O Brasil de Bolsonaro é bem diferente do Brasil real

"É comum imaginar que as vitórias eleitorais são socialmente homogêneas, isto é, que a maioria obtida no conjunto do eleitorado se repete nos grandes grupos em que a sociedade se divide. Que a vitória decorre do vencedor ser majoritário em todos os segmentos relevantes", diz Marcos Coimbra, presidente do Instituto Vox populi; "Trata-se de um equívoco, desmentido em diversas eleições. Na que fizemos ano passado, um equívoco completo. A tomar pelas pesquisas de intenção de voto realizadas ao longo de 2018, o Brasil que votou em Bolsonaro está longe de ser um bom retrato do conjunto de nossa sociedade. O Brasil de Bolsonaro não é igual ao Brasil"

O Brasil de Bolsonaro é bem diferente do Brasil real
O Brasil de Bolsonaro é bem diferente do Brasil real (Foto: Adriano Machado - Reuters)

Em outubro passado, Bolsonaro ganhou a eleição. Recebeu, no primeiro turno, o voto de 34% dos eleitores brasileiros, 13 p.p. a mais que Fernando Haddad. No segundo, embora o petista conquistasse o voto de quase 2 em cada 3 eleitores dos demais candidatos, o capitão foi a 39% e venceu.

É comum imaginar que as vitórias eleitorais são socialmente homogêneas, isto é, que a maioria obtida no conjunto do eleitorado se repete nos grandes grupos em que a sociedade se divide. Que a vitória decorre do vencedor ser majoritário em todos os segmentos relevantes.   

Trata-se de um equívoco, desmentido em diversas eleições. Na que fizemos ano passado, um equívoco completo.

A tomar pelas pesquisas de intenção de voto realizadas ao longo de 2018, o Brasil que votou em Bolsonaro está longe de ser um bom retrato do conjunto de nossa sociedade. O Brasil de Bolsonaro não é igual ao Brasil.

     1. No gênero

As mulheres são maioria no eleitorado do Brasil, em consequência do avanço da escolaridade feminina e do atraso masculino decorrente da entrada precoce no mercado de trabalho. Há mais eleitoras que eleitores, em especial nas regiões mais pobres.

Mas o eleitorado de Bolsonaro é significativamente mais masculino

     2. Na distribuição regional

No Brasil, o Sudeste e o Sul, as duas regiões mais ricas, representam 58% do eleitorado total, restando 42% para a soma de Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Em outras palavras, não estamos muito distantes de um equilíbrio entre “Brasil mais rico” e “Brasil mais pobre”.

No Brasil de Bolsonaro, o mesmo não ocorre.

O tamanho relativo das duas partes muda de maneira relevante: entre os eleitores de Bolsonaro, os moradores de regiões mais ricas são quase o dobro daqueles das mais pobres. No Sul e Sudeste estavam 66% das intenções de voto no capitão. 

     3. Na renda

O Brasil é um país pobre, onde quase 45% do eleitorado pertence a famílias com rendimentos totais abaixo de dois salários mínimos mensais. O que quer dizer que apenas pouco mais da metade da população brasileira tem renda maior.

Mas não no Brasil de Bolsonaro. Nesse, 70% das pessoas vive com rendimentos maiores. É um recorte mais rico do País.

    4. Na religião

O Brasil é um grande país católico, em que quase 60% dos eleitores assim se definem, mesmo com o avanço das igrejas evangélicas nos últimos anos. No conjunto, os eleitores evangélicos são metade dos católicos.

No Brasil de Bolsonaro, há ainda vantagem dos católicos, mas pequena. Somente 10 p.p. separam os dois grupos.

    5. Nas atitudes em relação ao PT

Seria despropositado imaginar que o Brasil de Bolsonaro fosse equivalente ao conjunto do País no que se refere às atitudes em relação ao PT. É natural que houvesse muito mais antipetistas entre aqueles que pensavam em votar no capitão, assim como havia muito mais petistas com intenção de voto em Haddad.

Não deixa, no entanto, de ser notável que 60% das intenções de voto em Bolsonaro viessem de antipetistas, mais ou menos aguerridos. É possível que alguns fossem contrários ao PT por crença nas virtudes do bolsonarismo. Mas o mais provável é que fossem pessoas inclinadas na direção do capitão fundamentalmente por rejeitar o PT. Algumas sequer enxergavam outras qualidades no candidato. 

Concluindo: o Brasil de Bolsonaro é muito diferente do Brasil. Sua vitória decorreu de conseguir, com recurso a expedientes e trapaças hoje identificados, formar uma maioria que, paradoxalmente, não expressa o conjunto de nossa sociedade.

O Brasil mais masculino, mais centrado em regiões ricas, com eleitores mais ricos e mais evangélicos, super-representado de antipetistas, derrotou o Brasil da maioria feminina, do maior equilíbrio entre regiões ricas e pobres, de larga maioria de eleitores de renda baixa, de petismo e antipetismo se equivalendo.

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