Ninguém parece satisfeito com o governo Bolsonaro

"Em menos de 60 dias de governo o novo Presidente não tem feito outra coisa a não ser colecionar confusão e desafetos, o que pode convencer os militares, irritados com as trapalhadas dos seus filhos, a dispensá-lo, pois ele já perdeu a utilidade", avalia o jornalista Ribamar Fonseca sobre o desempenho pífio do governo Jair Bolsonaro; "Aparentemente ele não conseguirá concluir o seu mandato, pois até o partido que cresceu montado na sua popularidade, o PSL, tende a abandoná-lo"

Ninguém parece satisfeito com o governo Bolsonaro
Ninguém parece satisfeito com o governo Bolsonaro

O Brasil vive uma democracia atípica: um governo de generais chefiado por um capitão. Levando-se em conta que dentro da rigorosa hierarquia militar um capitão jamais daria ordens a um general, muito menos a vários, mesmo nas atuais circunstâncias, não é muito difícil concluir sobre quem de fato está governando o país. Não parece haver dúvidas de que o capitão foi o instrumento que permitiu a volta dos militares ao poder, desta vez pela via democrática. Tudo indica que quando eles perceberam a possibilidade de Bolsonaro eleger-se Presidente abraçaram a sua candidatura, dando a ele o suporte necessário para superar os obstáculos e chegar ao Palácio do Planalto. Isso explicaria, por exemplo, a intimidação do Supremo Tribunal Federal para manter Lula preso, inclusive com o estacionamento de tanques em frente da sua sede, pois o ex-presidente seria a única força capaz de impedir a eleição do capitão. A indicação do general Hamilton Mourão para vice provavelmente foi uma exigência dos militares como, também, a nomeação de generais para o primeiro e segundo escalões do seu governo.

O vice Mourão, cujo protagonismo passou a incomodar sobretudo os filhos do Presidente e seus patronos do exterior, vem ocupando mais espaços no governo e conquistando simpatias fora dele. O seu comportamento independente, no entanto, inclusive contrariando posições do titular, não parece ser fruto apenas da sua personalidade. Como substituto legal do Presidente, Mourão estaria se preparando para assumir o cargo diante de um eventual impedimento de Bolsonaro que, desconfiado das suas intenções, preferiu não transferir o governo a ele durante a sua internação no Albert Einstein, o que lhe valeu críticas até em editorial da "Folha". O núcleo civil do governo deve ser o que mais reza pela saude do capitão, pois num eventual governo Mourão a maioria perde o cargo. O general dificilmente manteria aqueles acusados de corrupção, caixa dois, etc, e certamente aprofundaria as investigações sobre as atividades de Fabricio Queiroz, o assessor amigo acusado de laranja, e as ligações do hoje senador Flavio Bolsonaro com os chefões do crime organizado no Rio de Janeiro. Afinal, ele sabe, como de resto todo o país, que enquanto isso não for devidamente esclarecido será muito difícil ao governo manter uma postura ética de combate à corrupção prometida na campanha.

O fato, porém, é que tem general pra todo lado, até no Supremo Tribunal Federal, mais precisamente na assessoria do seu presidente, ministro Dias Tóffoli. Ninguém até hoje entendeu o que um general foi fazer na Suprema Corte, mas há quem acredite que ele talvez esteja ensinando ordem unida aos ministros para que, um dia, possam participar do desfile de 7 de Setembro. Já imaginaram os onze ministros marchando, togas esvoaçantes ao vento, com Tóffoli à frente pisando firme, a cabeça erguida e o peito tufado? De qualquer modo, não há dúvida de que com um general no STF a Corte jamais será fechada por um cabo e um soldado, o que assegura a sua sobrevivência antes ameaçada por um dos filhos do Presidente. Resta saber agora que rumos os militares pretendem dar ao governo, pois os sinais emitidos em pouco mais de um mês apontam para o endurecimento do regime, como se deduz da espionagem aos bispos da CNBB pela Abin. O general Heleno, chefe da agência, nega, mas admitiu, em entrevista ao jornalista Alex Solnik, do 247, a preocupação do governo com o sínodo sobre a Amazônia, alegando a necessidade de garantir a soberania do país. Confirmou, inclusive, conversações com o Papa Francisco sobre o assunto.

Na verdade, não faz sentido o temor de que a reunião dos bispos possa representar qualquer ameaça à nossa soberania, pois a verdadeira ameaça está na entrega de nossas reservas petrolíferas para grupos estrangeiros e, também, na entrega da Embraer e da base espacial de Alcântara para os americanos. E até hoje não se tomou conhecimento de qualquer manifestação dos militares contra essas ações entreguistas iniciadas por Fernando Henrique, continuadas por Temer e agora em vias de conclusão por Bolsonaro. Estas, sim, representam uma grande ameaça à soberania do Brasil. O que preocupa, agora, é essa guerra declarada do governo à igreja católica, o que pode gerar conflitos de consequências imprevisíveis com os evangélicos apoiadores de Bolsonaro. Já há até quem receie uma guerra religiosa como a que ceifou milhares de vidas na Irlanda do Norte, pois nunca se deve subestimar o comportamento de fanáticos. Ao que parece, porém, os responsáveis pela guerra aos católicos ainda não se deram conta do perigo que isso representa para a vida do país, onde as religiões sempre conviveram pacificamente.

Além desse problema, mal explicado pelo general Heleno, o governo está às voltas agora com uma nova crise, desta vez promovida pelo filho mais novo do Presidente, que chamou publicamente o ministro Gustavo Bebbiano, da Secretaria Geral da Presidência, de mentiroso, acusação, aliás, endossada pelo próprio Bolsonaro. Humilhado em público, Bebbiano, ex-presidente do PSL (o Partido do Suco de Laranja), não teria outra alternativa a não ser pedir demissão, mas ele já garantiu que não sai. Na verdade, está naturalmente magoado e se for exonerado, o que parece inevitável, pode se transformar num espinho de garganta para Bolsonaro, enfraquecendo a sua já frágil base no Congresso Nacional. Constata-se que em menos de 60 dias de governo o novo Presidente não tem feito outra coisa a não ser colecionar confusão e desafetos, o que pode convencer os militares, irritados com as trapalhadas dos seus filhos, a dispensá-lo, pois ele já perdeu a utilidade. Aparentemente ele não conseguirá concluir o seu mandato, pois até o partido que cresceu montado na sua popularidade, o PSL, tende a abandoná-lo.

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