Nossa anulação étnica

A quebra de nossa identidade étnica fez do povo brasileiro um povo constrangido e desfigurado que pagou, historicamente, e paga até hoje, um preço terrivelmente alto em suas lutas das mais sangrentas sem conseguir obter delas a constituição de independência

Nossa anulação étnica
Nossa anulação étnica (Foto: Esq.: ABR)

Uma das tarefas mais intrincadas para a antropologia, assim como para a sociologia, é compreender e explicar o Brasil com suas contradições e riquezas.

Sabedor deste desafio Darcy Ribeiro, durante 30 anos, pesquisou e analisou profundamente os aspectos que formaram nosso povo, resultando no seu livro “O Povo Brasileiro”, uma obra indispensável para conhecer o Brasil.

Sob a ótica antropológica de Darcy as três matrizes que compõem nossa formação: indígena, europeia e africana sofreram, no decorrer do processo histórico, uma desculturalização; perderam suas identidades étnicas.

É importante diferenciar etnia de raça. Conceitos díspares, uma vez que na tradição antropológica, o termo etnia designa o grupo humano estável na história e no tempo, partilhando origens e tradições comuns, a mesma língua, a mesma cultura e,às vezes, os mesmos traços morfológicos.

Já o conceito de raça vigorou durante muito tempo como classificação por cor da pele, ou pela origem. Contemporaneamente é um conceito banido pelas ciências sociais, e também pela genética por caracterizar como uma forma de preconceito.

No Brasil e na sua formação que trazem as cicatrizes mais bárbaras da brutalidade, sob o desígnio de uma colonização que seguia duas feições: a de proporcionar lucros à Coroa; e a outra de uma cruzada salvadorista sob a fé, culminaram com a quebra e a perda da identidade étnica das três matrizes que compõem nossa formação.

A desindianização do índio, a desafricanização do negro e a deseuropeização do europeu germinou um novo povo, uma Nova Roma, segundo Darcy Ribeiro.

Este novo povo nasce ante a chibata da elite deseuropeizada, que não comunga dos valores díspares de outras experiências colonizadoras, que se metamorfoseia em elites pátrias.

Aqui criamos uma elite subordinada e subalterna aos interesses externos, que segue a sina da cultura escravocrata aplicando a metodologia de suas ancestralidades: do domínio e o do controle social pela violência e pela dominação cultural, do domesticamente das consciências.

Não nos é permitida conceituação de classes sociais e suas lutas. A ordem social sagrada é imutável. São paradigmas mais fortes do que as etnias aqui perdidas.

Os fundamentos desta análise colaboram no entendimento de que, uma desigualdade intrínseca à nossa sociedade, de uma cultura senhoril, violenta e paternalista são as nossas feridas mais profundas de um país ainda por se fazer.

A quebra de nossa identidade étnica fez do povo brasileiro um povo constrangido e desfigurado que pagou, historicamente, e paga até hoje, um preço terrivelmente alto em suas lutas das mais sangrentas sem conseguir obter delas a constituição de independência, e desta forma perpetua-se a opressão em que vive boa parte da ancestralidade das matrizes indígenas e africanas, assim como posteriormente, os imigrantes.

Falta-nos a compreensão da história pretérita e um claro e inequívoco projeto de ordenação sociallúcido e inclusivo,e que não mais esmague e chacine os que outrora constituíram o que fora nossas matrizes étnicas.

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