O despertar de Makunaima

É comum encontrar pessoas que sequer pararam para pensar que Nuestra América, por exemplo, não é somente latina... Quanto tempo será que levarão para compreender o verdadeiro espírito de Makunaima?, pergunta Ricardo Almeida

Monte Roraima
Monte Roraima

Durante as viagens que realizei pelas fronteiras do Brasil com os demais países daAmérica do Sul, em 2016, na Grande Savana, localizada na fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana, mantive contato com membros das etnias Makuxi e Taurepang, e aprendi que, além delas, os Patamona, Ingaricó e Wapichana tem Makunaima na sua cosmologia.  

Fiquei muito curioso, pois eu conhecia apenas o personagem que Mário de Andrade chamou de “herói nacional sem nenhum caráter”, uma fusão daquilo que o escritor caracterizava como sendo as principais características do povo brasileiro. De imediato, percebi que a reconstrução simbólica do escritor paulista era fruto de um pensamento regional nacionalista do século 19, que vigorava e ainda vigora em algumas regiões do planeta. Não tive dúvidas de que o mito indígena havia sido transformado por obra de um modelo mental que entende a diversidade étnica, linguística e de pertencimento apenas como uma soma de contribuições, e não como uma mistura saudável de simbologias culturais.  

Esse olhar colonizado/colonizador também não reconhece que há séculos as culturas transfronteiriças compartilham hábitos e costumes entre si, como é o caso das comunidades da Grande Savana, que referenciam o Monte Roraima como a grande morada de Makumaima. Para elas, Makunaima é um demiurgo punitivo, que também é o criador dos animais, dos peixes e dos homens para além das conhecidas fronteiras nacionais. 

A verdade é que Makunaima entrou na vida de Mário de Andrade por meio do livro Do Roraima ao Orenoco, de Theodor Koch-Grünberg, um geógrafo e etnólogo alemão que viajou pela região norte do Brasil, sul da Venezuela e Guiana, entre 1911-1913 (as expedições estão narradas, em forma de ficção, no filme O Abraço da Serpente, do diretor colombiano Ciro Guerra, de 2015). Com um olhar europeu de estranhamento, Grünberg diz que conheceu alguns “mitos e lendas em horas de ócio, ao lado da fogueira do acampamento, durante viagens em canoas bamboleantes, quando passava por tranquilos trechos fluviais usando as barracas como velas ou sentados nas pedras banhadas por ondas barulhentas das cachoeiras, ou ainda sob as copas exuberantes das árvores da selva virgem”. 

Nos relatos, Grünberg afirma que Makunaima é um “grande transformador”, e talvez isso tenha despertado o interesse de Mário de Andrade para a construção do seu personagem camaleônico. No entanto, para os povos Pemons (assim são chamadas as etnias daquela região) as façanhas do Makunaima indígena estão recheadas de histórias reais, cujos acontecimentos são narrados num “tempo de origem”, quando a terra, os homens e os animais assumiram a forma que possuem até os dias de hoje. 

Uma delas conta que a humanidade recebeu uma triste herança e que o mundo atual já não possui a mesma natureza daquele em que se vivia antes do corte da grande árvore da vida. Ou seja, os seres “de agora” distanciaram-se da natureza e das linguagens simbólicas, em que o tempo aproxima o passado do presente, e está repleto de memórias e de saberes adquiridos pela oralidade dos antepassados. Deste modo, para quem já leu o Macunaíma de Mário de Andrade, podemos afirmar que o personagem do “napë” (homem branco) acabou cumprindo um papel irônico e também pejorativo em relação às culturas indígenas.  

Aos poucos, fui compreendendo que Makunaima também faz parte daquela cosmovisão de mundo que o escritor cubano Alejo Carpentier chamou de o “real maravilhoso”, e que, portanto, foi reduzida para servir e sustentar mais uma obra literária com influências regionais nacionalistas. No entanto, apesar disso, também percebi que as peripécias de Makunaima seguem vivas, transitando de uma aldeia para outra aos pés do Monte Roraima, que simboliza o tronco da grande árvore remanescente de uma grande inundação. É fundamental conhecer e assimilar essa tradicional cultura indígena, pois ela abre as portas da percepção para outras dimensões da nossa complexa realidade. 

As comunidades que já aprenderam a natureza desse mito assimilaram o conceito de alteridade mais facilmente, pois o Outro faz parte da sua realidade e, ao mesmo tempo, possui uma história em comum. Além disso, a curiosidade sobre a cultura do Outro expõe contradições menos líquidas, saberes comuns, estereótipos, magias e também a possibilidade de convivência harmoniosa entre os diferentes. 

Apesar de os livros escolares citarem os povos indígenas como importantes para a formação das culturas nacionais, persistem desconhecimentos sobre a transculturação e interculturação que teve lugar nas Américas, principalmente em relação às influências indígenas e de matriz africana. Para o olhar colonizado/colonizador (maniqueísta) os povos indígenas e os de matriz africana são “os outros”, os diferentes, cujas culturas foram silenciadas, e que hoje estão apenas reivindicando os seus espaços nas diferentes áreas e narrativas culturais. No entanto, é muito mais do que isso! 

É importante reconhecer que nas regiões de fronteira nacional existe uma floresta de valores simbólicos e mensagens iconográficas que definem a abrangência de amplos territórios de convivência cultural. No entanto, apesar disso, a maioria das pessoas ainda se debate sobre a compreensão desses fenômenos e sobre a legitimidade dos saberes populares, pois está presa à realidade aprendida nos livros e não na práxis (reflexão prática, crítica, histórica e sensível) educadora e libertadora. 

É comum encontrar pessoas que sequer pararam para pensar que Nuestra América, por exemplo, não é somente latina... Quanto tempo será que levarão para compreender o verdadeiro espírito de Makunaima? Nesse contexto, o nosso maior desafio passa pela desconstrução das narrativas colonialistas, para que os significados mais profundos dessas trocas culturais sejam reconhecidos e valorizados. Porém, para que isso aconteça, será preciso superar aquele olhar “de fora” e compreender que os indivíduos e as comunidades do continente sul-americano, em função das intensas migrações, passaram e passam por um dos maiores processos de transculturação da humanidade... E que a natureza de Makunaima está na maneira coletiva e visceral de se viver, desapegado dos egos e das discriminações culturais. 

Por princípio, os povos indígenas são povos que celebram a paz, e essas violências culturais que estão ocorrendo no país e, principalmente, naquela região, são patrocinadas pelos velhos e conhecidos “homens brancos” exploradores, em busca de petróleo, de ouro, de nióbio e de outras riquezas minerais. Por isso, eu acredito que o despertar de Makunaima deverá ocorrer quando unirmos as nossas virtudes racionais com as emocionais e simbólicas, que também se manifestam por meio dos mitos e das lendas populares, e que sempre estão associadas aos nomes dos rios e aos biomas em que costumamos transitar. Como o povo é o sujeito da história e não um simples objeto, será preciso entender que as coisas estão no mundo para quem quiser compreendê-las, senti-las e querê-las.

P.S. Trata-se de uma adaptação do meu artigo “El gaucho e Makunaima: dois mitos transfronteiriços”, publicado em 2017, noSul21.

Conheça a TV 247

Mais de Blog

Ao vivo na TV 247 Youtube 247