“Nunca mais é nunca mais!”

Assim, Alberto e Cristina abrem uma nova página na história argentina. A posse dos dois abre uma nova página na história do povo argentino

Alberto Fernandez e Cristina Kirchner tomam posse como presidente e vice na Argentina
Alberto Fernandez e Cristina Kirchner tomam posse como presidente e vice na Argentina (Foto: Agustin Marcarian/Reuters)
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A posse de Alberto Fernández e Cristina Kirchner abre uma nova página na história do povo argentino. Em um único dia, sob um extremado calor de 40 graus, no dia 10 de dezembro, concentraram-se todas as energias positivas de um processo de liberação do povo e da vanguarda política argentina superando os 4 anos sufocantes do neoliberalismo de Macri. 

Os vários cenários desta jornada histórica são indescritíveis. Por um lado a enorme força e alegria das multidões que transbordaram duas praças centrais do poder: a do Congresso da Nação e a da Praça de Maio diante do palácio presidencial da Casa Rosada. Foi uma interação carregada de amor e glória entre a mobilização multitudinária dos sindicatos, movimentos sociais, e cidadãos comuns de todo o país, de um lado, em uníssono com discursos de altíssimo nível na voz de líderes como Alberto e Cristina que, através da cadeia nacional de TV e autofalantes superaram todas as expectativas.

O DISCURSO DE POSSE

Nada melhor que ouvir todo o Discurso de posse de Alberto Fernandez no Congresso para compreender a sua amplitude e profundidade e entender que esta nova fórmula presidencial argentina, abraçada pela Frente de Todos, concentra não só um novo embate latino-americano contra o modelo econômico neoliberal e o lawfare pró-imperialista dos EUA; mas também um patamar superior, de balanços e saltos a que se preparam os chamados governos progressistas da próxima etapa.

Além de descrever o catástrofe econômico-social, a pobreza extrema e o endividamento herdado dos 4 anos de macrismo, enfocou as prioridades do novo governo para a recuperação do Estado, a eliminação da fome, a reativação da indústria nacional, do trabalho e da soberania nacional, recuperando o legado de Peron, Nestor Kirchner e Raul Alfonsin. Chamou a atenção e conquistou aplausos vibrantes da plateia no Congresso e nas ruas, a ênfase que Alberto Fernández deu a três pontos estratégicos do seu governo. Tendo sido já acenados previamente em outras entrevistas, mas ditas num ato de posse presidencial, esses três pontos assumem um caráter oficial de compromisso com a nação: a questão judicial, a midiática e a das Forças Armadas.

JUSTIÇA, MÍDIA E FORÇAS ARMADAS

Ao mencionar o ataque do lawfare na América Latina, com a presença de vítimas internacionais, como sua vice-presidenta, Cristina Kirchner, Rafael Correa (Equador) e Fernando Lugo (Paraguai) e outros, o presidente Alberto não se ateve à denúncias, mas a conclusões concretas para derrotá-lo: "Temos presenciado perseguições indevidas e detenções arbitrárias induzidas pelos governantes e silenciadas por certa complacência midiática”. E finalizou: "Nunca mais uma justiça contaminada por serviços de inteligência, operadores judiciais, procedimentos obscuros e linchamentos midiáticos”. “Nunca mais a uma justiça que decide e persegue segundo os ventos políticos do poder de turno”. ... “Porque uma justiça demorada e  manipulada significa uma democracia assediada e negada”. “Nenhum cidadão, por mais poderoso que seja, está isento da igualdade perante a lei. E nenhum cidadão, por mais poderoso que seja, pode estabelecer que o outro é culpável se não existe o devido processo e condenação judicial firme.” “Nunca mais ao segredo, aos gastos reservados, ao lawfare, à política opaca que distribui dádivas ou ameaças, ou à que compra a opinião de jornalistas”.
A plateia congressual, e o povo que assistia na praça através do telão aplaudiu efusivamente quando Alberto anunciou que intervirá na AFI (Agência Federal de Informação), e que os ditos Fundos reservados da AFI deixarão de ser secretos, (suspeitos de servir à perseguição de funcionários do governo de Cristina Kirchner)  serão destinados ao Plano Nacional contra a Fome. Da mesma forma, se atuará sobre outros Fundos reservados, como os do Exército e da Segurança. “Nunca mais ao Estado secreto, nunca mais à obscuridade que quebra a confiança”. “NUNCA MAIS AOS SÓTÃOS DA DEMOCRACIA. NUNCA MAIS É NUNCA MAIS”. Tudo indica que a reforma do Judiciário onde o atual sistema de escolha dos juízes responsáveis de causas é baseada no sorteio dos 12 juízes do Tribunal de Comodoro Py, deverá incluir também o sorteio dos outros 70 juízes penais.
O presidente Alberto diz: “Desde 1983 se tomaram medidas contra o terrorismo de Estado, com muitos avanços depois em 2003. Foi impedido qualquer retrocesso nessa matéria. Estamos orgulhosos de ter na nossa sociedade Forças Armadas comprometidas com a democracia. Hoje é dia internacional dos direitos humanos. E hoje outra vez a Argentina volta a se comprometer com os direitos humanos e a levantar como bandeira irrenunciável em qualquer lugar do mundo”.  “Não há mais lugares para colonialismos no século XXI.” “Defenderemos nosso direito soberano sobre as Ilhas Malvinas, a plataforma continental, a Antártida Argentina e os recursos naturais que estas extensões possuem, porque elas pertencem a todos os argentinos.” “Enquanto não resolvermos a questão militar e midiática, não teremos uma real democracia na América Latina”.

REATIVAÇÃO DA PÁTRIA GRANDE

A participação  de lideranças políticas da chamada Pátria Grande por ocasião da posse presidencial foi bem expressiva, a ponto de causar irritação a Mauricio Claver-carone , assessor de Trump.  O presidente cubano, Miguel Diaz-Canel, o primeiro a chegar, deu uma conferência a sindicalistas e militantes na Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires, reiterando: “Não nos deixaremos amedrontar pela atual administração dos EUA”; expressou solidariedade ao presidente Evo Moráles; e pediu que cessem as perseguições judiciais contra Cristina Kirchner e Lula da Silva.  Junto ao ministro das comunicações da Venezuela, Jorge-Rodriguez, e do ex-presidente do Equador, Rafael Correa, recebeu atenção especial do novo presidente Alberto Fernández. Enquanto isso, a vice-presidenta Cristina dedicou-se aos representantes da Rússia e da China. Dois dias após, neste cenário promissor para a reintegração latino-americana, Evo Moráles é acolhido na Argentina, como refugiado politico.

A VOLTA DE CRISTINA NA PRAÇA DE MAIO

Retornando à Praça de Maio, 4 anos após, quando em 10 de dezembro de 2015 despediu-se do seu povo em lágrimas, Cristina Kirchner voltou fortalecida, com um discurso apaixonado e contundente, demonstrando ser uma grande líder de massas  e o braço direito fundamental do novo presidente.

Discurso de Cristina na Praça de Maio

“Foram 4 anos muito duros. Foram também duros para aqueles que foram objeto de perseguição. Para aqueles que foram alvejados para desaparecer, literalmente, quase como seres humanos através da humilhação e da perseguição. Porém, apesar de tudo isso, hoje estamos aqui!”

“E quero dizer-lhes que estamos aqui porque isso não foi uma magia. Porque unimos as vontades, não somente de um dirigente ou uma dirigente, mas a vontade de milhões que creem que é possível viver num país diferente, num país melhor.  Para essa vontade contribuiu a memória que é,  nem mais nem menos, saber de onde viemos. Ninguém, nenhum povo, nenhuma sociedade que não tenha memória, que não saiba o que passou, que não sabe de onde veio, dificilmente pode chegar a algum lugar.  E nós empenhamos essa vontade política de mudança, a memória do povo e da história.”

“A coragem é sempre necessária; como a lealdade. Esse valor que alguns não entendem e pensam que lealdade é seguidismo a um líder politico. Não. Trata-se da lealdade entre a política e o povo; são essas duas pontas. Os povos não são tontos. Concebem a lealdade com aqueles dirigentes que sentem que os defendem, os representam. E finalmente, o amor, porque definitivamente, essa lealdade, essa memória, essa coragem, tem que ter um objeto que é o amor. Algo que sempre nos moveu nessa praça. Amor ao povo. Amor à pátria, amor aos que sofrem, amor aos jovens aos que quero abraçar. Estes jovens que nunca deixaram de me acompanhar.”

E de forma magistral, Cristina Kirchner finalizou com a voz da sua experiência, um chamado a Alberto Fernandez, válido a todos os atuais e futuros governos progressistas da América Latina:

“Presidente, confie sempre no teu povo. Os povos não traem, são os mais leais; eles só pedem que os defendam e que os representem. Não se preocupe, presidente, pelas manchetes de um jornal, preocupe-se por chegar ao coração dos argentinos; assim, eles vão sempre estar com você. Nunca os esqueça. Você tem pela frente uma tarefa muito dura. Deixaram-lhe um país destruído, terra arrasada, como vimos outro dia nesse fantástico documentário, mas sei que você tem a força e a convicção para mudar esta realidade tão feia que os argentinos estão vivendo. Tenha fé, tenha fé no povo. Tenha fé na história. A história sempre terminará sendo escrita mais cedo ou mais tarde pelos povos. E saiba que este povo maravilhoso que nunca abandona aos que põe a vida por ele, convoque-o sempre que se sinta só, ou que sinta que ele o necessita. Ele sempre estará aqui (na praça) quando o chamar por causas justas.”

MEDIDAS DE URGÊNCIA

Já no dia posterior à posse, os novos ministros e dirigentes de governo puseram-se a trabalhar, pondo em ação algumas premissas do discurso presidencial: “Nesse presente que afrontamos os únicos privilegiados serão os que ficaram enroscados no poço da pobreza e da marginalização”. “Para por a Argentina em pé, o projeto deve ser próprio e implementado por nós. Não ditado por alguém de fora.” “Vou adotar, como minhas, as reivindicações do movimento das mulheres” . “Queremos pagar a dívida, mas, agora ela é impagável”. “Terminar com as fake-news e com o jornalismo pago, começando por uma distribuição razoável da pauta publicitária oficial”. “Nos próximas dias vamos enviar ao Parlamento uma série de leis que consagre uma integral Reforma do sistema federal de Justiça”.

Uma das criações fundamentais é o Conselho Econômico e Social, como parte das políticas de Estado para as próximas décadas a fim de responder ao mais urgente ponto do seu projeto de governo para combater a fome e a exclusão extrema, já executando medidas antes do fim do ano. Primeiro, o cartão de Alimentação para a cesta básica a famílias com crianças menores de 6 anos; medida que dará prioridade aos 4 milhões na pobreza estrema.

Em seguida, um plano de crédito não bancário com juros baixos para a aquisição de insumos aos trabalhadores de economia popular e da agricultura familiar. Recriou-se o Ministério da Saúde, reduzido por Macri a uma simples Secretaria (com redução de 45% do seu orçamento e o país infestado por epidemias como o sarampo). A emergência sanitária está decretada, iniciando-se pela redução imediata de preços dos remédios essenciais sobretudo aos idosos. Na Província de Buenos Aires, o novo governador, Axel Kicillof, empossado ontem em La Plata,  com a presença de Alberto e Cristina, detalhou o estado catastrófico e de abandono estrutural da mesma província com um fundo de 25 quando são requeridos 40 (bilhões de pesos) para sanar a urgência dos próximos 35 dias. De imediato, Kicillof deixou sem efeito o aumento da tarifa de luz decretado pela ex-governadora. Contando com amplo apoio social, elegendo-se com 52% de votos, e 15 pontos de diferença, Kicillof em efusivo discurso anuncia recuperar o Estado e os direitos perdidos na Província mais populosa e vital da Argentina.

PERSPECTIVAS

Estes são os primeiros momentos de uma nova página na história do peronismo e das lutas do povo argentino, agora conclamado a acompanhar objetivamente o novo governo, mas com protagonismo, com o exercício da democracia não só representativa, mas sobretudo, participativa. Não se pode ignorar que a mídia hegemônica, o Clarin e La Nación, não dão trégua e seguem intactos com a guerra das fakenews, apoiando a oligarquia já enfurecida e instigando os 40% da sua base eleitoral. Torna-se fundamental consolidar deveras a Frente de Todos, reforçar a unidade dentro de uma democracia plena, apoiada numa ativa organização social de base e preparar-se também para uma grande batalha cultural. Torna-se fundamental, promovê-la, através dos meios de comunicação independentes, da TV Pública, do sistema educativo, para enfrentar o envenenamento político das consciências que a oposição continuará promovendo. O estado calamitoso deixado por Macri, demanda dinamismo e alerta! Todas as antenas ligadas do governo e do povo argentino!

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