O baronato pede bis

"A partir deste final de semana, os senhores da grana que ergue e destrói coisas belas, como cantou Caetano, optaram por monitorar a temperatura de Bolsonaro e adotar o princípio: se ajeite comigo e dê graças a Deus", escreve a jornalista Denise Assis

(Foto: Carlos Amoroso/Fotos Publicas | Reprodução)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia - Para se chegar ao impeachment de um presidente da República, há que haver correlação de forças. É o que mais se ouve. Para a construção de uma “terceira via” também. E, no momento, ela é tão consistente como uma massa de panquecas. Independentemente de constar da Constituição, a opção do afastamento, para o baronato que aderiu ao “Fora Bolsonaro” e veio a público com manifestos de repúdio aos seus absurdos, a efetivação do ato tem sido vista como atitude extrema e traumática. Não consideraram desta forma ao retirar Dilma Rousseff, em 2016, mas agora, justo por isto – por termos vivido dois impeachments na história recente -, contornam, evitam, repudiam. 

Apostavam as suas fichas num redentor que surgisse entre Bolsonaro e Lula, introduzindo no cardápio eleitoral uma opção “palatável”, mas tudo ao que assistem é o avançar de Lula nas pesquisas. Deste modo, bem ao estilo anos de 1950/1960, entre tê-lo de volta e alguém que acha “uma desgraça” a cadeira que ocupa (significa trabalho, coisa que ele odeia), mas tem uma única satisfação: “saber que não tem um comunista sentado naquela cadeira”, eles engolem em seco e pedem bis. 

A um ano da eleição, contam com um cardápio vasto de nomes de onde poderiam pescar o candidato ideal, mas em política, neste prazo, quem tem muitos não tem nenhum. E, a partir deste final de semana, os senhores da grana que ergue e destrói coisas belas, como cantou Caetano, optaram por monitorar a temperatura de Bolsonaro e adotar o princípio: se ajeite comigo e dê graças a Deus.  

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Numa rentrée cuidadosamente preparada, Bolsonaro surge repaginado na capa da revista Veja (sempre ela), em pose de candidato. O cenário é o que ele menos frequenta, a biblioteca do Palácio. A pose, bastante adequada, é de costas para os livros que ele nunca leu. O traje, é o habitual de quantos por ali passaram: terno e gravata. Na sua versão, em tom claro. Azul, para a sorte mudar. Quanto à pose, ali está Bolsonaro raiz, para não desagradar de todo os seus 22% do eleitorado. Há na cena uma cadeira – visivelmente separada para ele -, que optou por sentar-se nas costas de um sofá preto, em “capitonê”, único toque de “rebeldia”. Mas a ousadia para por aí. Dali em diante é só “sabonete”. O produto pronto e acabado de um candidato que cabe em qualquer bolso da direita. Até o da Faria Lima.

De cara, é preciso espantar uma ideia laboriosamente cultivada, ensaiada e, por pouco, posta em prática por ele: a do golpe, que de forma inusitada tenta jogar no colo das esquerdas. “Daqui pra lá, a chance de um golpe é zero. De lá pra cá, a gente vê que sempre existe essa possibilidade”. Pronto. Está feita a chamada de capa, apelativa e falsa como uma nota de três reais. Não por tirar do horizonte o golpe, mas por apresentar ao respeitável público um Bolsonaro cordato, que acredita na urna eletrônica e no ministro Luiz Roberto Barroso, a quem já chamou de fdp. “Não tem golpe sem vice e sem povo. O vice é que renegocia a divisão dos ministérios. E o povo que dá a tranquilidade para o político voltar”. 

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Outro assombro, a pandemia, que neste final de semana deve atingir a marca de 600 mil mortos, é selo carimbado em sua gestão. Para afastá-lo, pede emprestado o negacionismo que usou contra a existência e o grau de periculosidade da Covid-19, para usá-lo a seu favor, neutralizando os ataques óbvios que enfrentará na campanha: inflação, negligência, aumento brutal do desemprego e, claro, jogando o vírus na conta da população que, vagabunda, ficou em casa engordando.

“Não errei em nada. Fui muito criticado quando falei que ficar trancado em casa não era a solução. Eu falava que haveria desemprego — e foi o que aconteceu. Outra consequência disso é a inflação que está aí. Hoje há estudos que mostram que quem mais caminha para o óbito por coronavírus é o obeso e quem está apavorado. Falei isso no início do ano passado. Todo mundo aumentou de peso ficando em casa”. 

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A pergunta que resta é: teria o baronato jogado a toalha de vez? Há sempre um fiapo de esperança, embora o cast venha derretendo a olhos vistos. O vice, Hamilton Mourão, foi tirado da chapa presidencial porque é um milico e não um político. De cara Bolsonaro o queimou como vice e, também, às suas pretensões de se colocar como candidato. Na quinta-feira, o ex-herói, ex-juiz e ex-ministro, Sergio Moro, prestes a engrossar a estatística do desemprego, desembarcou em Brasília para decidir o seu destino. Preso à condição de um dígito nas pesquisas, aventou a possibilidade de se conformar com a disputa para o Senado.

Restam as prévias do PSDB – o inarredável sonho de consumo da classe dominante – que acontecerão em clima de superprodução, com transmissão da TV Globo, uma verdadeira “Porta da Esperança”. João Dória ou Eduardo Leite? E, ainda, embolados na rabeira: Simone Tebet (MDB), Aldo Rebelo (sem partido) Henrique Mandetta (DEM) sem fôlego para alçar voo solo. Não se espantem se ele vier a compor chapa com o também pretendente, Ciro Gomes (PDT), um eterno sonhador com o embate Bolsonaro X Ciro, no segundo turno. Alguém precisa avisar a ele, no entanto, que para chegar a esta condição é preciso passar antes pelo primeiro turno. E aí, há um Lula no meio do caminho. É possível que ele tenha que refazer a mala e rumar para Paris.

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