O eleitor é refém do sistema

Eleições no Brasil não vão além de um rodízio de raposas. O carreirismo político-hereditário, que criam verdadeiras reservas de mercado para sobrenomes como Sarney, Lobão, Calheiros, Neves, existe em função do controle a mão de ferro dos partidos políticos que comandam

Eleições no Brasil não vão além de um rodízio de raposas. O carreirismo político-hereditário, que criam verdadeiras reservas de mercado para sobrenomes como Sarney, Lobão, Calheiros, Neves, existe em função do controle a mão de ferro dos partidos políticos que comandam
Eleições no Brasil não vão além de um rodízio de raposas. O carreirismo político-hereditário, que criam verdadeiras reservas de mercado para sobrenomes como Sarney, Lobão, Calheiros, Neves, existe em função do controle a mão de ferro dos partidos políticos que comandam (Foto: Celso Raeder)

Um dos mais experimentados políticos do estado do Rio de Janeiro me convidou para um café, e fez o seguinte desafio: aposto uma caixa de whisky18 anos, contra uma lata de cerveja sua, como as eleições desse ano serão as de menor índice de renovação. Minha cabeça ferveu! Eu só pensava onde colocar aquela coleção de garrafas, quando meus devaneios foram interrompidos pela seguinte pergunte: Diga cinco nomes novos que disputarão as eleições para deputado estadual e federal? Travei na hora. Por mais que me esforçasse, não encontrei um único candidato que simbolizasse as transformações desejadas pela sociedade para o parlamento brasileiro, e concluí: Eleições no Brasil não vão além de um rodízio de raposas.

Isso explica, por exemplo, a existência de uma franquia Bolsonaro na vida pública brasileira. O carreirismo político-hereditário, que criam verdadeiras reservas de mercado para sobrenomes como Sarney, Lobão, Calheiros, Neves, existe em função do controle a mão de ferro dos partidos políticos que comandam. São eles que encabeçam as nominatas e recebem a maior parte do dinheiro destinado às campanhas. Se dizem puxadores de legenda, mas na verdade não passam de batedores de carteira dos votos alheios, que acabam contabilizados em favor da casta, através da manobra imoral de transferência de votos pelo coeficiente eleitoral.

Dessa maneira não há renovação possível. O candidato de primeira viagem a deputado estadual pelo MDB do Ceará, por exemplo, vai receber pilhas de santinhos com sua foto e número, tendo a companhia na cédula do candidato a deputado federal Rodrigo Oliveira, filho do senador Eunício Oliveira, vulgo "o Índio", como é conhecido em delações da Lava Jato. Em outras palavras, quando os partidos políticos abrem as portas para novas filiações, estão em busca tão somente de cabos eleitorais para a elite que comanda estas legendas.

Além da engenharia de bloqueio que desequilibra o jogo político dentro dos partidos, existem outros obstáculos que impedem a renovação na composição das casas legislativas estaduais e federais. O principal deles é o dinheiro. Até agora ninguém perguntou para que serve o tal dinheiro de Caixa 2 eleitoral, desculpa de 10 entre 10 políticos enredados em escândalos de corrupção. Pois eu digo: essa montanha de dinheiro é usada para comprar votos. Se hoje o dinheiro não vai mais para as mãos do eleitor, ele serve para comprar apoios de lideranças comunitárias, pastores, milicianos, traficantes, qualquer um que tenha ascendência sobre um número significativo de votos.

E se não bastasse tudo isso, a História do Brasil vem colecionando casos de reputações destruídas pelo Ministério Público, pulverizando lideranças políticas emergentes e desvinculadas do status quo da bandalheira nacional. Pergunte para o ex-prefeito de Jarinu, Vanderlei Gerez Rodrigues, de que adiantou o Tribunal de Justiça de São Paulo inocenta-lo das acusações de improbidade administrativa, depois de ter sido objeto de todo tipo de ofensa e acusações que contaminaram a opinião pública local e destruíram sua carreira política?

O Google revela que casos assim estão ocorrendo às centenas. Longe de questionar a importância da instituição quanto à necessidade de fiscalizar a gestão da coisa pública, creio se fazer necessário algum tipo de controle externo para combater os excessos que estão sendo cometidos em todo o país. Uma denúncia irresponsável, com a ressonância da imprensa, é uma condenação moral definitiva que o Judiciário não consegue reparar.

Foi o que ocorreu em Campinas, quando o Ministério Público "pautou" a imprensa local com uma série de denúncias que nunca foram comprovadas. O promotor responsável pelo caso Sanasa, que supostamente envolvia a esposa do então prefeito num esquema de contratos superfaturados, fez a alegria da mídia local, com suas suspeitas nunca comprovadas. Primeiro disse que havia um poço numa propriedade do prefeito, cheio de dinheiro. Jornalistas correram para o local e não encontraram nem o poço e nem o dinheiro. Aí surge com uma história fantasiosa da existência de um shopping em Miami, que seria de propriedade da família do Dr. Hélio de Oliveira Santos. Mais manchetes escandalosas e mais uma mentira. Aí surge a denúncia de que um sítio da família tinha CNPJ, o que configuraria subterfúgio para lavar dinheiro, ignorando que qualquer propriedade rural precisa, obrigatoriamente, ter um registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas. E do tal caso Sanasa, que até hoje o Ministério Público não chegou a uma conclusão sobre o montante supostamente desviado, restaram muitas respostas e a destruição da carreira de um político que contava mais de 86% de aprovação como prefeito de Campinas.

Foi por tudo isso que desisti da aposta. Não sou mesmo apreciador de whisky e vou aproveitar minha última latinha de cerveja que tem na geladeira.

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