociais que a manifestação programada para o dia 15 de março deve pedir o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

Qual a surpresa? 

Ao longo de seus 28 anos como obscuro e mais que medíocre deputado federal, Jair Messias não fez mais que desprezar os pilares da democracia, elogiar ditadores e torturadores daqui e de acolá, dar amplas, robustas e generosas mostras de racismo, misoginia, estupidez e boçalidade.

Ele e seus asseclas fardados ou empijamados dizem que a divulgação dos vídeos se deve à profunda emoção diante das homenagens. 

Ora, uma pinoia! Por mais sem noção que Jair Messias seja, ele sabia perfeitamente que estava endossando a convocação para a manifestação que tem como eixo central atacar Congressistas (especialmente deputados) e magistrados da corte suprema, aquela que um de seus filhos hidrófobos, Eduardo, garantiu que para fechar bastava um jipe, um cabo e um soldado.

O que ele fez – aliás, o que vem fazendo desde sempre, desde os tempos obscuros de sua longa passagem pela Câmara – é especialmente grave. Sua ilimitada e furiosa agressividade não faz mais que se repetir. Da mesma forma, não será surpresa alguma se no tal dia 15 milhares e milhares saírem às ruas em defesa de Jair Messias e, como consequência inevitável, em ataque contra o Congresso e o Supremo. Por que não será surpresa? Porque as pesquisas indicam que apesar de todos os absurdos e aberrações desse governo abjeto sua popularidade continua forte. E mais: os dois ministros mais populares são precisamente uma figura patética chamada Damares Alves e o mais perigoso e indecente de todos eles, Sergio Moro.

Eu não duvido por um só instante que o grande sonho de Jair Messias seja um autogolpe. E que ele é acompanhado nesse sonho medonho por boa parte, se não a maioria, dos uniformados e empijamados que o rodeiam. O general de pijamas Augusto Heleno, por exemplo. Qual a surpresa? Quando capitão, ele era assistente direto do general Sylvio Frota, aquele que achava o ditador Ernesto Geisel de esquerda. 

Nada mais natural, então, que essa figura cuja estatura moral é ainda menor que a física solte um ‘foda-se’ para o Congresso e convoque o povo para as ruas.

Para ser sincero, devo admitir que o que ainda me causa alguma surpresa – e um oceano de angústia – é ver o grau de imbecilidade que paira sobre parte considerável dos brasileiros. 

Afinal, os que votaram em Jair Messias e os que se abstiveram, anularam seu voto ou votaram em branco (e que também são absoluta e irremediavelmente responsáveis pelo que está acontecendo) formaram a maioria do eleitorado deste meu desgraçado país. 

E não duvido que, entre os eleitores diretos de Jair Messias, parte substancial anseie mesmo pelo fechamento do Congresso, do Supremo e a volta dos militares (o mais absurdo é que a imensa maioria deles não viveu a ditadura que eu vivi).

O governo continua, além do mais, sendo apoiado pelo empresariado e por essa sacrossanta e invisível entidade chamada ‘mercado financeiro’. Afinal, enquanto Jair Messias exibe sua luzidia boçalidade o país vai sendo destruído e vendido na bacia das almas. 

Nada mais significativo, aliás, que os mesmos meios hegemônicos de comunicação que agora o criticam continuem tecendo loas ao ex-funcionário de Pinochet, essa mediocridade chamada Paulo Guedes.

Também nesse ponto não há surpresa alguma: a venalidade se espalha tanto pelos meios hegemônicos fabricantes da opinião pública quanto pelos donos do dinheiro.   

E assim, sem surpresa alguma, vamos todos caminhando para o fundo mais fundo desse imundo lodaçal em que se transformou este país.

Brasil 247 lança concurso de contos sobre a quarentena do coronavírus. Participe do concurso

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247