Ô Bolsonaro, olha só o que esse tal de Alberto Fernández fez!

Jornalista Eric Nepomuceno condena o gesto de Jair Bolsonaro, que criticou o ministro da Defesa nomeado pelo novo presidente argentino, Alberto Fernández, e traz histórias que vão desagradar ainda mais o capitão: outras nomeações são de filhos de desaparecidos políticos da ditadura

Alberto Fernandez e Cristina Kirchner tomam posse como presidente e vice na Argentina
Alberto Fernandez e Cristina Kirchner tomam posse como presidente e vice na Argentina (Foto: Agustin Marcarian/Reuters)
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Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia - A capacidade de ridículo de Jair Messias Bolsonaro é infinita. Ele consegue o verdadeiro milagre de aprimorar a cada dia seus jorros de boçalidade, invariavelmente mais vigorosos que os anteriores.

Agora mesmo achou-se no sagrado direito de criticar a nomeação do ministro da Defesa feita por Alberto Fernández. 

Segundo Jair Messias, nomear um general de brigada foi um erro lamentável. O correto seria um oficial da maior patente possível, ou seja, um general de exército. Afinal, hierarquia é hierarquia.

Um pequeno detalhe: Agustín Rossi, nomeado por Alberto Fernández, não é uma coisa nem outra: é civil, de profissão engenheiro.

Jair Messias esquece que é capitão da reserva e tem como vice um general de pijama: aqui, a hierarquia (e quase todo o resto) se danou.

Quando Jair Messias souber de outras nomeações feitas por Alberto Fernández, qual será a sua reação?

Estou me referindo especificamente a três nomes: Eduardo de Pedro, Victoria Donda e Juan Cabandié. Se soubesse quem são, Jair Messias já teria tido um ataque de ódio, daqueles bem seus.

Explico: são filhos de desaparecidos durante a ditadura militar inaugurada em março de 1976 pelo general Jorge Rafael Videla (que, aliás, se Jair Messias conhecesse alguma coisa da história argentina teria esse sanguinário no seu altar de adoração) e que só terminou com a eleição de Raúl Alfonsin em 1983.

Eduardo de Pedro, nomeado ministro de Interior, é um advogado de 43 anos. Seu pai, Enrique de Pedro, foi assassinado pela ditadura em 1977. Sua mãe, Lucia Révora, foi sequestrada e desaparecida. Antes, conseguiu salvar a vida do filho de um ano deitando-se em cima dele na banheira da casa onde foi presa. 

Eduardo foi entregue à família de um militar e conseguiu, três meses depois, o que naqueles tempos de horror era um milagre absoluto: ser recuperado pela família da mãe. Sua história é, na verdade, a menos dramática dos três: pelo menos foi criado sabendo quem era.

Victoria Donda também é advogada e tem a mesma idade de Eduardo. Foi escolhida por Alberto Fernández para presidir o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi, na sigla em castelhano). Aliás, se Jair Messias souber – apenas souber – da existência do Inadi explode em fúria: afinal, a missão de Victoria Donda será justamente combater gente como ele, seu trio de filhos hidrófobos e seus seguidores mais leais.

Victoria nasceu na ESMA, a Escola Superior de Mecânica da Armada, o maior e mais cruel campo de concentração da ditadura que, a propósito, cumpriu o que Jair Messias queria que tivesse acontecido no Brasil: matou 30 mil. Só na ESMA, foram pouco mais de cinco mil.

Os pais de Victoria, José Maria Donda e Maria Hilda Donda, fazem parte do contingente de milhares e milhares de ‘desaparecidos’ na ditadura. Quer dizer, foram sequestrados, levados para a ESMA, e mortos. 

Seu caso tem um ingrediente especialmente cruel: um dos torturadores de seu pai chamava-se Adolfo, era oficial da Marinha, destacado para servir na ESMA. 

Adolfo era irmão de José Maria e tio de Victoria. 

Ela foi doada ao oficial da Marinha, Juan Azic, e só descobriu sua verdadeira identidade – sua verdadeira história – em 2003. 

Com ela, as Avós da Praça de Maio chegaram ao 78º argentino a ser resgatado da mentira de sua vida até então. Quatro anos depois, tornou-se a primeira filha de ‘desaparecidos’ a ser eleita para a Câmara de Deputados. 

Juan Cabandié, o novo ministro de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, tem 41 anos e também nasceu na mesma ESMA de Victoria em 1978 – um ano depois dela. 

A história de Cabandié, um dos personagens do meu livro ‘A Memória de Todos Nós’, editado pela Record, é especialmente dramática: seu pai, Damián Cabandié, tinha 19 anos quando foi sequestrado ao sair da casa onde vivia com Alicia Alfonsín (sem nenhum vínculo com o ex presidente Raúl), que tinha 17 e estava grávida. 

A mesma patrulha que sequestrou Damián voltou pouco depois, e levou Alicia para a ESMA. 

Três meses depois, Alicia teve um filho, que ficou com ela poucos dias e seguiu o mesmo destino de quase todos (foram ao menos 500) bebês nascidos em cativeiro: foi entregue a um integrante dos corpos de repressão da ditadura. No seu caso, um policial. 

Alicia seguiu o destino de todas as grávidas que foram presas e tiveram filhos em centros de tortura: ‘desapareceu’. Ou seja, foi morta.

Até os 26 anos Juan desconhecia sua história. Pressentia, em todo caso, que não era filho daquele pai perverso que o espancava, se vangloriava de matar ‘terroristas e subversivos’ e colecionava em casa coisas que roubava da casa das vítimas. 

Por conta própria, procurou as Avós da Praça de Maio e descobriu quem era.

Olha só, Jair Messias: cada um tem o Ricardo Salles e a Damares Alves que merece. 

O problema é que você merece os dois, mas o país, não. 

Nem os dois e muito menos você, Jair Messias. Muito menos você.

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