O Candidato que não gostava de caldo de cana

"Ele era democrata, a favor da redistribuição de renda, sempre se achou de esquerda, mas caldo de cana, nem pensar", escreve Miguel Paiva

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(Foto: Miguel Paiva)


Por Miguel Paiva, para o 247 

Não era a primeira nem a segunda vez que ele se candidatava. Na realidade era a terceira vez. Duas campanhas para deputado estadual e agora uma para deputado federal. Tudo bem. Ele era uma pessoa conhecida na comunidade, tinha muitos seguidores na internet, quase uma Gkay e sua eleição agora trazia boas esperanças para o seu partido. Mas ele tinha que reafirmar seu lado popular, seu lado povão e para isso ele tinha que fazer o que mais detestava. Comer pastel e tomar caldo de cana. Ele odiava caldo de cana. Quase sempre, imediatamente depois, pedia licença e ia até o banheiro para vomitar. Isso quando conseguia. Muitas vezes vomitou no colo da representante das mães e outras na batina do padre. Mas ele pode sempre alegar um enjoo repentino. Agora, candidato a deputado federal tinha muito mais compromissos com a imagem e sua imagem pressupunha, pastel com caldo de cana. Pastel ele até aturava, se bem que tinha uma certa resistência à gordura e tentava fazer uma dieta mais natureba. Era difícil. Tanto cafezinho, tanto pastel, tanta empadinha que o sistema digestivo caia facilmente, muito mais facilmente que o capitalista.

Ele era um político de centro esquerda. Era simpatizante da figura mítica de Ulisses Guimarães, mas sem jamais ter sido obrigado a fechar com Fernando Henrique. Tinham semelhanças. Fernando Henrique também era um que detestava caldo de cana. Era um gourmet, formado pela Escola Cordon Bleu e assíduo frequentador dos melhores restaurantes, do mundo de São Paulo e de Brasília. Foi visto várias vezes no Piantella quando pedia os melhores vinhos e as melhores especialidades gastronômicas recomendadas pelo proprietário.

Mas detestava caldo de cana.

A campanha era implacável. Assim como Simone Tebet que teve que tirar imediatamente uma foto comendo pastel, ele se via a todo momento cercado por fotógrafos ansiosos por retratar o lado popular do candidato. Ele até era de origem humilde, mas sua família logo progrediu, seu pai virou grande comerciante e sua mãe fornecedora de comida para os mais pobres. Isso tudo o perseguia. A mãe que fazia comida para os pobres e ele que não conseguia tomar caldo de cana.

Mas era um problema e o comitê da eleição do partido se reuniu para estudar o que fazer caso isso se tornasse um elemento de rejeição maior do que o do presidente Bolsonaro. Ele já declarara seu voto em Lula, seu lado mais preocupado com o aspecto social, mas seu lado popular estava dependendo de quantos caldos de cana iria conseguir beber.

Não sabia o que fazer. Decidiu colocar sua sorte em jogo mesmo sem tomar caldo de cana. As urnas, eletrônicas, decidiriam. Ele era democrata, a favor da redistribuição de renda, sempre se achou de esquerda, mas caldo de cana, nem pensar.

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