O assassino da história

O problema é quando a total falta de conhecimento histórico leva uma criatura a dizer que o Partido Nazista era de esquerda porque tinha "socialista" no nome (Partido Nacional Socialista). Não qualquer criatura, o Presidente do Brasil ao sair de uma visita ao Museu do Holocausto

O assassino da história
O assassino da história (Foto: Fotos: Reuters)

Não está sendo fácil para os brasileiros que vivem no exterior. Ter que tentar explicar as besteiras que são ditas pelo presidente do país está sendo cada vez mais difícil.

Eu conheço muita gente que defende o fato da história ter sido escrita pelos vencedores para fabricar novas narrativas, até aí algo compreensível. O problema é quando a total falta de conhecimento histórico leva uma criatura a dizer que o Partido Nazista era de esquerda porque tinha "socialista" no nome (Partido Nacional Socialista). Não qualquer criatura, o Presidente do Brasil ao sair de uma visita ao Museu do Holocausto.

O fato de não saber falar outros idiomas é perdoável. A falta de informação sobre o lugar que está visitando, não ter ideia do motivo da construção do monumento onde está depositando uma coroa de flores e não saber a razão deste local ser incluído nas visitas de dignitários estrangeiros, isso é imperdoável.

A situação foi tão vexatória que assim que sua declaração chegou aos canais de mídia, a imprensa israelense que estava fazendo uma cobertura morna, passou a ataca-lo sem piedade. Vídeos de suas declarações homofóbicas e misóginas surgiram nos noticiários das TVs e o próprio Museu do Holocausto foi questionado, acabando por emitir uma nota onde afirmou que a declaração do presidente brasileiro era equivocada.

Existem muitos assassinos da memória, os conhecidos negadores do Holocausto. Pessoas que afirmam que os nazistas não mataram seis milhões de judeus e que as mortes de alguns milhares nos campos de concentração se deveram a doenças e outros fatores naturais.

Estamos agora diante de um novo conceito, o de assassinos da história. Pessoas que tentam reescrever fatos históricos baseados na linguística, na maneira como de denominavam os movimentos envolvidos. Se um deles tem a palavra Democrata no nome, ele é democrata, se tem a palavra Nacional, ele é nacionalista, e assim por diante. Em sendo assim, Socialista no nome, só pode ser de esquerda.

Se para uma pessoa comum isto é um absurdo, imaginem para nós judeus termos de escutar uma barbaridade destas. Ele, o presidente do país, dando uma declaração estapafúrdia em Israel, na porta do Museu do Holocausto, que afirma em seu site ao explicar a frustração do povo alemão após a Primeira Guerra que "junto a intransigente resistência e alertas sobre a crescente ameaça do Comunismo, criou solo fértil para o crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha, gerando entidades como o Partido Nazista".

A visita de Bolsonaro não será lembrada aqui pelo fato de não cumprir sua promessa de mover a embaixada do Brasil para Jerusalém.

Tampouco pela abertura do escritório comercial em Jerusalém. Muito menos pela visita não protocolar ao Muro das Lamentações e assinar o livro de visitante a um grupo extremista que deseja derrubar as Mesquitas do Monte do Templo para lá construir o Terceiro Templo de Israel. Nem falar dos acordos de intenção que não servem para nada. O que ficou marcado para os israelenses foi "o que aquele presidente idiota do Brasil disse antes de ir embora".

Interessante mencionar que as entidades judaicas brasileiras representativas da comunidade ficaram em silencio. Somente os grupos judaicos na resistência emitiram nota de repúdio e escreveram artigos contra tamanho absurdo.

O silêncio das entidades oficiais, Federações e Confederação ao oficialmente se omitirem, ou ressaltando o aspecto positivo de que ele ao menos visitou Israel, mostra bem o lado trágico da nossa história. Não foi muito diferente na Alemanha antes da ascensão de Hitler. O fenômeno do fascismo judaico sempre foi uma mancha negra no nosso passado que volta para nos assombrar.

Felizmente existe o outro lado. Vários grupos de resistência judaica democrática existem neste momento fazendo um trabalho fantástico de oposição a este governo fascista. Cada um contribui à sua maneira. Todos somam diariamente ações de vigília e de esclarecimento sobre os acontecimentos. Eles são o verdadeiro espírito judaico humanista. Assim foi também na Alemanha Nazista.

 

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