No Brasil pós-Golpe, fascista “come gente”, mas “pobre não tem hábito alimentar”

Ou nos unimos em uma grande Frente Ampla agora para calar de vez essas vozes da barbárie, ou seremos nós que teremos as bocas fechadas para comer ou dizer algo diferente desse novo e triste senso comum que vai sendo construído com o apoio inconsequente da grande mídia privada

Ou nos unimos em uma grande Frente Ampla agora para calar de vez essas vozes da barbárie, ou seremos nós que teremos as bocas fechadas para comer ou dizer algo diferente desse novo e triste senso comum que vai sendo construído com o apoio inconsequente da grande mídia privada
Ou nos unimos em uma grande Frente Ampla agora para calar de vez essas vozes da barbárie, ou seremos nós que teremos as bocas fechadas para comer ou dizer algo diferente desse novo e triste senso comum que vai sendo construído com o apoio inconsequente da grande mídia privada (Foto: Luciano Rezende Moreira)

Entre as várias crises pelas quais passa o Brasil, ganha destaque a civilizatória. Enquanto a grande mídia privada pinta um cenário de um país que renasce das cinzas após a Lava Jato, onde finalmente a “lei é para todos”, assistimos incrédulos à apologia de fascistas e extremistas de direita que diariamente manifestam à larga seus mais variados preconceitos de classe, minando os pilares básicos da democracia burguesa.

Como é possível que em pleno século XXI - quando o chamado “politicamente correto” passou a policiar a tudo e a todos pelas redes sociais – haja ainda governantes abrindo a boca para vomitar os mais terríveis preconceitos contra os mais desvalidos, sem que nada lhes aconteçam?

Recentemente, o prefeito de São Paulo João Dória (PSDB), disse que “pobre tem fome, não tem hábito alimentar”. E em um programa de televisão em que ele era o apresentador de um “reality show” (O Aprendiz), chegou a “demitir” um participante por defender os hábitos alimentares dos mais pobres.

“Hábitos alimentares? Você acha que gente humilde, pobre, miserável, lá vai ter hábito alimentar? Você acha que alguém pobre, humilde, miserável infelizmente pode ter hábito alimentar? Se ele se alimentar, ele tem que dizer graças a Deus”, disse Dória em frente às câmeras de um grande canal de TV.

Claro que fatores socioeconômicos podem influenciar o hábito alimentar de uma pessoa, mas não determinar. Até a economia burguesa referenda a troca de um produto por outro em momentos de crise, tais como a manteiga por margarina, chamando-os de bens substitutos. Mas isso não quer dizer que o pobre deve comer apenas margarina o resto de sua vida e ainda dar graças a Deus por isso.

O hábito alimentar diz respeito à cultura e aos costumes de um povo. Como diz a canção, “Se farinha fosse americana, mandioca importada / Banquete de bacana era farinhada”. Nada, portanto, é tão elementar como a garantia básica dos hábitos alimentares de um povo, base de sua identidade, sem contradição para que sejam o mais saudáveis possível.

Mas, pelo contrário, quando um governante priva os mais pobres até de escolher minimante o seu cardápio, oferecendo-lhes uma ração para sobreviver, quais os tipos de políticas para saúde, educação ou moradia pode-se esperar que sejam ofertadas para esse mesmo público pobre ou miserável? 

Os pobres devem agradecer por, além de estarem se alimentando de uma farinha confeccionada por restos de alimentos, ainda levantarem as mãos para o céu e louvarem por serem atendidos por um SUS cada vez mais sucateado, por uma escola de lata ou viverem em um barraco à beira de um córrego contaminado por esgoto? De acordo com as teses de Dória e demais higienistas sociais, sim. Desde que bem longe da elite cheirosa.

Dias atrás, uma outra grande figura da direita brasileira, representante dileto da ala mais troglodita da política nacional, respondeu estupidamente a uma jornalista que usava o dinheiro do auxílio-moradia que recebe da Câmara dos Deputados (mesmo tendo residência em Brasília) para, pasmem, “comer gente”. Segundo Bolsonaro, na época ele estava solteiro e podia fazer o que bem entendesse.

Todas essas declarações, entre tantas outras mais absurdas, fazem o Brasil descer a passos largos rumo ao pântano da degradação moral e da intolerância contra os pobres. No jogo do vale-tudo proposto pela direita brasileira, bancar seus pré-candidatos, que têm a missão de derrotar Lula, tem um preço altíssimo cuja conta cai nas costas de toda a sociedade, que vai se desconstruindo lentamente.

Desnecessário lembrar que qualquer erro gramatical na fala de Lula ou algum conteúdo pouco esclarecido em um discurso de Dilma (como a estocagem de vento) era um banquete para a grande mídia se deliciar por meses e anos. Em contrapartida, as mais assustadoras teses, visões e discursos são regurgitados frequentemente por esses boçais que assaltaram a política brasileira, e não se percebe quase nenhuma reação, ao menos da chamada intelectualidade nacional.

Boa parte dessa intelectualidade brasileira, ao tomar lado em favor do Golpe, perdeu a autoridade para questionar esses biltres. Ao abrirem a Caixa de Pandora, perderam o controle sobre os demônios que ficam agora voando sobre nossas cabeças, destilando ódio, intolerância e preconceito.

Ou nos unimos em uma grande Frente Ampla agora para calar de vez essas vozes da barbárie, ou seremos nós que teremos as bocas fechadas para comer ou dizer algo diferente desse novo e triste senso comum que vai sendo construído com o apoio inconsequente da grande mídia privada.

Luciano Rezende Moreira. É professor universitário e membro do Comitê Central do PCdoB

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