O Concurseiro neoliberal

o concurseiro neoliberal trabalha para aumentar a atuação do governo, justamente com a sua presença, quando milita contra a máquina pública e seus (possíveis) futuros colegas

A Justiça dos injustos e o País do descalabro
A Justiça dos injustos e o País do descalabro (Foto: REUTERS/Ricardo Moraes)

Um dos subprodutos mais “interessantes” do golpe é a figura do concurseiro neoliberal. Em busca de um cargo no governo, assume-se, por ideologia, um apoiador do Estado mínimo. “A máquina está inchada e a conta não fecha”, costuma falar, entre uma consulta e outra no vade-mécum ou na Constituição. O mais interessante é que o concurseiro neoliberal trabalha para aumentar a atuação do governo, justamente com a sua presença, quando milita contra a máquina pública e seus (possíveis) futuros colegas. Aquele neoliberal que estuda para concursos costuma dizer que imposto é roubo, muitas vezes sem pensar que o salário dos servidores é uma das mais pesadas destinações da cobrança de taxas.

Sempre considerei esse um estudo de caso de como o antipetismo diminuiu a capacidade cognitiva de seus adeptos. O Estado mínimo, sempre defendido pelo PSDB e agora bandeira do governo fascista de Bolsonaro, foi sempre um dos maiores argumentos contra os governos do PT. Um governo baseado no Estado do bem-estar social, defendido pelos governos petistas, de fato, exige uma máquina grande e em pleno funcionamento.

Não estou dizendo aqui que a máquina pública não precisa de melhoras ou inovações. Precisa. Mas não essas que estão sendo apresentadas pelo atual governo. O “Chicago Boy” Paulo Guedes já iniciou sua “caça aos marajás” (lembrou de alguém?) detonando a aposentadoria do servidor médio. O ministro também reduziu, ou praticamente acabou, com os concursos a curto prazo e anuncia em breve uma reforma administrativa, onde pretende, por exemplo, acabar com a estabilidade.

E agora, com poucos concursos, deveria o concurseiro neoliberal protestar ou reclamar? Realmente uma situação inusitada. Mas a situação piorou bastante, recentemente. O Presidente Jair Bolsonaro fez uma clara ameaça de morte a servidores que atuam na área ambiental. Ao apoiar Luciano Hang, dono das lojas Havan e um dos principais entusiastas do atual governo, que não conseguiu uma licença para abrir uma loja em Rio Grande (RS), Bolsonaro declarou: “Vão atrapalhar na ponta da praia, não aqui”.

Acontece que, como muitos já sabem, “ponta da praia” é uma alusão a um local utilizado, na época da ditadura militar, para executar presos políticos. A declaração foi tão grave que  a Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema) prometeu fazer uma denúncia à ONU contra o Presidente da República.

Agora resta saber se os concurseiros que apoiam o atual governo vão tomar para si a ameaça ou se vão mudar de ofício ou de opinião política. Estudar tanto para estarem, literalmente, na mira do Presidente não parece mais uma boa ideia. Aliás, para eles mesmos, talvez nunca tenha parecido. Mas como as coisas andam acontecendo no Brasil, não podemos duvidar mais de nada. 

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