O egoísmo e a lucidez

Eis que surge uma voz lúcida e humanizada em meio a tanta arrogância daqueles que deveriam saber que mens sana in corpore sano é possível com a arte

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Ao Fabrício Pombo

Em 2013, com a previsão da chegada dos médicos cubanos ao Brasil, ela se assanhou. Vestiu-se com o mais odioso preconceito e se juntou ao grupo de médicos para recepcionar os guerrilheiros de Fidel. Estava elétrica com a empreitada, afinal nunca foi pessoa de participar desse tipo de manifestação. Odiava os baderneiros, sobretudo aqueles que vinham lá de Cu… Evitava até a falar o nome do país. 

 Acordou mais cedo do que o costume, penteou os cabelos artificialmente louros, maquiou o rosto claro com traços que sinalizam um antepassado negro e foi protestar contra a chegada daqueles que, ao seu entender, usurpariam o emprego dos médicos brasileiros em locais cuja classe, com raras exceções, jamais exerceu ou exercerá sua função: nas periferias da cidade, nos municípios pobres e afastados do país tão grandioso, quanto  injusto. Mas vai entender a lógica!   

Ela havia tomado gosto pela manifestação de gente limpinha e cheirosa. Enquanto o grupo da ilha caribenha desembarcava na cidade luz do nordeste brasileiro, ela e os seus neófitos do ódio vociferavam, com olhos esbugalhados e a baba de animais hidrófobos, um rosário de adjetivos para desqualificar o grupo de médicos reconhecido no mundo inteiro. Escravos! Traidores! A cena teve alguma repercussão na imprensa, causando vergonha alheia aos que ainda a possuíam. Aos que eram desprovidos dela, foi motivo de grandes cumprimentos risíveis e comentários elogiosos em horários de plantão. Em 2019, uma das lideranças do desatino foi premiada com a coordenação do programa Mais Médicos. Agora o chicote está em suas mãos. 

Agora, em 2020, diante de uma pandemia que ilhou cada ser humano em sua bolha, muitos profissionais autônomos se encontram ao deus dará, sem dinheiro e alguns já sem esperança; dentre eles, estão os profissionais do entretenimento. Muitos fazem lives para que o seu público não os esqueçam; para que não deixem de fazer a sua arte, e sobretudo para que as pessoas se sensibilizem e doem algum dinheiro para se manterem em tempos de isolamento. Afinal, um artista sem mostrar a sua arte é tal qual uma pérola escondida em sua concha. Tão precioso, tão único, mas tão só.

O Governo do Estado do Ceará sensível à condição do nosso celeiro de artistas lançou o edital “Dendicasa”, em bom cearensês, para contemplá-los financeiramente durante a quarentena. Esperemos que seja menos burocrático e rápido. A nobre atitude governamental foi rechaçada e duramente criticada em nota do Sindicato dos Médicos do Ceará: “Enquanto outros países estão tomando grandes medidas para proteger a saúde da população, o Governo do Estado do Ceará anunciou um edital para fazer shows gratuitos por transmissão online, contratando cerca de 400 artistas. Isso custou para os cofres públicos o gasto de R$ 1 milhão. Não é falta de recurso, mas sim de prioridade”.

A nota inoportuna e egoísta redigida sob a égide da má-fé, ainda intenciona confundir a população, dando a entender que o governo está transferindo verbas da saúde para esse fim, quando na verdade, esse montante já seria destinado à pasta da cultura no estado nordestino. O que esperar mais dessa gente? Graças aos deuses e às deusas, a vida como caixinha de surpresa, nos arrebata. Eis que surge uma voz lúcida e humanizada em meio a tanta arrogância daqueles que deveriam saber que mens sana in corpore sano é possível com a arte.  

Assim, dedico à surpresa, com nome e sobrenome, essa crônica. 

Aos outros, que apoiam a postura do sindicato, nenhuma palavra. Zélia Duncan tratou disso , em outro momento, lindamente:“Você não precisa de artistas? Então fecha os olhos, mora no breu. Esquece o que a arte te deu, finge que não te deu nada. Nenhum som, nenhuma cor, nenhuma flor na sua blusa. Nem Van Gogh, nem Tom Jobim, nem Gonzaga, nem Diadorim".     

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