O Brasil não tremeu, mas ficou abalado

"Brasil não tremeu, como prometeu pouco antes de ser exonerado, nem Bolsonaro caiu, conforme ameaçou ('Se eu cair ele cai junto'), mas a sua divulgação expôs o mentiroso", avalia o jornalista Ribamar Fonseca; O seu silêncio, após as ameaças, dá ensejo a mil especulações. Mas de uma coisa ninguém tem dúvidas: caiu a máscara, afivelada durante a campanha, sobre ética e combate à corrupção, que convenceu milhões de trouxas", diz Fonseca

O Brasil não tremeu, mas ficou abalado
O Brasil não tremeu, mas ficou abalado (Foto: Fotos: ABr)

Bebiano saiu e não disse o que disse que diria. Provavelmente esqueceu ou foi aconselhado a esquecer, mas lembrou-se dos áudios da conversa, via WhatsApp, com o capitão. O Brasil não tremeu, como prometeu pouco antes de ser exonerado, nem Bolsonaro caiu, conforme ameaçou ("Se eu cair ele cai junto"), mas a sua divulgação expôs o mentiroso. E causou estragos na base aliada no Congresso, dificultando a aprovação da proposta de reforma da Previdência. Ao mesmo tempo abriu as portas para os negócios: já circulam informações de que cada voto a favor da reforma deverá custar, no mínimo, R$ 10 milhões, além de cargos no terceiro escalão do governo. O capitão, portanto, que se elegeu prometendo não fazer esse tipo de negócio e muito menos o tradicional toma-lá-da-cá, vai ter de morder a língua e abrir os cofres. Sem um articulador político, a aprovação da reforma, como foi proposta, vai ficar muito difícil, até porque ela já foi condenada pelos trabalhadores, líderes políticos e especialistas em previdência, sendo considerada, entre outros pelo governador Flavio Dino, do Maranhão, como um genocídio.

Junto com a proposta de reforma da Previdência, o Congresso terá de apreciar, também, o tal pacote anti-crime proposto pelo ministro Sergio Moro que, se vier a ser aprovado, poderá contribuir para o genocídio esperado com a nova forma de aposentadoria. O ex-juiz, no entanto, confirmando a sua esperteza – a mesma que o conduziu ao Ministério da Justiça supostamente como prêmio por ter prendido Lula – fatiou a sua proposta, separando a criminalização do Caixa 2, que deverá constar de um novo projeto. Em princípio sua atitude foi vista como uma "fraquejada", diante da pressão dos políticos que não concordam com a classificação do Caixa 2 no mesmo nível da corrupção e dos crimes hediondos, mas a verdade é que ele percebeu que se não fizesse o fatiamento sua proposta não teria condições de ser aprovada. Ele provavelmente imagina que, desse modo, conseguirá a aprovação do projeto que isenta de culpa quem mata "com medo ou sob forte emoção". Ao contrário do que pensa, no entanto, seu "pacote" dificilmente será aprovado nos termos em que foi proposto, a não ser que os parlamentares tenham enlouquecido.

O fato é que Bolsonaro, que parecia ainda forte para garantir a aprovação das suas reformas pelo Congresso, sofreu enorme desgaste com a crise que culminou com a exoneração de Bebiano. E mesmo com o silêncio do ex-ministro, que prometeu derrubá-lo com suas revelações, passou a pesar sobre ele a suspeita de que deve haver algo de pôdre escondido. Afinal, Bebiano, então presidente do PSL, foi coordenador da sua campanha eleitoral e deve saber muito sobre os seus bastidores. O seu silêncio, após as ameaças, dá ensejo a mil especulações. Mas de uma coisa ninguém tem dúvidas: caiu a máscara, afivelada durante a campanha, sobre ética e combate à corrupção, que convenceu milhões de trouxas. Depois do caso de Fabrício Queiroz, das supostas ligações de Flavinho com os chefões do crime organizado e do laranjal do PSL, o Partido do Suco de Laranja, o Governo Bolsonaro começou a exalar mau cheiro. E o capitão-presidente parece mais perdido do que cego em tiroteio, sem saber se obedece aos filhos ou aos generais.

Na verdade, com ou sem a denúncia de Bebiano, o capitão parece que não terá muito tempo no comando da Nação. Os generais, que assumiram muitos postos no governo e hoje são maioria absoluta no Palácio do Planalto, já não escondem sua irritação diante do comportamento de Bolsonaro. E o vice-presidente, também general, Hamilton Mourão, que se move com muita desenvoltura nos meandros do poder e no relacionamento com a imprensa, parece se preparar para assumir a Presidência. Portanto, não será surpresa para ninguém se dentro em breve ele assumir o cargo, com o consequente afastamento do capitão, que terá cumprido a missão de trazer os militares de volta ao poder pela via democrática. A exemplo do ex-deputado Eduardo Cunha, que perdeu a utilidade depois de viabilizar o impeachment da presidenta Dilma Roussef, Bolsonaro também já fez a sua parte. Além disso, sem ele no poder os seus atuais conselheiros, o astrólogo Otávio de Carvalho e o americano Steve Bannon, também deixarão de dar pitacos no governo, pitacos, diga-se de passagem, extremamente prejudiciais aos interesses do Brasil.

Com Mourão na Presidência, o que parece a cada dia mais próximo diante das trapalhadas do capitão, dificilmente permanecerão no governo os ministros bichados, entre eles Onix Lorenzoni, Damares, Salles e Marcelo, além do pessoal do segundo escalão que pretende privatizar a Petrobrás e o Banco do Brasil, porque o general já deixou claro que não concorda com eles. E nem com o chanceler aloprado, que idolatra Trump. Ou seja, muita coisa vai mudar, inclusive, óbvio, a participação dos filhos do presidente nas decisões do governo. E Bolsonaro, que chegou ao Palácio do Planalto como salvador da Pátria montado em fakenews, ou seja, mentiras, confirmará aquele velho ditado de que "mentira tem pernas curtas". Ou vida curta. E se Bebiano resolver abrir a boca, para não encerrar de maneira melancólica sua curta passagem pelo governo, o processo de transferência de poder certamente será acelerado. E vamos assistir à autofagia do bolsonarismo.

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