O Aroeira da vez

A discussão que se abriu, é recorrente. Pregar contra Israel ou seu primeiro ministro é antissemitismo? Ser antissionista é ser antissemita? A resposta para estas perguntas costuma definir entre nós judeus, quem é de esquerda e quem é de direita. Os judeus progressistas dirão que não existe antissemitismo, os de direita o contrário

Charges preconceituosas em geral, e antissemitas em particular sempre me causaram indignação. São uma forma muito simples e bastante eficaz de disseminar o ódio.

Existe muito material deste tipo que foi utilizado na Alemanha nazista e outros países europeus destacando sempre um judeu com nariz grande, barba, chapéu preto e roupa preta. Era sempre colocado em meio a dinheiro e situações que o mostrava como um ser vil e contra a pátria.

Como se sabe, o Holocausto foi um evento único. Os nazistas criaram uma máquina de aniquilação humana e nela sucumbiram 6 milhões de judeus, entre eles alguns parentes que não pude conhecer. Graças a esta ameaça, nasci no Brasil depois que meus avós maternos fugiram da Polônia dando ouvidos as ameaças que vinham do país vizinho.

Nós judeus não gostamos quando utilizam a palavra Holocausto para definir massacres e genocídios cometidos nos anos seguintes. O que aconteceu conosco é incomparável a qualquer outro evento. Ele se diferencia porque foi um ato institucional, uma política de governo, uma tentativa de exterminar homens, mulheres e crianças de todas as nacionalidades até a terceira geração anterior. O que se pretendeu foi acabar com a existência do povo judeu na Terra.

Então, quando alguém se utiliza do termo para atacar Israel com sua política contra os palestinos, ou os Turcos com sua política contra os Curdos, ou mesmo o que aconteceu em Ruanda no ano de 1994 contra os Tutsis e outros mais recentes na África, nós costumamos dizer que é um erro. Chamem de tudo, menos de Holocausto.

Há poucas semanas tivemos a visita do primeiro ministro de Israel, Benjamin Nethanyau, Bibi, como ele gosta de ser chamado na posse de Bolsonaro. Não foram poucas as reações contra ela, até mesmo no seio da comunidade judaica que viu o ato como um abraço entre fascistas.

Bibi liderou um governo de extrema-direita e vai tentar seu quinto mandato consecutivo nas próximas eleições em Israel marcadas para o dia nove de abril. Ele está em meio vários processos contra ele por conta de troca de favores entre amigos, alguns com o recebimento de "presentes".

Em uma charge recente, o desenhista Renato Aroeira mostra Bolsonaro e Nethanyau representando uma suástica, o símbolo mais conhecido do Nazismo. Apesar do Fascismo e do Nazismo terem convivido juntos e terem muito em comum, são duas ideologias diferentes. Isto causa uma certa confusão e como o Fascismo não possui um símbolo internacionalmente conhecido, a suástica acaba sendo utilizada para dizer que alguém é de extrema direita, um fascista.

A charge causou um furor entre muitos judeus, especialmente os que se alinham com os dois nela representados, e gerou processo na justiça contra o autor. Na esquerda judaica, ela ficou no patamar do mal gosto, mas em geral ninguém viu nela nada de antissemita.

A discussão que se abriu, é recorrente. Pregar contra Israel ou seu primeiro ministro é antissemitismo? Ser antissionista é ser antissemita?

A resposta para estas perguntas costuma definir entre nós judeus, quem é de esquerda e quem é de direita. Os judeus progressistas dirão que não existe antissemitismo, os de direita o contrário.

A explicação não é fácil. O governo Israelense possui um afiado sistema de propaganda conhecido como Hasbará (Relações Públicas). Existe muito antes de Bibi subir ao poder, e hoje é utilizado magistralmente por ele e seus seguidores.

A Hasbará mostrava, por exemplo, o mapa do Oriente Médio em uma proporção onde Israel aparecia como um ponto cercado por dezenas de países árabes superiores em habitantes e terras. Era um pedido de simpatia para a única democracia do Oriente Médio que era atacada militarmente por seus vizinhos que queriam destruir o estado judaico.

A Hasbará dos nossos dias, insiste em mostrar o antissionismo como uma atividade antissemita. Uma forma inteligente de dizer em outras palavras, que na realidade todo aquele que ataca Israel está na verdade atacando os judeus. Todo aquele que critica a política israelense, na verdade está atacando o povo judeu. Todo aquele que se alinha com os palestinos e prega a necessidade da criação de um Estado Palestino, na verdade deseja a destruição do Estado de Israel e como consequência o desaparecimento dos judeus.

A charge do Aroeira cai como uma luva para eles. Primeiro, ela mostra um judeu sendo chamado de Nazista, uma ofensa grave. Segundo, ela mostra um ataque a Israel expressa na figura de seu primeiro ministro, o que seria na verdade um ataque aos judeus em geral. Portanto, na compreensão deles e do que prega a Hasbará, um ato antissemita que deve ser punido de acordo com a lei.

Eu fui um dos que levaram o Ministério Público do RS a processar Siegfried Ellwanger, o dono da Editora Revisão que publicou no final dos anos 80 toda a coleção de literatura antissemita conhecida. Começou com um livro de sua autoria intitulado Holocausto, judeu ou alemão? Seguido dos Protocolos dos Sábios de Sião e todos os livros de Gustavo Barroso, Henry Ford etc. Toda literatura antissemita foi promovida por ele e sua editora.

A condenação só foi possível depois da Lei 7716/89 que definiu especificamente o crime de apologia ao Nazismo. O que eu quero ressaltar é que a lei proíbe o uso da suástica quando utilizada em apologia ao regime. Ela também abrange os “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, com pena de reclusão de 1 a 3 anos, e multa.

A charge com a suástica não foi feita com o intuito de promover o nazismo. A questão é se ela é discriminatória ou preconceituosa contra os judeus. De acordo com a Hasbará, sim. Uma vez atacando Bibi, ele está atacando os judeus. Este é o argumento de acusação que provavelmente está no processo.

É bastante óbvio que a intenção da charge, como outras similares criadas por diversos artistas no mundo inteiro, foi mostrar que o Brasil está se alinhando com os representantes da extrema-direita conhecidos mundialmente. Apesar do uso da suástica nesta, e em diversas outras charges, ninguém de bom senso pode ver outra coisa, senão a intenção de mostra uma guinada para a aliança com regimes fascistas.

Em um Estado de Direito, ele não teria a menor chance de vingar e provavelmente seria descartado em primeira instância. No Brasil de hoje, Aroeira corre risco, uma vez que a justiça está a serviço do poder Executivo e a segunda figura na charge é ninguém menos que o atual Presidente da República.

Um caso destes tem outras consequências. A questão econômica é uma delas. Aroeira vai precisar pagar um advogado em sua defesa e ela pode passar da primeira instância e começar a se tornar cara.

A outra, obviamente, é a intimidação. Aqui se deseja acabar com o direito da livre expressão e da crítica jornalística. O intuito é de causar pavor a outros jornalistas e chargistas para que não usem de nenhuma forma de linguagem contra o atual poder de estado.

Este é o resultado de uma situação criada depois da eleição do governo mais medíocre que o Brasil já teve. Uma mistura de milicos inexpressivos com evangélicos goiabeiros acobertados pela justiça, o que torna este caso o prenúncio do que aguarda a liberdade de expressão enquanto eles estiverem no poder. 

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