O campo do possivel

Hoje, dia 28 de outubro de 2018, amanheci tão calmo. O céu estava azul e alguns pássaros cantavam alheios aos acontecimentos humanos. Estou vivo. Parece que eu cheguei são e salvo a esse dia. Outras pessoas não tiveram a mesma sorte

O campo do possivel
O campo do possivel (Foto: Bruno Bou/Mídia NINJA)

Hoje, dia 28 de outubro de 2018, amanheci tão calmo. O céu estava azul e alguns pássaros cantavam alheios aos acontecimentos humanos. Estou vivo. Parece que eu cheguei são e salvo a esse dia. Outras pessoas não tiveram a mesma sorte.

Os dados estão rolando desde o dia 08 de outubro, continuaram sendo rolados nesta madrugada e sinceramente acredito que mesmo agora permaneçam rolando. Principalmente para um contingente de 14% de eleitores que ainda não sabem em quem votar.

Logo mais saberemos os resultados. Mas por enquanto é hora da escrita, estamos no campo do possível. Tanto podemos alcançar uma vitória épica, quanto podemos conhecer a ponta da praia. De qualquer maneira, sendo menos alarmista, eu prefiro acreditar que temos ainda instituições fortes e o resultado será apertado, condições que sugerem a oposição e o jogo democrático.

Alguns amigos estão extasiados com o fato de que em breve deixarão o país. Alguns vão pra Portugal, outros pro Uruguai. Eu não vou pra lugar nenhum.  A ideia de nacionalidade, que nunca foi muito o meu forte, surpreendentemente cresceu dentro de mim.

Apesar de já ter trocado de residência e mudado de bairro várias vezes, eu nunca mudei a minha seção eleitoral. Consequentemente, todas as eleições acabam se tornando um mergulho no meu passado. Hoje não foi diferente. Revisitei a Praça Afonso Pena, a rua Campos Sales, a rua Hadock Lobo. Revi prédios antigos que não foram demolidos e que resistem justamente para que possamos reencontrar o tempo perdido: a padaria Estudantil que sobrevive há anos; o clube Satélite do Banco do Brasil; o colégio Lafayette, que viria a ser comprado pelo grupo Bradesco; o prédio da Faculdade de Letras da UERJ que desapareceu, dando lugar a uma agência de automóveis.

Eu posso trocar o meu título e votar ao lado da minha atual residência. Mas cada eleição é um retorno aos anos 70, quando eu estudava no Colégio de Aplicação da Tijuca, na rua Barão de Itapagipe. Eram os anos de chumbo. Mas não se discutia política no Colégio de Aplicação. A ditadura militar parecia acontecer num país distante. Meus colegas optavam por engenharia ou medicina. E tínhamos orgulho de estudar num colégio modelo, tão difícil de ingressar quanto o Colégio Militar ou o São Bento.

Revejo aquelas calçadas que cheguei a pisar tantas vezes nos anos 70. Quantas pessoas não morriam naquela época, perseguidas pela ditadura militar? Mas nem a minha família, nem o meu colégio, que certamente seguia o padrão de "escola sem partido", davam relevância para o fato - muito pelo contrário, faziam questão de mantê-lo nas sombras. Acho que agora compreendo por que não troco meu local de votação. Repito o itinerário, adentro àquela época e vejo bem claro o que me foi interdito.

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