O centenário de Paulo Freire

A pedagogia do Oprimido ou da Autonomia ou da prática da liberdade alimentou-se desse sonho generoso de libertação, que tinha como pressupostos a superação da consciência ingênua pela consciência crítica e a mudança do mundo

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Por Michel Zaidan

Começa nesta terça-feira (15) o simpósio sobre o centenário de Paulo Freire, patrocinado pelo núcleo de teoria crítica e o núcleo de estudos eleitorais, partidários e da democracia, da UFPE.

A base de sua filosofia era o casamento entre a fenomenologia (Husserl) e o existencialismo, produzindo uma linha de pensamento intitulada PERSONALISMO, cujos principais nomes na França eram Gabriel Marcel, Emanuel  Mounier, Teillard de Chardin, Merleau-Ponty e outros. A fenomenologia se organizava em torno da existência de um sujeito ou uma consciência cognoscente e seu objetivo era libertar o sujeito da alienação. Superar a alienação da consciência ingênua para despertá-la para uma visão crítica do mundo. Toda pedagogia revolucionária e crítica   deveria se orientar para esse objetivo.

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Freire foi produto dessa época e ambiente filosófico. Não só ele, os filósofos do Instituto Brasileiro de Educação, também grandes pensadores nacionalistas e desenvolvimentistas, como Álvaro Vieira Pinto, Roland Corbusier também foram.

Paulo Regius Freire pertencia à chamada "esquerda católica", que passou a atuar depois do Concilio vaticano II e os pontificados de Paulo VI e João Vinte III. Foi esse o momento de abertura da Igreja de Roma para o mundo laico e humano.

A pedagogia do Oprimido ou da Autonomia ou da prática da liberdade alimentou-se desse sonho generoso de libertação, que tinha como pressupostos a superação da consciência ingênua pela consciência crítica e a mudança do mundo.

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Como professor de Jovens e Adultos, a pedagogia freiriana herdou essa tarefa precípua de libertar politicamente as pessoas, combatendo o que ele chamava de "educação bancária" para se opor a uma educação libertadora. Naturalmente o método dessa forma de educação (como prática da liberdade) tinha de ser muito diferente da educação tradicional voltada para a repetição e a submissão ou a aceitação do existente. Assim, ela considera que o contexto do educando é o ponto de partida do processo pedagógico e o conteúdo dessa aprendizagem deve se alimentar desse contexto. Ai, surge a função da palavra geradora (extraída das condições de vida e de trabalho dos alunos), ela será o detonador do processo de desalienação do aluno. O fim dessa educação "dialética" não é reconhecer ou ler o mundo tal como ele é, é adotar um desvio critico em relação a esta  escritura do mundo, questionar a aparente naturalização das relações sociais e propor uma nova leitura, crítica e transformadora desse contexto social. Então dizemos que o aluno aprendeu. Aprendeu a ler o livro do mundo à sua maneira "desconstruidora" e "reconstruidora".

Como era de se esperar, a pedagogia do oprimido foi acusada de política, de comunista ou eivada de conteúdos da "doutrina marxista". Paulo Freire que integrava o movimento de extensão cultural da UFPE e colaborou no movimento de educação de base, através de sua pedagogia, foi expulso da UFPE, preso durante 72 dias e exilado do país por 16 anos. Foi trabalhar em Genebra, no Conselho Mundial das igrejas, formulando programas de educação de Jovens e  Adultos para o mundo todo. Foi professor-visitante e Professor "honoris causa" por várias universidades estrangeiras e recebeu um  prêmio da ONU pela sua dedicação à causa da Educação.

A acusação lançada contra ele de "Comunista" ou "Marxista" era preconceituosa e desinformada. Freire nunca foi comunista ou marxista ortodoxo. Bebeu muito em Hegel e  na "Fenomenologia do Espirito", adotou alguns de seus conceitos filosóficos, mas foi de Edmund Husserl que tomou de empréstimo o  principal  da sua teoria da desalienação. Foi perseguido, juntamente com toda a geração de educadores e filósofos que se empenharam e mudar a sociedade e as pessoas) filósofo Ernani Arantes faz  o mapa dos conceitos de Paulo Freire no prefácio ao seu livro mais famoso.

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Tive a oportunidade, quando cheguei à UFPE nos idos de 1986, de orientar uma dissertação de Mestrado em Filosofia sobre a teoria do conhecimento de Freire, de autoria do padre Marcelo Bezerra. E posso dizer que fui muito influenciado por ele, quando me tornei uma espécie de consultor informal da Secretaria de Educação do Recife, na gestão de Edla Soares. Foi quando elaborei 4 pontos-programáticos para o chamado "protagonismo juvenil" nas escolas públicas do Recife:

A oralidade como forma privilegiada de expressão

A cotidianidade (ou o mundo da vida) como estrutura social

A sociabilidade como fator de aprendizagem dos alunos

O  uso expressivo da linguagem

Saber ler a escrita do mundo.

Esses princípios e orientações deviam nos conduzir a um novo conceito de ética e política na sociedade, conhecidos como "cidadania planetária ou em rede", e seus pilares básicos seriam: o ser do cuidado e da responsabilidade mutua de uns com os outros e a natureza, e o respeito à diferença, sobretudo quando a igualdade tornar-se fonte de injustiça e discriminação. (Cf. "Juventude, cidadania e globalização: notas para uma agenda político-pedagógica". Juventude e movimento estudantil: ontem e hoje. Recife, Editora Universitária da UFPE, 2008)

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