O abismo em que despencamos

Estamos no Brasil. E a situação atual parece isso. Há uma permanente sensação de urgência e perigo. Com o lusco-fusco do golpe de 2016, bestas-feras mal-escondidas vieram à tona com suas pulsões mais delirantes, e agora, são, de fato, a repetição da história, pois dão viço ao rasteiro projeto de aparelhamento fascistoide do Estado

Siga o Brasil 247 no Google News

Foi em cadernos escolares, entre 1929 e 1935, que o marxista sardo Antonio Gramsci escreveu milhares de páginas nos porões da ditadura fascista italiana. Num desses cadernos, o lápis de Gramsci anotou que “o velho mundo está morrendo, o novo tarda em aparecer, e nessa meia luz surgem os monstros”. 

Estamos no Brasil. E a situação atual parece isso. Há uma permanente sensação de urgência e perigo. Com o lusco-fusco do golpe de 2016, bestas-feras mal-escondidas vieram à tona com suas pulsões mais delirantes, e agora, são, de fato, a repetição da história, pois dão viço ao rasteiro projeto de aparelhamento fascistoide do Estado. Por isso, é preciso interrogar-se a respeito, também e sobretudo, as razões de emergência desses monstros, uma vez que quando se sabe por que se sabe, as coisas melhoram muito, não?

Quem quiser conferir o perigo, e avistar o ovo da serpente, reveja a fala de Bolsonaro no voto pela derrubada de Dilma Rousseff, contexto em que ele rendeu homenagens ao afamado torturador Brilhante Ustra (aqui). É verdade: o discurso é de dar enjoo; mas pelo qual caberia um processo por apologia à tortura. Afinal, seria o caso de indagar: o que fez o Conselho de Ética? Nada! E o Ministério Público? Nada! Há quem diga que naquela época as instituições funcionavam “normalmente”. Se esse é o aparato normal, a democracia então foi posta no porta-luvas. 

PUBLICIDADE

Sem a intervenção corretiva por parte das “instituições que funcionam normalmente”, chegamos na mais desastrosa e sinistra administração governativa depois da redemocratização. Aliás, aquilo que designamos por democracia, prestem atenção!!!, sempre dependeu de um compromisso com a legalidade. Se a lei não importa, então importa o arbítrio, e aí o que se acena é ditadura, é a ética do tirano, com consequências gravíssimas no laço social, pois a lógica do coletivo é colocada em xeque. 

Não faz muito, o presidente Jair Bolsonaro cogitou enviar tropas para o Supremo Tribunal Federal para lá intervir. Quem leu a revista Piauí sabe da macabra reunião para destituir os 11 ministros, substituindo-os por militares, a fim de restabelecer a autoridade do presidente, que, em sua visão, vinha sendo vilipendiada pela Suprema Corte. (ler aqui)

Diante do caos, inúmeras pessoas estacionam no argumento de dizer “Ah, isso tudo não é nada!”, é “só força de expressão”. Santo Deus! Ai não dá. Não se trata de fato normal coisíssima nenhuma. Por pensamentos assim, o Brasil se vê jogado ao obscurantismo e na banalização do crime comum e de responsabilidade, desprezando por completo o que está previsto no inciso II do artigo 85 da Constituição. 

PUBLICIDADE

Recentemente, indagado sobre depósitos de Queiroz à primeira-dama, o autoritário e confuso presidente reagiu – e mal – ao questionamento, que, em suma, foi um primor de troglodidisse. Com gramática sempre peculiar, Bolsonaro disse em dar “porrada” (!). A coisa é de um ridículo tal que pareceu a Rainha de Copas, do livro “Alice no País das Maravilhas”, no seu poder de mando: “Contem-lhe a cabeça!”. Se isso é tudo o que o presidente da República tem a dizer a seu favor, então a dúvida persiste: é proibido perguntar porque é dinheiro ilegal? 

Bolsonaro chegou ao poder abraçado a uma agenda de violência. Rapidamente, tornou-se um clássico da “psiquiatria política” pelo destempero verbal, imaturidade, insultos e besteiras ciclópicas, que provam a inadequação do mandatário ao cargo, como registra a Lei nº 1.079/50, que está acima da cadeira da presidência. Há limites, afinal.

De saída, indago e respondo: e os 36 pedidos de impeachment contra Bolsonaro parados na mesa de Rodrigo Maia, presidente da Câmara? Seria esse o tamanho do espeto que fura Rodrigo Maia. A inércia do presidente da Câmara aumenta na medida em que os problemas no governo crescem. Rodrigo Maia, em seu carreirismo político, é representante de um dos partidos mais tradicionais da direita nacional, altamente influenciado pelos bons burgueses do financismo econômico. Não é surpresa que ele funcione como um “airbag” do governo Bolsonaro, assim como o foi no governo Temer, que sucedeu ao golpe. Toda “crítica” de Maia a Bolsonaro é um logro, como nas pancadarias combinadas do telecatch. Gostaria de estar errado. 

PUBLICIDADE

O incrível é o grande número de pessoas que vêm fechando os olhos para tudo o que pode soar como uma crítica ao ocupante da cadeira presidencial. E, claro, esse silêncio eloquente é mais um sintoma que possui causa. Quebrar o hipnotismo tem sido difícil no Brasil, onde lê pouco – o que é parte do problema. Aqui se entende que tudo se aprende nas liças dos grupos de WhatsApp, na imbecilização dos memes, na idiotização dos “influencers” e “coaches”, assim como nos jornalões da imprensa conservadora, e, agora, a mistura cada vez mais frequente, entre política e religião. 

Por isso é interessante pensar nesses episódios a partir das conjecturas do psicanalista Antonio Quinet, sempre com muita disposição para debates espinhosos. Escutando alguns comentários de Quinet sobre a manipulação psíquica das massas (aqui), vê-se que as telas de celulares e TVs funcionam como empuxo para influenciar o “olhar” das pessoas, uma espécie de “voz da consciência” (superego), rampa que pode controlar uma massa de ressentidos e formar uma rede de ódio. 

E é por esse caminho que chegamos a uma experiência urdida na rasura de um arbítrio sobre o outro, trama perpassada num ritmo que enlaça camadas autoritárias, que são os nós que nos atam ao obscurantismo. 

PUBLICIDADE

Não se trata de um destino. Trata-se de uma estrutura que nós fracassamos. Pagamos o alto preço da condescendência cômoda, dos embates evitados, a vista grossa, de achar que não é nada. Até quando? Ah, meus caros, sei lá eu.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

PUBLICIDADE

Cortes 247

PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email