Novas jornadas de junho à vista

A amplitude estonteante das manifestações deste 15 de maio denota, patentemente, um momento importante de possível virada na conjuntura sociopolítica brasileira. Resta imperativo, pois, não deixar a panela esfriar

Novas jornadas de junho à vista
Novas jornadas de junho à vista

A amplitude estonteante das manifestações deste 15 de maio denota, patentemente, um momento importante de possível virada na conjuntura sociopolítica brasileira. Resta imperativo, pois, não deixar a panela esfriar. Outrossim, mister a minuciosa atenção que se deve direcionar às possíveis tentativas, uma vez mais, de cooptação das massas pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista) e seus parceiros oligarcas.

Tende-se, pelo andar da carruagem, a novas jornadas gigantescas como as de 2013. Nesse sentido, é importante que as camadas progressistas da população - calejadas quanto às artimanhas golpistas da elite na tentativa de inversão das pautas políticas da esquerda -, detenham o protagonismo do debate e das reivindicações. Não há mais espaço para a classe média frustrada com suas camisas verde-amarelas da nike, muito menos para grupelhos fascistinhas financiados pelos EUA, como é o caso do MBL. A luta é, legitimamente, dos estudantes e professores, dos trabalhadores e trabalhadoras e oprimidos que vêm desde 2013 nessa odisseia surrealista e caótica em que se meteu o Brasil.

A inércia das forças progressistas brasileiras parece ter dado lugar à vontade de tomar para si as rédeas da carruagem brasileira desgovernada pela “Famiglia Bozomiliciana”. A partir da primeira fala de Luiz Inácio, seguida pelo mar (ou tsunami) de gente desta quarta, vê-se que as estruturas da esquerda foram chacoalhadas e reanimadas. Lula, visto e ouvido depois de um ano de clausura, e o falso Messias com seu desastroso desgoverno, que não para de nos dar vontade de querer enfiar as nossas cabeças dentro do chão por tanta vergonha alheia sentida, são importantes ingredientes para o caldeirão que se transformou cada canto do país nas mobilizações pela educação.

“Bolsominions” à parte (cada vez menos incisivos e numerosos aliás), parece que será “graças” a Bolsonaro que o país irá juntar os cacos do que restou de 2013, do golpe e da prisão de Lula. A divisão política com a qual se depara a sociedade pode ver seus dias contados de agora em diante. Continuando este processo indefensável de destruição da soberania nacional, de arrogância e ignorância, de brutalidade e violência, a tendência é que os mais variados setores da sociedade se unam. Falo, inclusive, de uma direita mais moderada e consciente, que, certamente, esteve ontem nas ruas contra a medida estapafúrdia de corte dos investimentos da educação pública nacional.

Nessa monta, viu-se a aurora da luta esperançosa na Rua da Aurora de Recife, viu-se a Candelária, no Rio, tomada pela “caravana do Irajá e o comboio da Penha, pelos suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho a caminho do Jardim de Alá”, viu-se São Paulo e Belo Horizonte entupidos de gente aberta, gente certa. Os interiores desse país sofrido também gritaram. O povo não aguenta mais escravidão e golpes. O que se quer é o que se deve ter de direito: liberdade, diversidade, cultura, soberania e educação.

As novas jornadas que se iniciam com as manifestações do 15M talvez sejam um belo novo capítulo deste livro tão denso e complexo que se chama Brasil. É preciso, desta feita, ler atentamente as páginas anteriores, com filosofia e historicidade embutidas na análise – contrariando um péssimo ex-aluno da USP -, para que aprendamos com os erros e vacilos cometidos neste tenebroso passado recente. O pretérito mais-que-imperfeito pode ter acabado ontem.

“Ninguém vai me segurar

Ninguém há de me fechar

As portas do coração

Ninguém vai me sujeitar

A trancar no peito a minha paixão

Eu não vou desesperar

Eu não vou renunciar, fugir

Ninguém vai me acorrentar

Enquanto eu puder cantar

Enquanto eu puder sorrir

Ninguém vai me ver sofrer

Ninguém vai me surpreender

Na noite da solidão

Pois quem tiver nada pra perder

Vai formar comigo o imenso cordão

E então quero ver o vendaval

Quero ver o carnaval sair

Ninguém vai me acorrentar

Enquanto eu puder cantar

Enquanto eu puder sorrir...”

“Cordão”, Chico Buarque.

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