O caminho sem volta de Jair Bolsonaro

Para ter sucesso, Bolsonaro precisa vencer os demais Poderes da República – o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) –, as organizações que representam a sociedade, os movimentos sociais e a quase totalidade da mídia

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As tensões políticas no país se avolumam rapidamente. O presidente Jair Bolsonaro, já um fantasma que ronda o terceiro andar do Palácio do Planalto – onde fica a cadeira da Presidência da República –, assombra o país com ameaças e gritos, mas se mostra incapaz de encontrar um caminho para seguir em frente. Bolsonaro se transformou numa figura isolada, mergulhada em seus devaneios e disposta a reagir como fera acuada.

Até onde ele pode levar a sua aventura ainda é um ponto de interrogação. O que lhe resta de apoio efetivo se limita às suas milícias, que atuam em frentes como os subterrâneos da marginalidade social, as seitas que traficam a fé e o crime organizado nas redes sociais. Seu governo está infestado de tresloucados, além de alguns militares ainda fiéis a ele.

Em busca de respaldo, já se fala abertamente em compra de apoio no Congresso Nacional. Mas a operação tem se mostrado difícil, tal o grau de descrédito de Bolsonaro. Ninguém se arrisca a apostar alguma ficha no futuro do seu governo, o que vai lhe deixando como única alternativa se lançar em aventuras contra as instituições, criando no país uma situação de convulsão política, que eventualmente possa lhe favorecer.

As probabilidades de sucesso nessa empreitada são mínimas. Para ter sucesso, Bolsonaro precisa vencer os demais Poderes da República – o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) –, as organizações que representam a sociedade, os movimentos sociais e a quase totalidade da mídia. É muita guerra para pouca munição. Mesmo o apelo às Forças Armadas não encontra eco, conforme disse recentemente o ex-ministro da Defesa, Aldo Rebelo.

O grande problema para Bolsonaro é a formação de um processo político com força para sustentar seu projeto de poder. O bolsonarismo chegou ao governo cavalgando o lavajatismo, impulsionado pela mídia, sobretudo o Grupo Globo. Ou seja: ele entrou em um barco que navegava desde a farsa do “mensalão”. Sem esse lastro para se manter no poder, só lhe resta se voltar para as suas históricas bases de apoio – os agrupamentos milicianos que agora se manifestam como se a chegada de Bolsonaro à Presidência da República fosse por seus méritos.

Essas debilidades do bolsonarismo não significam que o projeto de poder eleito em 2018 está debilitado. Basta ver o jogo pesado do Grupo Globo em torno da barulhenta saída do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, do governo. O estardalhaço feito em torno das suas delações contra Bolsonaro dava a entender que ele estava de posse de uma bomba de alto poder de destruição. Quando tudo veio a público, o que se viu foi um traque.

Mas o Grupo Globo, seguido por grande parte da mídia, tenta manter a versão de que o traque é uma bomba poderosa. “O depoimento é uma bomba política, que só desmoralizará quem não quiser investigar”, escreveu Merval Pereira, porta-voz dos Marinho, em sua coluna no jornal O Globo. O caso pode não dar em nada, mas reforça as acusações que pensam contra Bolsonaro, de consequências políticas imponderáveis.

Moro não saiu do governo à toa, pelos motivos que foram espalhados pela mídia. Aldo Rebelo, na mesma entrevista, diz que Bolsonaro possivelmente estava com medo de que a Polícia Federal fosse usada contra ele, como ocorreu com seus antecessores. Segundo ele, quem mais usou a Polícia Federal foi Moro, não Bolsonaro, que tinha receio desse uso. Ou seja: o projeto de poder que levou Bolsonaro de carona à Presidência da República segue operando intensamente.

O rato de Maringá

A montanha pariu um rato. O mesmo que comandou operações obscuras desde a década de 1990, a começar pelo escandaloso caso de Maringá, passando pelo não menos absurdo caso Banestado. Fala-se aqui de Sérgio Moro, o capo da Operação Lava Jato que saiu do governo Bolsonaro encenando, como sempre, pirotecnia e fazendo manobras diversionistas.

Era evidente que ele não tinha como entregar o que aparentou prometer. Todas as acusações feitas ao presidente Jair Bolsonaro na sua estrepitosa entrevista de despedida do cargo de ministro da Justiça eram amplamente conhecidas. A diferença foi que elas partiram de um dos principais cúmplices do presidente em sua escalada de crimes.

Óbvio que as denúncias, partindo de quem partiu, têm o ingrediente da relevância. Tanto que o assunto foi para as esferas judiciais e pode ter desdobramentos imponderáveis, inclusive no âmbito político. Mas que são fatos de amplo conhecimento não há como negar. Ademais, o comportamento de Bolsonaro, de acordo com as denúncias de Moro, não é da sua exclusividade.

O próprio capo da Lava Jato tem muita mais dívidas no cartório, a esse respeito, do que o presidente. Sem falar em tantas outras, como atesta a sua folha corrida nos casos de Maringá, do Banestado e outros mais. Moro chegou ao governo com a condição de que comandaria um bom pedaço do Estado com porteiras fechadas – ninguém, nem mesmo o presidente, poderia pisar em seu território.

Com todo esse poder, ele usou e abusou dos métodos de que, segundo ele, Bolsonaro se valeu e que serviram de motivo para a sua demissão. Moro aparelhou a estrutura do Estado ligada ao Ministério da Justiça, que ficou apinhado de gente que operou com ele na corrupta e discricionária Operação Lava Jato, para dar bases sólidas ao projeto de poder que deu o golpe do impeachment na ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016.

O grande dilema das facções bolsonaristas e lavajatistas era a consolidação de um governo em condições de garantir a aplicação do programa de governo centrado na receita do ministro da Economia, Paulo Guedes. Moro consolidou sua posição com os métodos fascistas da Lava Jato, mas não tinha estofo político para formar um governo, a começar pela indicação de um candidato a presidente com condições de vencer as eleições.

A solução apareceu no decorrer da marcha golpista, tangida pela mídia – sobretudo o Grupo Globo –, que incensou o bolsonarismo. Na busca de credibilidade para a farsa, Moro e sua organização criminosa forjaram perseguições políticas também em partidos da direita – até no PSDB –, enxovalhando o que passou a ser chamado de “classe política”. Restaram, com a criminalização da política, dois agrupamentos de direta – o bolsonarismo e o lavajatismo. Aí foi só encaixar o programa de governo de Paulo Guedes.

Mas havia um obstáculo: a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, encarcerado de forma criminosa pelo então juiz Moro. A solução foi sujar a ficha de Lula, tirá-lo da disputa e deixar o campo livre para Bolsonaro se eleger. Apesar de toda essa manobra, a chapa liderada pela esquerda, com Fernando Haddad e Manuela d’Ávila, deu um calor no bolsonarismo-lavajatismo.

O grande problema foi que Bolsonaro não respeitou as regras do jogo e quis transformar Moro de protagonista em coadjuvante, aparelhando todo o Estado com seus cupinchas. O ex-ministro não aceitou e saiu atirando. Agora, com as coisas mais refletidas, surge a constatação de que sua munição na passava de traques. Como ele mesmo disse, jamais prometeu algo além do que entregou.

O barulho em torno de suas delações atinge fortemente Bolsonaro, mas Moro fez apenas mais uma de suas pirotecnias. Sua missão vai muito além disso – a busca de uma forma de governo que consiga dar estabilidade política ao programa econômico entreguista, privatista e escravista por ora entregue ao comando de Paulo Guedes. 

Duas facções golpistas 

O país vive um clima de guerra aberta entre duas facções golpistas. De uma lado, está o bolsonarismo, que chegou ao poder, nas eleições de 2018, pela via construída pela Operação Lava Jato. A tentativa de unir essas duas vertentes num projeto de poder, sustentado pelo programa de governo que tem como epicentro as teses do ministro da Economia, Paulo Guedes, fez água pelas pretensões bonapartistas de Bolsonaro.

É óbvio que ele não reunia condições para se eleger presidente da República. Suas ideias não se enquadram em nenhum projeto da direita convencional. Bolsonaro possui singularidades impossíveis de serem ajustadas a uma forma de poder baseada em um lastro social que lhe dê sustentação. Suas propostas são uma espécie de saco de gatos, com peças que não se encaixam e que servem mais à agitação política do que para formar um governo.

O que se sobressai nessa salada são suas premissas falsamente moralistas, secundadas pela ideologia da violência. Elas só podem ser impostas à força, posto que jamais teriam aceitação em todos os segmentos sociais organizados. Algo como fizeram os projetos de poder nazifascistas e o regime militar de 1964 no Brasil. Bolsonaro não faz apologia sistemática aos regimes de Adolf Hitler e Benito Mussolini, mas recorre aos resquícios de popularidade do regime militar brasileiro para defender suas ideias.

Ou seja: o que ele quer é a reedição de um poder baseado na tradicional ideologia da extrema direita. E, como naqueles casos, se aproveita das condições de desesperança das massas com o agravamento da crise econômica sistêmica do capitalismo para espalhar demagogia e fazer falsas promessas. Diz, por um lado, que imporá o reino da moral e dos bons costumes e, de outro, que vai fazer jorrar riquezas por todos os lados.

A mentira tem potencial para enganar muitos incautos, como fizeram Hitler e Mussolini, o único meio para criminosos sedentos de poder se realizarem. A fórmula volta a se espalhar pelo mundo, impulsionada pela crise sem solução do capitalismo. Foi esse o caminho que levou Bolsonaro a se projetar como liderança política no espectro da direita brasileira, que encontroou nos efeitos pirotécnicos da Operação Lava Jato e da mídia uma seara fértil para prosperar.

O fundo da questão é a crise econômica, agravada exponencialmente pela Covid-19. A garantia para Bolsonaro governar era o reforço do sistema de poder que distribui a riqueza produzida nos moldes histórico da estrutura social brasileira. Ou seja: muitos produzindo e poucos se apropriando do que é produzido. Esse sistema ganhou, com o projeto neoliberal, a forma de rentismo, a imensa massa de capital de circula sem controle pelo mundo, parasitando nações e escravizando seus povos.

O golpe de 2016 foi a tomada do poder por esse sistema. Ele interrompeu um ciclo retomado com os governos Lula e Dilma após a ditadura militar, que interrompeu outro ciclo iniciado com a Revolução de 1930 liderada por Getúlio Vargas. E o artífice desse assalto ao poder foi a Operação Lava Jato, gestada no pós-farsa do “mensalão”, um agrupamento com vasta ficha criminal em operações precedentes, entre elas o conhecido caso do Banestado, no Paraná.

A guerra instalada tem esse perfil. Bolsonaro rompeu o pacto das facções e motivou a saída intempestiva de Moro do governo, gerando um grave desequilíbrio no sistema de poder eleito em 2018. Paulo Guedes, que teria herdado os super poderes de Moro (uma peça fundamental para a aplicação de suas teses, seu programa econômico), tende a perder cada vez mais espaço. O presidente entrou por um caminho sem volta – ou vai às últimas consequências com seu golpismo, ou terá de deixar o poder, de uma formou ou de outra.  

Curva ascendente de mortes

As consequências da conduta criminosa do presidente da República, Jair Bolsonaro, desde que a pandemia de coronovírus chegou ao Brasil, precisam ser detidas. A curva ascendente de mortes e contaminações, que ganha velocidade espantosa, indica que o país está entrando numa fase que pode evoluir para uma grande tragédia nacional.

Além dos incentivos às violações das regras recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por autoridades no assunto, Bolsonaro se omite quanto às medidas econômicas para socorrer o povo – sobretudo os mais pobres –, uma postura deliberada para forçar a volta da normalidade no trabalho. Os riscos dessa opção são óbvios até mesmo para o presidente que, cinicamente, trata-os com escárnio e deboche.

No fundo da pantomima está o modelo econômico da crise, de tirar dos pobres para manter os ricos na riqueza. O Estado, por esse modelo, não pode tomar providências emergenciais que comprometam as bases do arrocho nos gastos públicos para estabilizar a brutal desigualdade na distribuição da renda nacional, abocanhada de maneira escandalosamente desproporcional pelo rentismo. O governo age com afinco para defender os interesses dos que se beneficiam desse modelo, sacrificando a vida de milhares entre os que trabalham para sustentar essa estrutura.

Essa equação explica a inação do governo Bolsonaro diante da ruina anunciada da economia nacional. Sem recursos do Estado, o setor produtivo não se sustenta, comprometendo a sobrevivência, sobretudo, das micro, pequenas e médias empresas. E, como consequência, o emprego e o salário de uma imensa massa de trabalhadores, comprometendo a saúde e a vida deles e de seus familiares.

Sem renda, sem condições de sustento e sem políticas públicas para se socorrerem, essa massa fica exposta à fome e à pandemia. É uma equação mais do que criminosa; chega a ser genocida. Grande parte das mortes que já ocorreram pode ser contabilizada como resultado dessa conduta de Bolsonaro de insuflar a contaminação, ao se opor ao isolamento social, e de não providenciar nenhum socorro aos que perdem a fonte de renda.

Esse morticínio deve, em grande medida, ser posto nas costas de Bolsonaro e de seus colaboradores. O desafio é detê-lo. Só o Estado, com políticas públicas de assistência social e medidas econômicas para manter a economia nacional em ação para gerar empregos e salários, pode agir com eficiência para enfrentar o grave cenário que se desenha à frente.

A grande questão é a forma para dar consequência a essa premissa. Os estados e municípios não podem gerir o Tesouro Nacional, não podem pôr a máquina do Estado a serviço das desesperadoras necessidades do povo. Impõe-se a reunião de forças, cada vez mais amplas, para salvar o país e o povo dessa insanidade bolsonarista, a começar pela multiplicação de medidas como as que o Congresso Nacional vem tomando em contraposição à inércia do governo.

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