Novamente sobre a presidência do Partido

Lula é nosso candidato à presidência da República. Inclusive por isto, consideramos que pedir que Lula assuma a presidência do PT neste momento é um grande erro, tanto por motivos práticos e "pessoais", quanto por motivos políticos

Lula
Lula (Foto: Valter Pomar)

Há alguns dias, fui informado pela Folha de S. Paulo de que supostamente avançam as articulações em favor de que Lula assuma a presidência nacional do Partido dos Trabalhadores.
 
A mesma Folha informa que “no entanto, alguns dirigentes partidários, como Valter Pomar (Articulação de Esquerda), já avisaram que não abrem mão de uma candidatura própria”.
 
Como não fui procurado nem entrevistado pela Folha, esta “informação” veio de alguma “fonte” que o jornal não informa qual foi. 
 
Em respeito a quem leu a matéria e perguntou se a informação procede, esclareço o seguinte:
 
1. O presidente nacional do PT será eleito no congresso nacional do Partido, provavelmente no dia 3 de junho de 2017.
 
2. As candidaturas à presidência nacional do PT serão inscritas no próprio Congresso. Isto se valer o atual regulamento do Congresso, algo que considero longe de estar garantido[1]
 
3. A presidência nacional do Partido é importante. Mas muito mais importante é definir com qual política vamos enfrentar a ofensiva da direita? Com qual política vamos recuperar o apoio da classe trabalhadora? Com qual política vamos atuar na atual etapa da luta de classes em âmbito mundial, continental e nacional?
 
4. Por isto, nossa prioridade não é debater a presidência nacional do PT, mas sim debater o programa, a estratégia, a tática e o modelo de organização do Partido. 
 
5. Na atual situação histórica, o “presidencialismo” pode ser útil para a esquerda, quando se trata de disputar os rumos do Brasil. Mas quando se trata de discutir o funcionamento de nossas organizações, o “presidencialismo” tende a ser uma ilusão (pois há pessoas que acreditam que basta escolher um bom presidente) e um obstáculo(pois há pessoas que acreditam que basta escolher um bom presidente, deixando de lado muitos dos princípios de funcionamento coletivo indispensáveis a organizações democráticas e de esquerda).
 
6. Por todos estes motivos, nós da tendência petista Articulação de Esquerda ainda não temos uma posição oficial nem definitiva a respeito de como votaremos na disputa da presidência nacional do Partido. Podemos vir a ter candidatura própria? Podemos. Quem? Decidiremos se e quando esta possibilidade realmente estiver colocada. Podemos vir a apoiar outra candidatura, que sinalize uma renovação política e organizativa do Partido? Podemos. Quem? Há grande simpatia pela postulação do companheiro Lindbergh. Mas não há decisão a respeito, até porque um apoio formal e antecipado deste tipo suporia um acordo não apenas sobre a política geral, mas também sobre o método de condução e funcionamento da direção nacional do PT.
 
7. Portanto, ainda não decidimos como votaremos. Mas já decidimos o que não faremos. Nós da AE não apoiamos o movimento -- desencadeado por setores da tendência “Construindo um Novo Brasil” (CNB) -- em favor de que Lula assuma a presidência nacional do Partido. Alguns de nossos motivos para ser contra este movimento estão detalhados em dois textos, que podem ser lidos nos endereços a seguir: 
 
 
 
8. Vale destacar: Lula é nosso candidato à presidência da República. Inclusive por isto, consideramos que pedir que Lula assuma a presidência do PT neste momento é um grande erro, tanto por motivos práticos e "pessoais", quanto por motivos políticos. 
 
9. Os motivos práticos e "pessoais", que neste momento têm grande peso, estão descritos nos textos acima citados. Quanto aos motivos políticos, o principal deles é o seguinte: a candidatura Lula é -- e precisa continuar sendo -- muito mais ampla do que o PT. Por outro lado, o PT tem objetivos históricos, tarefas e atribuições que vão muito além de uma disputa eleitoral, por mais importante que seja. Por isto, ambos (partido e candidatura) sairiam prejudicados, se cometêssemos o erro de concentrar numa mesma pessoa a presidência do Partido e a candidatura à presidência da República. Seria um erro similar ao cometido, várias vezes, entre 2003 e 2016: misturar os papéis do governo e do Partido.
 
10. Apesar destes problemas práticos e políticos, por quais motivos parcelas da tendência “CNB” insistem na campanha para que Lula assuma a presidência do PT? 
 
11.Há vários motivos, entre os quais: a) uma visão política diferente da que expusemos anteriormente; b) uma dependência em relação ao Lula, combinada com uma inclinação a achar que ele tem (e/ou é) solução para todo e qualquer problema; c) e, principalmente, a dificuldade que estes setores da CNB têm em construir uma candidatura à presidência nacional do PT.
 
12. Esta dificuldade da CNB na questão da presidência nacional do Partido não começou agora. Lembremos: José Dirceu assumiu a presidência do PT em 1995. Quando Dirceu foi nomeado ministro de Lula, o Diretório Nacional elegeu José Genoíno para a presidência. Genoíno não era um “quadro histórico” da CNB. Depois que Genoíno renunciou, em 2005, a CNB decidiu e o Diretório Nacional elegeu – contra nossa opinião – Tarso Genro para assumir a presidência do Partido. Tarso Genro não era um “quadro histórico” da CNB. Quando Tarso declinou disputar o PED, a CNB decidiu apoiar Ricardo Berzoini, que há não muito tempo integrava outra tendência, o chamado PT de Luta e de Massas; e que, na bancada federal, agia de maneira positivamente autônoma em relação ao “núcleo duro” da CNB. Berzoini foi eleito presidente no PED de 2005 e no PED de 2007.  Foi só em 2009, com a eleição de José Eduardo Dutra, que a CNB elegeu para a presidência nacional do PT um quadro de sua mais estrita confiança. Por razões de saúde, o companheiro Dutra teve que renunciar à presidência do Partido. Então a CNB indicou e o Diretório elegeu Rui Falcão, que é da tendência Novos Rumos. Posteriormente Falcão foi eleito presidente pelo voto direto, no PED de 2013, com o apoio da CNB e de outras tendências.
 
13. Até por conta deste histórico, é compreensível que alguns setores da CNB enxerguem em Lula – que não é propriamente um integrante desta tendência -- a única alternativa para impedir uma derrota na eleição da presidência nacional do Partido. Este risco de derrota existe? Claro que sim. Mas este é um problema de setores da CNB, não é um problema do Partido. O Partido já foi presidido e pode voltar a ser presidido por dirigentes que não são da atual tendência majoritária. 
 
14. Já ouvi dizerem que Lula na presidência do PT seria o único jeito de impedir um “racha” no Partido. Não concordo que isto seja verdade. Mas reconheço a sinceridade de quem fala isto. Esta sinceridade, entretanto, origina-se de uma confusão entre o Partido e a tendência. Como todos sabem, a CNB possui no seu interior inumeráveis posições, algumas antagônicas. A unidade entre estas diferentes posições seria ainda mais difícil de manter, caso a CNB não eleja a próxima presidenta ou presidente do Partido. E como alguns setores confundem sua tendência com o Partido, também confundem o risco da CNB "rachar" com o risco do PT rachar. E usam este “argumento” para pressionar o companheiro Lula: “ou assume a presidência partidária ou o partido corre o risco de vida”. 
 
15. Não faremos a demagogia oposta. O Partido até hoje tem sobrevivido a erros deste tipo. Além disso, nosso “problema” não é exatamente com a CNB. Nosso real problema é conseguir mudar a linha política do Partido. E sabemos que para isto não basta eleger um presidente. Aliás, a CNB poderia apoiar alguém de outro setor do Partido, como fez diversas vezes desde 2002, sem que isto ameaçasse sua estratégia. Mas fazer isto exigiria colocar a grande política em primeiro lugar. Como alguns setores da CNB têm dificuldade em operar neste diapasão, gastam uma imensa energia na discussão sobre a presidência, energia que seria mais útil no debate sobre a estratégia e sobre o programa do Partido.
 
16. Em nossa opinião, a única tarefa na qual o companheiro Lula é insubstituível é a tarefa de disputar com chances de vitória a presidência da República, para assim podermos voltar a governar o Brasil. Estamos seguros de que esta posição conta com amplo apoio em diferentes setores do Partido, inclusive na CNB. Por motivos óbvios, muitos dos que pensam como nós preferem dizer que -- “no limite” -- caso Lula decida disputar a presidência do Partido, apoiariam e votariam nele. Por motivos também óbvios, nossa resposta é outra: caso cheguemos a esta situação limite, nossa opção será deixar absolutamente claro para o Partido que não estamos de acordo com este erro. No dia 14 de dezembro de 2016 informamos esta nossa posição ao companheiro Lula. E continuamos pensando o mesmo.
 
 

 



[1] Lembro que as regras foram aprovadas pelo Diretório Nacional do PT. E, falando em tese, não deveriam ser alteradas no meio do processo. E se houvesse alteração, teria que ser feita pelo próprio Diretório Nacional. Mas no dia 7 de março próximo passado, a comissão executiva nacional do Partido decidiu, por 15 votos a 4, prorrogar o prazo para pagamento de contribuições financeiras de filiados(as) inscritos(as) nas chapas ou candidatos(as) a presidente(a). Quem altera as regras no meio do jogo uma vez, pode tentar fazer o mesmo outras vezes.

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