O arcaísmo de concreto

Nesse mar de ódio, não faltará também munição contra os tucanos - vistos como fisiologistas e "elitistas". O canal estará aberto para Bolsonaro e as bancadas evangélicas

Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC)
Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) (Foto: Carlos D'Incao)

 

 

Um homem afrodescendente, morador da periferia, atolado em dívidas, sem perspectiva de se aposentar, com seus direitos trabalhistas usurpados e… eleitor de Bolsonaro… logo ele... o político da extrema-direita conhecido por posições preconceituosas e que ao longo de sua vida parlamentar nunca deu um só voto em favor da classe trabalhadora...

 

Onde encontramos esse eleitor tão desvalido e alienado? Seria nos confins de um país sem qualquer acesso a informação, sem escolas e isolado do mundo civilizado? 

 

Não. Ele está nas periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo… suas dívidas estão vencidas em Porto Alegre… sua aposentadoria será negada em Curitiba… e a justiça do trabalho de Florianópolis lhe baterá a porta em sua cara, muito em breve... 

 

A ignorância e a alienação política não estão mais no marasmo da vida agrária do “Brasil Grande”. Hoje suas fortalezas estão nas infindáveis selvas de pedra das grandes cidades do Sul e do Sudeste brasileiros. Ali forjou-se um novo pensamento arcaico, o "arcaísmo de concreto”.

 

Ele foi disciplinado por uma imprensa poderosa e manipuladora que conseguiu dar unidade à estupidez e aos preconceitos de classe conseguindo, enfim, a proeza de fazer com que os mais pobres repitam em coro e em alto som aquilo que os mais ricos desejam, como soldados obedientes que não percebem que suas armas se voltam contra si mesmos.

 

Os dados educacionais são claros. Enquanto as Universidades e Escolas de Ensino Básico avançam no Nordeste e no Norte do Brasil, no Sudeste e no Sul o nível educacional da população cai em queda livre. 

 

A depender dos governos tucanos e seus asseclas, que em alguns casos governam Estados há décadas, universidades consagradas como USP, Unicamp, Unesp, Uel e UERJ serão privatizadas em breve, não antes de serem completamente sucateadas...

 

São Paulo é um caso lapidar. O Estado mais rico da federação não se envergonha de pagar um dos salários mais baixos do Mundo aos professores do Ensino Básico. Não raramente esses apanham nas ruas quando marcham por melhores condições de trabalho… 

 

Aliás, olhar a realidade dessas regiões é vislumbrar o espetáculo de uma barbárie brilhantemente maquiada ao longo das últimas duas décadas... 

 

Ao mesmo tempo que os governadores sucateiam escolas e salários, o poder público concede, para uma multidão de estudantes, diplomas os quais os formandos mal conseguem assinar...

 

Porém, a manipulação dos meios de comunicação e a queda do nível educacional da população do Sul e do Sudeste brasileiro poderiam explicar uma boa parte do fenômeno da alienação política ali reinante, mas não consegue explicar tudo… 

 

E para compreendermos a totalidade desse fenômeno devemos mergulhar em águas um pouco mais profundas da sociologia, para tentarmos eventualmente erradicar esse problema de forma eficiente (senão agora, no futuro...).

 

Comecemos pela análise da política-econômica recentemente vivenciada pelo nosso país.

 

Uma das principais características dos governos de Lula e Dilma foi a concessão de crédito a níveis baixos tanto para pessoas físicas como para pessoas jurídicas (empresas). 

 

Embora essa política tenha se dado a nível nacional, atendeu com maior fartura justamente os Estados da Região Sul e Sudeste. Por que? 

 

Porque nessas regiões havia uma maior quantidade de trabalhadores assalariados formais. Além disso, é nessas regiões que se situa a esmagadora maioria do empresariado, especialmente os pequenos e médios empreendedores.

 

Nas Regiões Norte e Centro-Oeste a maior parte do crédito serviu aos interesses do agronegócio enquanto que outra parte significativa ficou nas mãos de Estados e Municípios que financiaram obras públicas através de PPPs (Parceria Público Privada). 

 

Na região Nordeste o crédito também assumiu uma forte tendência “federalista”, sendo o próprio governo federal o responsável pelo crescimento exponencial de instituições públicas que foram de creches a Universidades, de novas estradas a novas empreiteiras. 

 

Dado a distribuição de créditos, veremos que o efeito prático do mesmo chegar “no bolso” do cidadão comum, ocorreu de fato apenas nas regiões Sul e Sudeste. Nas demais regiões o crédito apenas teve um efeito secundário na vida dos trabalhadores, assumindo sobretudo a forma de criação de mais empregos.

 

Em uma visão superficial deveríamos supor que os governos petistas gozariam de alta popularidade onde as pessoas sentiram “na carne” as benesses de um sistema de crédito barato que permitiu um aumento no nível de consumo das pessoas e em mais possibilidades de empreendimento.

 

Nessa lógica as regiões Sul e Sudeste deveriam ser “petistas de carteirinha”…

 

Mas isso não ocorreu… Ao contrário. Essas se tornaram paulatinamente nas regiões mais anti-petistas e anti-esquerdistas do país, mesmo na época em que o crédito atingia as taxas mais baixas e se encontrava em maior quantidade. Por que esse fenômeno ocorreu dessa forma? 

 

Vejamos.

 

Suponhamos uma região onde haja uma realidade sócio-econômica em que, de um lado temos uma massa trabalhadora assalariada e, do outro lado, uma pequena camada de grandes empresários. 

 

Aqui teremos as condições ideais para o nascimento de uma consciência de classe e o surgimento de organizações (sindicatos e partidos) que lutarão para defender os interesses da classe trabalhadora. 

 

Essa foi a realidade dos Estados do Sudeste e do Sul nos anos 70 e 80, quando o PT, PDT, a CUT e outras organizações de classe surgiram com grande força.

 

Agora, suponhamos que um governo resolva estabelecer uma política de concessão de créditos aos mais diversos segmentos dessa região. O que ocorr 

 

No interior daquela antiga dualidade, surgirá uma terceira camada social com enorme força: trata-se do segmento dos pequenos e médios empreendedores e profissionais liberais. 

 

Porém, embora essa terceira camada social seja capaz de dissolver a antiga dualidade (massa trabalhadora e grandes empresários), ela não consegue eliminar as contradições de classe. 

 

A grande massa dos trabalhadores assalariados continua existindo, mas acaba sendo pulverizada pela concorrência entre os empresários. Sua unidade enfraquece na mesma proporção em que essa concorrência se torna mais tenaz. 

 

No fim, ao invés de se fortalecerem, os sindicatos e os partidos que representam a classe trabalhadora se enfraquecem. 

 

Além disso, a volatilidade das relações de trabalho se torna mais frequente com o avanço das pequenas e médias empresas e com o passar do tempo uma parte da classe trabalhadora se torna micro-empreendedora.

 

Pulverizada pela concorrência empresarial, descaracterizada pela volatilidade de sua posição de classe assalariada e seduzida por um aumento maior de seu padrão de vida, teremos, enfim, uma mudança nas condições objetivas dessa população para alçar uma consciência de classe efetiva. 

 

Vejamos que a classe trabalhadora aqui ainda é pobre e ainda é o epicentro da produção de capital como forma de exploração do trabalho. Mas agora suas condições objetivas lhe impede de tomar consciência desse estado e a conduz para o “emburguesamento grosseiro” de sua consciência política. Na crise, não vão gritar: “Volta Lula!”, vão gritar: “Bolsonaro neles!”...

 

Mas também não gritarão "Viva Aécio!" e muito menos "Alckmin presidente!". Pois sua condição pobre não lhe conduz a uma consciência "burguesa genuína", mas - como já foi apontado - para uma consciência "burguesa grosseira".

 

Nessa região (que é o caso do Sul e do Sudeste do Brasil) a classe trabalhadora foi do crédito barato para a armadilha da sociedade de consumo, onde lhe foi dado o "gostinho" de ser burguesa. A crise acabou lhe trazendo a ruína econômica dos endividamentos em níveis irresponsáveis e a quebra do sonho de se tornar um dia rica… O resposta é o ódio...  

 

Nas outras regiões do Brasil o sistema de concessão de créditos gerou emprego assalariado formal e concentrado. Isso ocorreu devido a ampliação de serviços públicos, obras públicas e crescimento (e surgimento) de grandes empresas. 

 

Esse sistema propiciou a formação de uma classe trabalhadora capaz de reconhecer seus interesses e de formar uma consciência política mais progressista. Na crise, o Nordeste grita: “Volta Lula!” enquanto Dória leva ovada… O Norte e o Centro-Oeste vem a reboque. 

 

O Brasil assim, acentuou as suas divisões políticas de maneira brutal nos últimos anos. Isso ocorreu também devido à política econômica de concessão de crédito gerada pelos governos petistas. 

 

Com o agravamento da crise, os sentimentos de ódio ao PT e em relação à esquerda tendem a aumentar até o expurgo final das pequenas empresas e a sistemática proletarização dos profissionais liberais. 

 

Nesse mar de ódio, não faltará também munição contra os tucanos - vistos como fisiologistas e "elitistas". O canal estará aberto para Bolsonaro e as bancadas evangélicas.

 

Um novo ciclo de crescimento econômico devolverá eventualmente empregos às regiões Sul e Sudeste. O ódio deverá ser substituído aos poucos pelo medo ou pelo receio das massas trabalhadoras aos governos de esquerda, momento em que um renascimento tucano será possível.

 

De uma forma ou de outra, será talvez necessário duas décadas para a esquerda voltar a ser uma força competitiva nessas regiões… 

 

Caso haja uma nova ascensão do PT ao poder, ficará a lição de que a concessão de crédito barato para todos não é - em hipótese alguma - uma política com efeitos positivos para todos. 

 

No fim, o fortalecimento da classe trabalhadora das regiões Sul e Sudeste passará muito mais pela estatização dos meios de produção do que por um simples aumento do acesso ao crédito. 

 

Para a classe trabalhadora é sempre mais vantajoso ter seguridade de emprego e tarifas públicas baratas do que limites irresponsáveis no cartão de crédito (que no fim, beneficiam somente os banqueiros).

 

Essa é uma leitura e uma auto-crítica que os setores progressistas devem estar atentos ao que chamamos de política “distributivista”. 

 

A realidade é fruto do real. E as condições que fazem um afrodescendente pobre e da periferia votar em Bolsonaro não é apenas produto da direita.

 

É também produto de uma política distributivista - ainda que bem intencionada - da esquerda, que no afã de gerar maior acesso ao crédito, colaborou para a consolidação de um novo tipo de consciência arcaica em uma região urbana e supostamente desenvolvida, ou seja, colaborou para criar o “arcaísmo de concreto”.  

 

E essa será uma praga de difícil erradicação… No seu viés político, a curto prazo, esse arcaísmo poderá dizimar os tucanos do Sul e do Sudeste do Brasil. Mas seus efeitos, cedo ou tarde, recairão frontalmente sobre a esquerda e as forças políticas progressistas. E esperamos que esse movimento seja ponderado nas alianças que estão por vir...

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