O deslocamento do campo de disputa da Igreja católica progressista

O Trilhas da Democracia do domingo, 24/11, recebeu o ex-pároco do Morro da Conceição, no Recife, padre Reginaldo Veloso, para uma entrevista que, entre outros assuntos, versou sobre o Sínodo da Amazônia e a liderança do Papa Francisco

(Foto: REUTERS/Remo Casilli)
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O Trilhas da Democracia do domingo, 24/11, recebeu o ex-pároco do Morro da Conceição, no Recife, padre Reginaldo Veloso, para uma entrevista que, entre outros assuntos, versou sobre o Sínodo da Amazônia e a liderança de Jorge Mario Bergoglio - o papa Francisco – à frente da Igreja Católica Apostólica Romana.

No decorrer da entrevista, foi lembrado o papel desempenhado pelaIgreja Católica brasileira na construção do consenso em torno da deposição do presidente João Goulart, por intermédio de um golpe civil-militar, no idos de março de 1964, bem como na legitimação da ordem ditatorial na primeira fase do regime definido pelo sociólogo Florestan Fernandes como autocrático- burguês.

Recordou-se, também, a virada ocorrida no interior da mesma IgrejaCatólica brasileira no momento em que as violações aos direitos civis e políticos tornaram-se política oficial do Estado brasileiro, na passagem dos anos 1960 aos anos 1970, patrocinando o aprisionamento, assassinato, desaparecimento e tortura dos adversários do regime – estivessem estes desempenhando atividades legais ou mergulhados na clandestinidade.

Então, a Igreja Católica brasileira acabou por se tornar a única instituiçãoforte o suficiente para fazer frente a um Estado que se assumia cada vez mais como autoritário na forma e defensor dos interesses dos capitais nacional e internacional na sua essência.

No período em questão, os setores progressistas da Igreja Católicabrasileira – a Igreja de Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Aloísio Lorscheider, ente outros –, que se tornaram hegemônicos na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, tiveram um papel fundamental na edificação de obstáculos às arbitrariedades cometidas pelo regime de 1964 e, ato contínuo, na organização das forças  democráticas que (junto a Ordem dos Advogados do Brasil - OAB e a Associação Brasileira de Imprensa – ABI) contribuíram decisivamente para o encerramento do ciclo ditatorial encabeçado pelos generais.

Passados algo em torno de 40 ou 50 anos desse período de árduaresistência democrática, os setores progressistas da Igreja Católica brasileira se percebem diante de uma tarefa tão difícil quanto aquela brevissimamente descrita acima.

Não falo aqui da disputa por hegemonia com os setores conservadoresdo catolicismo brasileiro, que ganharam força durante o papado de João Paulo II e Bento XVI, mas sim da necessária confrontação com aquela que representa na atualidade uma das bases fundamentais de sustentação das forças políticas protofascistas no Brasil (e em outros países da América do Sul, também): o neopentecostalismo.

O conteúdo dessa confrontação continua a estar inscrita na recentetrajetória da Igreja Católica brasileira, pós-Concílio Vaticano II, de luta em favor das liberdades democráticas e dos direitos sociais da maioria empobrecida da população brasileira. O adversário, porém, deslocou-se para outro campo – medieval na doutrina, moderno na comunicação.

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