O barco Temer afunda e os ratos já pulam fora

Temer e Padilha, que formam a linha de frente do governo golpista, dificilmente terão argumentos para contestar Yunes que, estranhamente, vinha sendo preservado pelo juiz Sergio Moro

Ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o presidente Michel Temer 25/08/2016 REUTERS/Ueslei Marcelino
Ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o presidente Michel Temer 25/08/2016 REUTERS/Ueslei Marcelino (Foto: Ribamar Fonseca)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Nenhuma autoridade do Judiciário, do Ministério Público ou da Polícia Federal se manifestou, até agora, sobre a grave denúncia de José Yunes, a "mula" do ministro Eliseu Padilha, de que dinheiro de propina da Odebrecht entregue ao hoje licenciado chefe da Casa Civil foi utilizado, com o conhecimento de Michel Temer, para a compra de votos dos 140 deputados que elegeram Eduardo Cunha presidente da Câmara. Graças a esse negócio Cunha ganhou a oportunidade de viabilizar o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, dando partida ao processo que culminou com o afastamento dela do Palácio do Planalto. Os mesmos deputados que venderam o seu voto, portanto, aprovaram o impeachment, o que significa que a destituição de Dilma foi comprada. A farsa, que teve lances vergonhosos no plenário da Câmara, está desmoronando em meio ao estranho silêncio, entre outros, do Supremo Tribunal Federal, do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e do juiz Sergio Moro.

Além de complicar a situação de Padilha, que saiu de fininho da frente dos holofotes alegando questões de saúde, a denúncia de Yunes, considerado o melhor amigo de Temer, também o deixou mal. Na verdade, Temer e Padilha, que formam a linha de frente do governo golpista, dificilmente terão argumentos para contestar Yunes que, estranhamente, vinha sendo preservado pelo juiz Sergio Moro. O comandante da Operação Lava-Jato, aliás, também ficou muito mal nessa sórdida trama, porque desconsiderou a insistência do ex-deputado Eduardo Cunha para que Yunes fosse ouvido como sua testemunha de defesa. Ficou agora a impressão de que Moro, ao cancelar qualquer menção a Yunes, na verdade pretendeu preservar Temer. Ele chegou a censurar Cunha, acusando-o de tentar pressionar o Presidente da República, deixando o ex-deputado a ver navios no seu esforço para defender-se e conseguir a liberdade.

Vale registrar, também, que todos os deputados antes fiéis a Cunha e que tentaram impedir a sua cassação, estão calados, sem nenhum gesto em sua defesa. Nem parece aqueles que em determinado momento gritavam "somos todos Cunha" e que, por isso, também deveriam estar presos com ele. No mínimo deveriam ter o mandato cassado pela venda dos votos. A esta altura, porém, passada a euforia inicial da vitória do golpe que colocou Temer no poder, já tem muita gente se preparando para abandonar o barco, que começa a fazer água. José Serra e Padilha foram os primeiros a pular fora, alegando questões de saúde, mas tudo indica que outros ratos igualmente deixarão a embarcação que, pelos sinais, promete afundar no máximo até abril, levando junto a Lava-Jato, que escancarou os seus objetivos políticos antes mascarados pelo pretexto de combate à corrupção.

Na realidade, parece que a Lava-Jato está com seus dias contados. Depois de fazer a sua parte no processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff, na perseguição a Lula e no desmonte das grandes empreiteiras do país, a operação, que conquistou fama internacional e transformou o juiz Sergio Moro em celebridade, começou a ser descartada porque não mais interessa aos promotores do golpe. No momento em que começou a ameaçar membros do governo, focando no PMDB, a Lava-Jato, antes aliada, virou inimiga e os golpistas começaram a se mobilizar para estancá-la, conforme deixou claro o senador da suruba Romero Jucá numa conversa com o ex-diretor da Transpetro Sergio Machado. E começaram a surgir críticas aos procuradores da força-tarefa e ao juiz Moro até de ministros do Supremo Tribunal Federal. E depois das críticas do ex-presidente do STF Nelson Jobim, em entrevista divulgada domingo, parece que o super-herói está perdendo os seus poderes e se transformando mesmo em vilão.

Tudo indica que, passado o carnaval, novos fatos relacionados ao golpe virão à tona e o governo Temer ficará insustentável. Resta saber, no entanto, se o Supremo vai continuar mantendo o sigilo das delações da Odebrecht e ignorando a compra do impeachment, participando da blindagem de Temer e dos seus ministros, além dos tucanos, que prosseguem pulando de galho em galho sem serem incomodados. Na verdade, já é tempo da Suprema Corte deixar de ser um órgão político para começar a fazer justiça de fato, com isenção, recuperando a confiança do povo brasileiro. Já é tempo de rever decisões escandalosamente políticas e praticar a justiça como, por exemplo, libertar presos "preventivos" que se tornaram prisioneiros perpétuos por conta de convicções políticas. Se até um assassino confesso, como o goleiro Bruno, foi libertado, por que pessoas apenas citadas por delatores, sem provas convincentes, devem permanecer na prisão?

Depois do "mensalão" e da Lava-Jato matar alguém passou a ser um crime menos grave do que receber propina. Marco Valério, por exemplo, foi condenado a 43 anos de prisão, sob a acusação de ser o "operador do mensalão", enquanto o goleiro Bruno, que matou cruelmente Elisa Samudio, não chegou a 30 anos e já está em liberdade. Pelo visto, para a nova justiça, que surgiu após a politização do Poder Judiciário, a vida vale menos do que um punhado de reais. Ou seja, no Brasil de hoje roubar é um crime muito mais grave do que matar. Não há dúvida de que alguma coisa está errada.

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247