O ano da infâmia

Adeus 2017, que a terra não te seja leve. E que do fundo da inteligência e da sensibilidade humana – em nome de Deus ou da razão – amanheçam dias de Democracia e de Justiça, de trabalho, honra e luta

O ministro da Fazenda do Brasil, Henrique Meirelles (à esquerda) ao lado do presidente Michel Temer durante evento em Brasília 11/07/2017 REUTERS/Adriano Machado
O ministro da Fazenda do Brasil, Henrique Meirelles (à esquerda) ao lado do presidente Michel Temer durante evento em Brasília 11/07/2017 REUTERS/Adriano Machado (Foto: Tarso Genro)

Vai-se o ano de 2017. E já foi tarde. Estamos vivendo nos seus escombros. Do ponto de vista jurídico, econômico, político e moral, a sociedade brasileira jamais tinha vivido – nos seus interstícios democráticos – uma decomposição tão grande. As relações entre os ministros do Supremo e a absoluta insegurança jurídica a que elas nos submetem, nos mostra que o “guardião da Constituição” não estava preparado – embora composto por homens e mulher ilustres nas letras jurídicas – sequer para ser o guardião da sua própria superioridade institucional.

A farra de sucateamento de direitos mínimos, promovida pela “reforma” trabalhista, o tratamento diferenciado dado a investigados e processados, de acordo com a sua coloração política (baseado nos vazamentos seletivos de uma parte do MP junto com a mídia tradicional); a vergonhosa manipulação de dados pela grande imprensa, para “provar” que o país “está melhorando” – o sucateamento da saúde pública e da segurança, em escala nacional -; a naturalização dos assassinatos e das chacinas; a quadruplicação de pedintes, crianças, velhos, mulheres com filhos, nas esquinas das metrópoles saturadas, tudo somado à tranquilidade da classe média surtada (estou falando nos que pensam), mais a manipulação dos prazos no processo contra Lula, no TRF 4, nos mostram que o ano de 2017 foi o ano da infâmia.

Oskar Lafontaine, que foi presidente da socialdemocracia alemã (SPD) e não desistiu de ser socialdemocrata, disse em 1998: “Frequentemente se escuta que a influência da política é cada vez mais escassa. Se isso fosse correto e se fosse impossível encontrar uma resposta ao avanço do mercado em todos os campos sociais, terminaríamos em uma economia neoliberal mundial. Nesse caso, deveríamos renunciar a nossa meta de construir uma sociedade civil, na qual a justiça social se consiga mediante uma decisão livre do centro da sociedade: teríamos que renunciar a uma sociedade civil que assegure espaços de decisão política e a participação politica da cidadania”. (Texto publicado pela Fundação Ebert,1998, Forjar la Globalización, p.7).

Vinte anos depois, a alternativa trágica de Lafontaine vem se consolidando de forma galopante, embora a influência da política não tenha se tornado escassa. Ela apenas mudou de fonte e origem: não são mais os partidos que “comandam” a politica, já que majoritariamente eles se tornaram “repassadores” da política -“necessária” e inevitável- imposta acriticamente pelo mercado. A economia financeira tornou-se legalidade política e a política foi colonizada, tanto por esta legalidade, como pela corrupção, oferecida através de sistemas políticos defasados e oligarquizados.

Os aparatos de direção e controle da ação política, assim, passaram a estar fora do universo tradicional da política. A mediação desta, para a aplicação dos programas do capitalismo financeiro global, tanto pode estar na corrupção sistêmica, como nos golpes típicos ou atípicos (ou em ambos), contra o sistema democrático-formal, como ocorreu recentemente no Brasil. Quem diria que o golpismo brasileiro seria uma paródia de um golpe paraguaio! Ocorre que a globalização, ao mesmo tempo em que “uniformiza”, também “localiza”, ou seja, cada um dos seus eventos -sejam trágicos ou meras adaptações das ordens internas à acumulação elitizada- são planejados de forma centralizada: o que ocorre no “local”, deve ser um pedaço do domínio universal do capitalismo global rentista.

Adeus 2017, que a terra não te seja leve. E que do fundo da inteligência e da sensibilidade humana – em nome de Deus ou da razão – amanheçam dias de Democracia e de Justiça, de trabalho, honra e luta.

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