O Baixo Clero chega a Davos

"O capitão leu um texto em menos de 10 minutos que vai ficar para a história pela pobreza de ideias e propostas, digno de um representante do baixo clero da Câmara Federal", diz o Florestan Fernandes Jr., do Jornalistas pela Democracia, ao comentar o discurso de Jair Bolsonaro em Davos; "Para encerrar as fakenews o capitão afirmou: 'Vamos defender a família e os verdadeiros direitos humanos; proteger o direito à vida e à propriedade privada...'". "Direito à vida liberando o porte de arma num país onde 63 mil pessoas são assassinadas todos os anos?", questiona; "Ou será que nossa proteção virá das milícias do Rio, cujos parentes trabalhavam para o primogênito, Flávio Bolsonaro?"

O Baixo Clero chega a Davos
O Baixo Clero chega a Davos (Foto: Arnd Wiegmann/Reuters)

Por Florestan Fernandes Jr., para o Jornalistas pela Democracia

Nunca um chefe de Estado falou tão pouco na abertura do fórum de Davos, que reúne os representantes das 20 maiores economias do mundo. O capitão leu um texto em menos de 10 minutos que vai ficar para a história pela pobreza de ideias e propostas, digno de um representante do baixo clero da Câmara Federal.

Ao invés de lançar desafios para o desenvolvimento econômico dos países emergentes e se colocar como liderança na América Latina, o capitão presidente falou do seu sucesso como candidato e abusou das fakenews. Em um dos trechos, afirmou: "Pela primeira vez no Brasil um presidente montou uma equipe de ministros qualificados" [...] "não aceitando ingerências político-partidárias que, no passado, apenas geraram ineficiência do Estado e corrupção". Como assim? O Onyx Lorenzoni , chefe da Casa Civil, é deputado desde 2003 e usou dinheiro de Caixa Dois em suas campanhas. Mesmo assim foi perdoado pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Mais à frente o capitão emendou: "Nossas relações internacionais serão dinamizadas pelo ministro Ernesto Araújo, implementando uma política na qual o viés ideológico deixará de existir". O novo chefe do Itamarati, no entanto, já conseguiu provocar vários deslizes diplomáticos. Queria romper com a China por ser um país comunista e só voltou atrás quando os exportadores lembraram que 27% das nossas exportações são para o gigante Asiático. Araújo defende ainda a mudança da embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém. Isso provocou uma revolta imediata dos países árabes. A primeira retaliação veio da Arábia Saudita, que suspendeu ontem a importação de carne de frango de 33 frigoríficos brasileiros. Vão comprar agora da Argentina.

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Em outro trecho, para deixar os ambientalistas de queixo caído, o capitão disparou: "Somos o país que mais preserva o meio ambiente. Nenhum outro país do mundo tem tantas florestas como nós". Um dos primeiros atos de Bolsonaro foi abrir mão da possibilidade de o Brasil sediar a Conferência do Clima da ONU. Nesse encontro seria implementado o Acordo de Paris que propõe redução do desmatamento e emissão de gases que provocam efeito estufa. Só pra constar: o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é apoiado pelos ruralistas e é réu por improbidade envolvendo crimes ambientais.

Para encerrar as fakenews o capitão afirmou: "Vamos defender a família e os verdadeiros direitos humanos; proteger o direito à vida e à propriedade privada...".

Direito à vida liberando o porte de arma num país onde 63 mil pessoas são assassinadas todos os anos? As famílias estarão mais protegidas quando as meninas vestirem rosa e os meninos azul, como propõe a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves? Ou será que nossa proteção virá das milícias do Rio, cujos parentes trabalhavam para o primogênito, Flávio Bolsonaro?

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