O elogio da barbárie: A comemoração de Witzel e um corpo estendido no chão

Para além da notícia do episódio ocorrido na Ponte Rio-Niterói, o ato está inserido nos marcos do pensamento majoritário vigente que defende a criminalização da pobreza e a militarização crescente do conflito social no país

Manhã de terça-feira, dia 20, Ponte Rio-Niterói, um jovem de 20 anos comanda um sequestro de passageiros de um ônibus. Após quatro horas de impasse e tentativas de negociação acontece o desfecho: Um sniper do Bope abate William Augusto da Silva, um homem pobre da periferia do Grande Rio. As cenas são acompanhadas on line e ao vivo por milhões de brasileiros. Há expectativa, tensão e torcida.

Abatido, o corpo inerte estendido no chão, ainda seria alvo de uma cena chocante e um sinal dos tempos em que estamos vivendo: O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, desce de um helicóptero e comemora o resultado da operação policial como se fosse uma final de um campeonato de futebol. No que foi secundado por um penca de altas autoridades da República: Presidente Bolsonaro, ministro da Justiça, Sergio Moro, e João Doria, governador paulista, também comemoraram a morte de William. Além de apresentadores de TV que elogiaram “a morte tecnicamente perfeita”, a precisão do tiro, a tragédia com um final feliz como bradou um colunista da Gazeta do Povo…Um elogio da barbárie.

Assisti o noticiário sobre o sequestro e revi as cenas pertubadoras da morte e da vibração do governador. Repassei as cenas em ritmo “slow motion”, frames em frações de segundo na retina, que separaram a vida da morte, com o triunfo do assassinato e da barbárie festejada. Meus sentimentos foram de tristeza, raiva e revolta pelo conjunto da obra e de seus autores e também da vítima, que no seu desespero acreditou que enfrentaria uma força superior com uma arma de brinquedo e uma garrafa pet com um algum combustível.

Para além da notícia do episódio ocorrido na Ponte Rio-Niterói, o ato está inserido nos marcos do pensamento majoritário vigente que defende a criminalização da pobreza e a militarização crescente do conflito social no país. Segundo um levantamento realizado pelo portal UOL, divulgado nesta semana, no primeiro semestre de 2019 foram registradas 881 mortes em operações policiais no estado do Rio de Janeiro. O dado que chama atenção na análise dos números da matança da “política de abate” conduzida pelo governador carioca é a seletividade geográfica: as operações que resultaram em morte ocorreram em comunidades pobres (a maioria), que contam com a atuação de narcotraficantes. E pasmem! Nas áreas sob controle das milícias, o verdadeiro e milionário crime organizado, nenhuma morte ocorreu em decorrência de operações policiais.

A chegada da extrema-direita ao governo federal impulsionou a política de criminalização da pobreza e do extermínio como forma de combate da criminalidade. O perigoso populismo fascista é o discurso predominante no aparelho policial e de boa parte do Judiciário. Para o grande público, a extrema-direita promete não uma política de segurança estruturada e integral, mas o armamento individual para a classe média, a milícia para os pobres e o Bope, a Força Nacional e a segurança especializada particular para os mais ricos e abastados. Estado excludente e classista com um sistema policial repressivo e em aliança com a milícia paramilitar. É o modelo que vem sendo instituido na prática e que também busca a legitimação institucional com o nefasto e demagógico “projeto anticrime” do ministro da Justiça Sergio Moro.

A questão da segurança pública e do combate ao crime organizado é complexa, de difícil resolução, mas a esquerda precisar enfrentar o tema com coragem, propor medidas e disputar politicamente com a narrativa da extrema-direita bolsonarista. Questões como a defesa intransigente dos direitos humanos, reforma do sistema penal, fim da política de encarceramento em massa, descriminalização das drogas, combate duro aos partidos do crime e aos milicianos, mais investimentos sociais nas comunidades pobres, a reformulação da doutrina das forças de segurança e o papel de cada ente da federação são alguns dos desafios para um debate sobre uma política de segurança pública estruturada e integral.

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