O artigo malandro de Lara Resende sobre a redução da taxa de juros

Para quem conhece os códigos, o princípio ativo do veneno que o economista André Lara Resende quer aplicar na economia está lá no fim de seu texto. Quase despercebida, aparece a sugestão apresentada como única eficaz contra a inflação: a política fiscal, ou seja, a contração de gastos públicos

De André Lara Resende, a propósito de seu recente ensaio "Juros e conservadorismo intelectual", no jornal Valor, pode-se dizer o que em outro tempo se dizia do velho PCB: seus melhores textos eram os de autocrítica. É irreparável a demonstração teórica feita no ensaio de que taxas de juros mais altas provocam mais inflação, e não o contrário. Impressionante é o fato de que Lara Resende e seus pares só tenham descoberto isso agora. Como orientadores de política econômica sempre recomendaram juros mais altos para controlar a inflação.

Pessoas de boa fé que não são muito familiarizadas com macroeconomia receberam o texto de Lara Resende como um sinal positivo de conversão dos próceres neoliberais a propostas mais razoáveis de condução da economia. Infelizmente terei que desapontá-las. Para quem conhece os códigos, o princípio ativo do veneno que Lara Resende quer aplicar na economia está lá no fim do ensaio. Quase despercebida, aparece a sugestão apresentada como única eficaz contra a inflação: a política fiscal, ou seja, a contração de gastos públicos.

Eu estaria disposto a concordar com ele se fizesse uma qualificação: numa economia em franco desenvolvimento, com crescimento econômico a altas taxas e sob pressão inflacionária, é mais do que justificado estabilizar o orçamento fiscal. Contudo, no caso da economia brasileira, que vai completar três anos de contração acumulada de mais de 10%, só um ignorante de economia como Henrique Meirelles, agora com o aparente suporte do brilhante Lara Resende, pode achar que cortar ou congelar gasto público ajuda a economia.

A política chamada de Quantitative Easing (QE) pós-crise nos EUA respondia a necessidades de gastos fiscais do governo Obama, não simplesmente à expansão monetária. Na realidade, a expansão monetária foi a forma encontrada para facilitar a colocação de títulos publicados para financiar déficits fiscais de 7 trilhões de dólares em sete anos. Se houvesse alguma relação clara entre déficit fiscal numa economia em recessão e o aumento da inflação os preços deveriam ter estourado nos Estados Unidos. Ao contrário, a economia e o emprego se recuperaram.

Devo confessar que me aproximei com certo preconceito do ensaio de Lara Resende. O incomparável John Kenneth Galbraith dizia que não costumava levar muito a sério a opinião econômica de quem tinha interesse próprio em jogo. É o caso dele, que saltou da academia para a banca, e às vezes volta à economia, como agora, para salvar a banca como acadêmico neutro. Alguém pode imaginar que defender juros altos interessa aos banqueiros. Nem sempre. A banca brasileira corre o risco de quebrar se os juros básicos não baixarem.

A análise da economia brasileira não é uma questão para macroeconomistas, mas para economistas políticos. O problema não é saber o que é certo ou errado na política econômica mas o que atende aos interesses dos diferentes grupos sociais. Tradicionalmente, desde décadas, os grandes beneficiários são os banqueiros. O setor produtivo é esmagado por taxas de juros de agiotagem, ou por extrema contração do crédito. Já a banca, desde os anos 60 quando foi criado o Banco Central, foi o grande sócio de sua política anti-nação e anti-povo. É isso que precisa mudar, não apenas a taxa básica de juros.

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