Nostalgia do poder anglo-americano

"Rússia fixa novo padrão monetário, para vender sua mercadoria; não adianta dispor da moeda mais poderosa, como, ainda, é considerada a moeda de Tio Sam"

www.brasil247.com - Presidente da Rússia, Vladimir Putin
Presidente da Rússia, Vladimir Putin (Foto: Reuters)


Por César Fonseca 

Martin Wolf, famoso comentarista econômico do Financial Times, parece que ainda não tomou pé sobre o que está rolando depois que Putin disse que somente negociará mercadorias russas mediante pagamento em rublo russo; tomou essa decisão como alternativa para fugir das sanções econômicas dos Estados Unidos contra a Rússia, obrigando todos os aliados a seguirem essa orientação; mas, eis que de repente, os alemães e os franceses passam a ser alertados pelos seus presidentes, respectivamente, Olaf Scholz e Emmanuel Macron, que eles, de agora em diante, precisam fazer, obrigatoriamente, poupança não mais em dólar ou em euros, mas em rublo, para comprar gás e petróleo russos, dos quais dependem para sobreviver; outra moeda, Putin não vai aceitar; essa decisão, essencialmente, de economia política, cria novo conceito de política monetária, que passa ao largo da hegemonia do dólar; não basta ter dólar para comprar gás e petróleo russos; faz-se necessário comprar rublo no mercado de moedas, para negociar com Putin; a moeda russa, que não tinha curso internacional obrigatório até agora, passa a ser vista como equivalente relativo global indispensável; como o Brasil comprará fertilizantes da Rússia se não tiver poupança em rublo disponível; se não tiver tem que converter real em rublo ou dólar em rublo etc; as mercadorias russas, diante dessa exigência de Putin, viram, automaticamente, moeda, valor monetário real, enquanto o dólar, por exemplo, passa a ser visto como poder fictício, visto que não tem lastro real; o padrão-dólar sofre um baque; a Rússia fixa novo padrão monetário, para vender sua mercadoria; não adianta dispor da moeda mais poderosa, como, ainda, é considerada a moeda de Tio Sam; se ela não for convertida em rublo, para Putin não serve, pois não será trocada pela mercadoria russa, que se sobrevaloriza; e agora? Macron e Scholz, líderes da França e da Alemanha, humildemente, já lembram franceses e  alemães que precisarão enfrentar a nova realidade posta pela guerra; a Europa é jogada de chofre numa discussão para a qual não estava preparada;  o mercado financeiro global passa a ser obrigado a colocar o rublo como moeda de troca obrigatória, embora sua expressão econômica não tenha, por exemplo, correspondência equivalente em relação à poderosa economia americana; a importância surpreendente do rublo é fruto, naturalmente, da força militar, bélica e espacial, somada, naturalmente, às suas reservas primárias, sem as quais o mundo, como está estruturado, no capitalismo, não sobrevive; a necessidade de adaptação do mercado financeiro à nova realidade geopolítica que espelha a vitória política e militar de Putin sobre a Ucrania, armada pelos Estados Unidos e Otan, torna-se necessidade premente; os europeus passam a questionar se o fundamental é sustentar relação com a Rússia, sem a qual não se sustentam em pé, ou com a Otan, no âmbito da qual estão submissos aos Estados Unidos; o interesse social que reclama objetividades contundentes precisa ser atendido e priorizado pelos líderes políticos, pois, do contrário, perdem eleições; como nem a Europa nem os Estados Unidos têm capacidade de reverter pela força a decisão monetária de Putin, a Russia se torna mais indispensável para a Europa do que os próprios Estados Unidos; a movimentação desorientada de Macron e Scholtz diante da nova realidade imposta por Moscou, por sua vez, fortalecida pela aliança com a China, é a nova base real do sistema monetário que tende a impor nova divisão internacional do trabalho. Martin Wolf, cercado da prepotência e da arrogância de falsa certeza de que o dólar - aliado da libra - segue dando as cartas, graças ao tamanho da economia de Tio Sam, ouve, apenas, o galo cantar a nova realidade, mas não está, parece, sabendo dos efeitos devastadores dos últimos acontecimentos, seja para o dólar, seja para libra ou para o euro.

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