No Brasil distópico e medieval de Bolsonaro, há muito pouco para as mulheres celebrarem

A jornalista e escritora Lúcia Helena issa, que nesta manhã foi despertada por centenas de mensagens de felicitações pelo Dia Internacional da Mulher, diz que apesar de ficar muito feliz e agradecer em nome dela e, sobretudo, "das 146 mulheres mortas em uma fábrica de tecidos em Nova York, em março de 1911, mulheres que trabalhavam 12 horas por dia, trancadas em um lugar insalubre, sem pausas no trabalho, comendo apenas para continuarem vivas, e sujeitas a todos os abusos morais e a perigos, como o incêndio que finalmente as matou", hoje não vê muitos motivos para celebrar

No Brasil distópico e medieval de Bolsonaro, há muito pouco para as mulheres celebrarem
No Brasil distópico e medieval de Bolsonaro, há muito pouco para as mulheres celebrarem
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Fui despertada hoje por centenas de mensagens me felicitando pelo Dia Internacional da Mulher.

Fico muito feliz e agradeço em meu nome, mas sobretudo agradeço em nome das 146 mulheres mortas em uma fábrica de tecidos em Nova York, em março de 1911, mulheres que trabalhavam 12 horas por dia, trancadas em um lugar insalubre, sem pausas no trabalho, comendo apenas para continuarem vivas, e sujeitas a todos os abusos morais e a perigos, como o incêndio que finalmente as matou.

Agradeço em nome de Simone de Beauvoir, de Frida Kahlo, da humanista Olga Benário, enviada pelo Brasil, grávida de uma menina, para morrer em um campo de concentração na Alemanha. Em nome de Dandara, uma das escravas que liderou muitas das quilombolas em Palmares.

Agradeço em nome de Rosa de Luxemburgo, a alemã que deixou um imenso legado humanista, em nome de Rosa Parks (a mulher que lutou contra o Apartheid norte- americano), agradeço em nome de Fátima, filha do Profeta Maomé, que lutou muito pelos direitos da mulher, em nome de Aisha, mulher muçulmana, líder de milhões de homens muçulmanos, mas cuja história o Ocidente tenta silenciar.

Agradeço em nome de Marielle Franco, assassinada há exatamente um ano, em nome de Luiza Mahin, a escrava muçulmana que lutou pela Abolição dos escravos e pela liberdade religiosa no Brasil, agradeço em nome de Ahed Tamimi, ativista palestina que luta contra a ocupação ilegal de Israel nos territórios palestinos e contra o genocídio de crianças e jovens palestinos. Agradeço em nome de Leila Diniz, de Pagu, de Santa Teresa D Ávila, de Maria Madalena e da princesa Fatima, a mulher muçulmana que fundou a primeira universidade do mundo.

Agradeço em nome das centenas de muçulmanas feministas que conheci e entrevistei na Palestina, que lutam pelos direitos da mulher, mas nunca aparecem na sua TV.

Amo ser mulher, fui casada duas vezes, tenho uma filhota linda e sempre tive e tenho relacionamentos longos, amo ter nascido mulher, mas minha alma hoje não vê razões para celebrar o retrocesso do Brasil de Bolsonaro, um dos países com maiores índices de feminicídio do mundo cujo presidente afirma que o feminicídio não existe.

Minha alma se dilacera hoje pelas mais de 60 mil brasileiras assassinadas por seus parceiros, em claros feminicídios, apenas entre 2010 e 2019 no Brasil. Por todas as Lucias, Anas, Isabellas e Helenas que tiveram suas vidas e sonhos ceifados pelo machismo e pela misoginia. Por crimes que colocam o Brasil entre os 5 países onde morrem mais mulheres por violência doméstica no mundo.

Pelas 47 mil mulheres estupradas no Brasil apenas em 2014. Minha alma chora por cada mulher que, segundo a ONU, é violentada a cada 11 minutos no Brasil. Pela hipocrisia dos brasileiros quando dizem que odeiam os muçulmanos porque eles tratam mal suas mulheres, enquanto o que testemunhei na Palestina foi o oposto e enquanto a própria ONU afirma que, estatisticamente, há muito mais estupros e violência contra a mulher na America Latina do que na Palestina.

Desculpem-me, amigos, se eu, a jornalista, escritora e embaixadora da paz, a menina apaixonada pela vida, hoje não vejo muitos motivos para celebrar.

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