Neocolonialismo da pós-verdade

Revisitando antigos paradigmas em uma era digital

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Recentemente, ao acompanhar importante debate realizado pela TV 247 entre Breno Altman e Rui Costa Pimenta, chamou-me a atenção uma afirmação do jornalista Breno Altman, de que a estrutura do capitalismo teria mudado completamente, uma vez que antes havia uma associação direta entre o crescimento da taxa de lucro e o crescimento da economia, o que hoje em dia já não é mais uma realidade, pois a financeirização do capital leva à possibilidade de larguíssimos lucros do capital financeiro sem crescimento da economia e o que o atual governo Bolsonaro está fazendo é reduzir os custos de produção brutalmente.

Tal afirmação levou-me a uma reflexão: será que toda a mudança retrógrada em nossa sociedade, chegada com a ascensão do conservadorismo, não seria muito mais do que um retrocesso para um liberalismo puro, antes do surgimento do estado de bem-estar social? Será que não seria um retrocesso para um período entre as grandes navegações e as revoluções burguesas, manifestando a intenção de se implantar um nova forma de colonialismo?

O termo neocolonialismo refere-se à corrida pelas potências mundiais após a revolução industrial para cooptar novas colônias, a fim de explorar suas riquezas naturais, que serviriam de matéria-prima ao seu projeto de imperialismo. Se o colonialismo aconteceu em virtude da ascensão do capitalismo comercial, quando a Europa encontrava-se degrada pelo uso abusivo de seus recursos naturais, levando as potências da época a cruzar os oceanos em busca de terras para conquistar, no capitalismo industrial o alvo era tanto o advento de novas destinações aos seus produtos industrializados, como fornecedores de matéria-prima para suprir suas indústrias e transformá-las em produtos para serem empurrados goela abaixo, quer dizer, comercializados.

Os acontecimentos dos últimos cinco anos no Brasil (golpe de Estado, entrega do pré-sal, etc.), aliados à subida ao poder de um governo entreguista, que além de priorizar a relação com os Estados Unidos e com Israel em detrimento do resto do mundo, terminou por prejudicar também a relação comercial com países do exterior e segue adiante em seu projeto de desindustrialização, faz com que pensemos um pouco melhor sobre a realidade para a qual estamos sendo empurrados.

Não é nenhuma teoria da conspiração o fato de que os Estados Unidos sempre interferiram na geopolítica para favorecer seus interesses e isso pode ser constatado em vários estudos, documentários e investigações jornalísticas sérias ao longo de décadas, a exemplo de documentários recentes, como o documentário Privacidade Hackeada.

Da mesma forma, é de conhecimento de todos, que os Estados Unidos constituem o maior poderio militar do mundo e que fazem uso dele, mesmo que apenas como ameaça velada, para conseguir atingir seus interesses geopolíticos. É o famoso café no bule que o ex-presidente Lula mencionou em sua entrevista para a TV 247. Uma nação que prega a liberdade, mas que se comporta na prática como um império mundial controlador, uma máquina de guerra que não mede esforços para fazer a balança pender sempre para o seu lado. 

Também não é nenhuma novidade a verdadeira obsessão dos governos americanos para manipular e/ou perseguir países que são grandes produtores de petróleo, exatamente em momentos que se encontram em crise econômica e justamente para manter sempre abastecida a sua máquina de guerra permanente, posto que aviões, navios, tanques de guerra, carros, etc, todos os meios de transporte de tropas são movidos por derivados de petróleo. Mesmo que os drones estejam na vanguarda da nova tecnologia bélica, o petróleo ainda detém papel central na manutenção da máquina de guerra americana. Isso sem falar em toda a rede de transportes americana, que é largamente baseada em derivados do petróleo. Segundos dados estatísticos, os Estados Unidos são o maior consumidor de petróleo do mundo.

Com a crise financeira do capitalismo, em 2008, grande parte da economia mundial sofreu  forte impacto, sobretudo as instituições financeiras, ainda mais as instituições financeiras dos Estados Unidos, onde era o “epicentro” da crise. Contudo, aqui no Brasil, no governo do ex-presidente Lula, a repercussão dessa crise foi mínima e mesmo com queda no crescimento da economia, o Brasil manteve o crescimento. É justamente de 2009 (pós-crise do capitalismo de 2008) a capa da revista “The Economist”, na qual o Cristo Redentor decola igual a um foguete, sugerindo que a economia do Brasil estava em franca ascensão.

Outro fato importante é o papel do destaque do Brasil, juntamente com a Argentina e a Venezuela no desmonte da ALCA, a área de livre comércio que os EUA queriam impor à América Latina para sugar seus recursos e beneficiar a sua economia, não por acaso o que está acontecendo hoje, diante dessa recolonização do nosso país pelos norte-americanos.

É um quadro drástico o que acontece hoje em nosso país, como o prejuízo em massa nas exportações pelos boicotes de países estrangeiros à carne brasileira, como a entrega do patrimônio nacional de mão beijada para os Estados Unidos, a exemplo da EMBRAER e da Base de Alcântara, no Maranhão, importante base de lançamento de foguetes, bem como da BR Distribuidora, colocando nas mãos de empresas internacionais o controle da distribuição do nosso Petróleo. Observem: controle da distribuição. Sem falar na reforma administrativa implantada a passos largos, com o intuito muito claro de reduzir de forma considerável o Estado brasileiro, constituindo-se em um completo desmonte do nosso Estado de Direito.

Um verdadeiro programa de (des)governo, com desmantelamento em massa da indústria nacional, levando o país a ser um fornecedor exclusivo de recursos naturais para os norte-americanos, em uma condição de total submissão aos interesses americanos, uma verdadeira colônia do império estadunidense. O que ocorre conosco é uma espécie de colonialismo da pós-verdade, instrumentalizado pela tecnologia de análise de dados direcionada para fins políticos, como a da Cambridge Analytica, que influenciou o resultado de eleições em vários países ao redor do mundo, inclusive no Brasil, como podemos ver no documentário Privacidade Hackeada, que também mostra as denúncias de Christopher Wylie e Brittany Kaiser, ex-colaboradores da referida empresa, feitas em seus depoimentos para um inquérito no Parlamento Britânico.

Lembremos que os Estados Unidos são uma nação que sempre usou a guerra como suporte para seu plano imperialista e que a ascensão da economia chinesa no mundo é uma ameaça antiga à hegemonia do império norte-americano, que por mais que ele tenha tentado sufocar, não obteve sucesso. Tal fato provavelmente levou os Estados Unidos a fazerem uma projeção geopolítica que os fez constatar que o medo da China como outra superpotência rival no mundo está mais perto do que nunca de virar realidade, o que o levou a tomar a atitude desesperada de destruir a economia de toda a América latina e tentar sugar todos os recursos dos países da mesma, a fim de garantir-lhes um suprimento de riquezas necessário a instrumentalização da guerra contra a China e seus prováveis aliados.

Ou seja, para garantir os suprimentos dos Estados Unidos na guerra que eles pretendem criar contra a China, estamos sendo colonizados de forma praticamente irreversível, se nada for feito para barrar as mudanças ultraliberais que o (des)governo Bolsonaro tem feito em nosso país, agindo como lacaio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, destruindo assim nossa nação em pouquíssimo tempo.

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